O novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou em seu discurso de posse nesta quinta-feira (1º) que seu governo vai reforçar as propostas de sua campanha, criticada por opositores como radicais. “Fui eleito como um democrata socialista e vou governar como democrata socialista”, afirmou.
Ele, por outro lado, reconheceu desconfianças em torno de sua agenda política e ressaltou que vai governar para todos os nova-iorquinos, citando inclusive eleitores do presidente Donald Trump que votaram no primeiro prefeito muçulmano a assumir o cargo da maior cidade do país.
Em discurso com uma série de contrapontos ao governo federal, Mamdani fez referências às suas propostas de campanha e a imigrantes, alvo da gestão republicana. O democrata reforçou suas principais promessas, incluindo a taxação dos mais ricos, e fez da desigualdade da cidade uma das principais denúncias de seu discurso.
“Vamos restaurar a confiança na democracia ao criar um outro caminho”, disse ele, defendendo que o governo municipal deve ser reconhecido pela excelência tal como o setor privado na cidade, dos espetáculos da Broadway ao Madison Square Garden. “Nós vamos transformar a cultura da prefeitura de uma de ‘não’ para uma de ‘como’.”
Brincando com a recente descoberta de que a cidade contava erra do seu número de prefeitos, ele agradeceu as dezenas de milhares de pessoas que enfrentaram o frio de janeiro para acompanhar a posse. Mamdani também agradeceu a seus pais e esposa, além de citar a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Bernie Sanders, a quem chamou de sua maior inspiração.
“Me falaram que esse era um momento em que eu deveria recalibrar as expectativas. Eu não vou fazer isso”, disse Mamdani. “Nós talvez não sejamos bem sucedidos, mas não seremos acusados de não tentar.”
Zohran citou ainda ex-prefeitos como Bill de Blasio, David Dickens e La Guardia, vistos como figuras à esquerda na história da cidade. “Minha administração vai restaurar esse legado”, disse. “Não vamos nos acovardar diante de desafios que outros acharam complexos demais”, afirmou.
O novo prefeito nova-iorquino encerrou seu discurso pedindo a todos que ficassem em pé, encorajando a todos a demandaram mais de si e afirmando que o movimento que o elegeu precisa continuar existindo para que consiga governar.
“Vamos ser um exemplo para o mundo. Se o que Sinatra disse é verdade, vamos mostrar que podemos conseguir fazer aqui e em todo lugar. O trabalho continua, ele apenas começou”, afirmou.
Mamdani chegou à prefeitura por volta das 12h (horário local) acompanhado da primeira-dama, Rama Duwaji. A chegada, transmitida em telões espalhados no entorno da sede do governo municipal, foi comemorada pelos apoiadores que se concentravam no local e enfrentavam uma sensação térmica de -8°C. A equipe do novo prefeito esperava um público de 40 mil pessoas.
Murad Awawadeh, presidente da Coalizão de Imigrantes de Nova York, uma das maiores entidades de imigrantes dos EUA, conhece Mamdani há mais de dez anos, a quem considera um amigo pessoal.
Ele afirma que o novo prefeito não vai permitir a colaboração da polícia local com a ICE, a força federal usada pelo presidente Donald Trump para executar sua política de deportações em massa. Awawadeh diz que essa parceria ocorria sob o prefeito anterior, Eric Adams, que, apesar de democrata, se aproximou do mandatário republicano após cair em desgraça por acusações de corrupção.
“Sabemos que Mamdani vai garantir que as políticas de cidade santuário [que protegem imigrantes indocumentados] serão respeitadas. Sabemos que ele vai garantir o investimento em serviços legais para imigrantes, para que as pessoas tenham um advogado para se proteger das ações federais”, disse Awawadeh à Folha no evento de posse do novo prefeito.
Na mesma linha, a ativista pró-imigrantes Aber Kawas, candidata democrata à Assembleia Estadual de Nova York, teme que o governo federal faça a cidade de exemplo para mostrar sua força. Por isso, ela vê como positiva a linha de comunicação estabelecida de pelos dois em um encontro surpreendentemente amistoso na Casa Branca no final do ano passado.
Primeiro prefeito muçulmano de Nova York e o mais jovem a governar a cidade desde 1892, o democrata de 34 anos seguiu a tradição local de fazer duas cerimônias de posse: uma menor, privada, e uma maior, aberta ao público.
O primeiro juramento foi oficializado à meia-noite desta quinta (2h em Brasília) por Letitia James, procuradora-geral de Nova York e desafeto do presidente Donald Trump, e aconteceu em uma estação de metrô abandonada exatamente abaixo da sede da Prefeitura.
Durante a cerimônia, Mamdani usou um Alcorão de seu avô e outro que pertenceu a Arturo Schomburg, escritor e historiador negro. Foi a primeira vez que um prefeito fez o juramento com o livro sagrado do islã.
Já a segunda cerimônia de posse aconteceu na própria prefeitura, logo antes de uma festa que vai fechar sete quarteirões da Broadway —o local fica distante da altura da avenida conhecida pelos espetáculos musicais.
Para o evento público, o juramento foi lido pelo senador Bernie Sanders, também socialista e inspiração declarada de Mamdani durante a campanha eleitoral em que derrotou o ex-governador Andrew Cuomo.
Figura emblemática da esquerda socialista americana, o senador foi aplaudido ao chegar para a cerimônia. Seu figurino não passou despercebido, lembrando o famoso meme estrelado por ele há alguns anos, quando foi fotografado de braços cruzados usando luvas e jaqueta na posse do ex-presidente Joe Biden, em um também frio janeiro de 2021.
Aclamado ao subir ao palco, o senador denunciou o ódio, as injustiças e as divisões no país hoje. “Nova York, obrigada por inspirar nossa nação”, disse Sanders. “Vocês desafiaram o establishment democrata, republicano, o presidente dos EUA e oligarcas ricos e derrotaram eles na maior reviravolta da história americana”, afirmou, sob aplausos.
Reconhecendo a complexidade de governar Nova York, Sanders disse que Mamdani agora precisará dos esforços de base vistos em sua campanha também em seu governo. “Oponentes de Zohran chamaram sua agenda de radical, comunista e inalcançável. É mesmo?”, questionou, sarcástico.
“Direito à moradia, educação infantil, transporte de ônibus gratuito, comida acessível, e tributar grandes corporações não são ideias radicais”, defendeu, enumerando as principais promessas de campanha de Zohran. “Tributem os ricos”, entoou o público em resposta.
A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez foi a primeira a discursar na cerimônia, após a execução do hino americano. A nova-iorquina disse que o novo prefeito vai se dedicar aos trabalhadores da cidade, e que sua posse marca uma nova era na cidade.
“Nós escolhemos coragem em vez de medo em Nova York”, afirmou, após se referir ao período turbulento enfrentado pelo país —uma referência indireta a Trump. “Nós escolhemos esse caminho porque sabemos que é o jeito correto, é o jeito inteligente, e porque sabemos que se podemos fazer isso aqui, podemos fazer em todo lugar”, afirmou, usando o famoso verso de Sinatra sobre a cidade para enunciar a esperança democrata de que a plataforma mais à esquerda de Mamdani seja ampliada para além da cidade.
Laetitia James, autora de uma as ações criminais contra Trump, foi aplaudida ao subir ao palco para conduzir o juramento de Mark Levine, responsável pelo orçamento municipal. Ele prometeu apoiar o novo prefeito a executar suas principais promessas de campanha, como moradia e educação infantil acessíveis, e a proteger a comunidade imigrante das ações do governo federal.
A cerimônia alternou posses e discursos de figuras políticas com momentos comandados por religiosos e artistas. Logo no início, o imã Khalid Larif fez uma prece acompanhado por lideranças de outras religiões na cidade. Um coral de crianças de Staten Island entoou “Somewhere over the Rainbow”, e o poeta Cornelius Eady declamou um texto dedicado à comunidade queer. Lucy Dacus cantou o hino trabalhista “Bread and Roses” (pão e rosas), que defende o direito à comida, lazer e artes da população.
Amadou Ly, um americano de origem senegalesa que chegou ao país de modo irregular há mais de 20 anos, contou sua história. “Ser indocumentado significava viver com medo”, disse. Atuando como porta-voz de imigrantes que hoje sofrem as ações do governo Trump, como uma família venezuelana presente no evento, Ly introduziu a posse de Jumaane D. Williams como defensor público de Nova York.
Em um discurso emocionado, Williams foi aplaudido de pé ao começar a chorar quando se dirigiu a si próprio quando jovem, dizendo “pequeno garoto negro, você é valioso”. Ele evocou o mantra viral no Brasil após a eleição de Jair Bolsonaro “ninguém solta a mão de ninguém”, e usou a frase traduzida para o inglês para encerrar seu juramento.
O comitê de inauguração de Mamdani inclui longa lista de celebridades que devem estar presentes na cerimônia de posse. Entre os nomes está a atriz Cynthia Nixon, de “Sex and the City”, o ator John Turturro, de “Ruptura”, o comediante e dramaturgo Cole Escola, a educadora e estrela da televisão infantil Ms. Rachel, e o lendário saxofonista de jazz Sonny Rollins.
Nascido em Kampala, capital de Uganda, Mamdani mudou-se aos sete anos para Nova York com os pais, de origem indiana. Filho de um professor da Universidade Columbia e de uma diretora de cinema, tornou-se cidadão americano em 2018.
Antes de ingressar na política, trabalhou como conselheiro habitacional, ajudando moradores de baixa renda do Queens a evitar despejos. Formado em estudos africanos pela Bowdoin College, criou na faculdade um grupo de defesa da Palestina, bandeira que também levou à campanha para prefeito.
Mamdani ainda chegou a ser cantor de rap, um histórico que contribuiu para seu carisma e forte conexão com a juventude. Seu apelo popular também vem de propostas voltadas ao custo de vida, especialmente o da habitação —um dos maiores problemas de Nova York.




