Primeiro muçulmano a se tornar prefeito de Nova York, o socialista Zohran Mamdani toma posse nesta quinta-feira (1º) prometendo “inaugurar uma nova era” —linguagem escolhida por um político ciente das altas expectativas que a esquerda do Partido Democrata tem de seu mandato à frente da maior cidade dos Estados Unidos.
Mamdani, 34, seguirá a tradição nova-iorquina de duas cerimônias de posse: uma menor, privada, e uma maior, aberta ao público. Fazendo jus a uma campanha carregada de simbolismo, o democrata resolveu que o primeiro juramento seria oficializado à meia-noite (2h do dia 1º em Brasília) pela inimiga de Donald Trump e procuradora-geral de Nova York, Letitia James, e acontecerá em uma estação de metrô abandonada exatamente abaixo da sede da Prefeitura.
Construída no início do século 20 e ricamente decorada, a estação é hoje um pátio de manobra para trens do metrô em uma cidade na qual cerca de 95% das mais de 400 estações foram inauguradas antes de 1960, segundo estimativas. “Era um monumento físico a uma cidade que ousava ser bela e construir grandes coisas que transformavam a vida dos trabalhadores”, disse Mamdani em nota explicando a decisão e dando pistas dos principais temas que devem dominar seu discurso de posse.
“Essa ambição não precisa ser uma memória relegada ao nosso passado, nem deve ser compreendida apenas no que diz respeito a túneis sob a prefeitura: ela será o propósito do governo que tem a sorte de servir os nova-iorquinos no prédio acima”, afirmou o socialista, cuja campanha contou com propostas como ônibus gratuitos e congelamento de aluguéis como forma de combater a disparada do custo de vida na cidade de 9 milhões de habitantes.
Já a segunda cerimônia de posse deve acontecer na própria prefeitura, às 15h de Brasília, logo antes de uma festa que vai fechar sete quarteirões da Broadway. Para o evento público, o juramento será lido por ninguém menos do que o senador Bernie Sanders, também socialista e inspiração declarada de Mamdani durante a campanha eleitoral em que derrotou o ex-governador Andrew Cuomo.
Em mais uma demonstração de popularidade, o comitê de inauguração de Mamdani inclui longa lista de celebridades que devem estar presentes na cerimônia de posse. Entre os nomes está a atriz Cynthia Nixon, de “Sex and the City”, o ator John Turturro, de “Ruptura”, o comediante e dramaturgo Cole Escola, a educadora e estrela da televisão infantil Ms. Rachel, e o lendário saxofonista de jazz Sonny Rollins.
O socialista chega ao cargo, uma das posições de maior visibilidade do país, impulsionado por uma base jovem e entusiasmada com a vitória improvável, superando a velha guarda democrata primeiro na primária do partido e depois na eleição geral. A campanha, baseada em vídeos online, presença em canais no YouTube e na rede de streaming Twitch e forte trabalho de rua, foi tão bem-sucedida que já começa a ser emulada por alguns democratas em outras partes dos EUA.
Ao mesmo tempo, nomes importantes da sigla hesitaram em declarar apoio ao socialista ao longo da caminhada e o fizeram tardiamente, como a governadora de Nova York, Kathy Hochul, ou simplesmente se recusaram em absoluto —como o principal cardeal democrata no Congresso, o senador por Nova York Chuck Schumer.
As grandes figuras democratas tardaram em abraçar Mamdani em parte pela posição do democrata em relação à guerra na Faixa de Gaza. Forte crítico de Israel, o socialista enfrentou acusações persistentes de que apoiava linguagem extremista em atos pró-Palestina e que contribuía com o antissemitismo na cidade com a maior população de judeus fora de solo israelense.
Mamdani também sofreu ataques constantes do presidente Donald Trump, que chegou a ameaçar interromper financiamento federal a Nova York se o socialista fosse eleito. A retórica dura, porém, só durou até o momento em que os dois se reuniram na Casa Branca no dia 21 de novembro, dias após a vitória do socialista.
Em mudança brusca de tom, o presidente elogiou o democrata, dizendo que ele pode surpreender e que os nova-iorquinos terão um prefeito “ótimo”. Nisso, pelo menos, a esquerda americana parece concordar com Trump.




