Vemos retorno dos EUA como poder policial, diz analista – 04/01/2026 – Mundo

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A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos no último sábado (3) foi o primeiro capítulo do retorno de Washington como poder policial regional, afirma o brasilianista americano Brian Winter.

“O que estamos realmente vendo é o retorno do Corolário Roosevelt. Esta é uma referência a Theodore Roosevelt, que afirmou, nos anos 1900, que os EUA não apenas rejeitariam a presença de potências extra-hemisféricas, que era a Doutrina Monroe, mas também agiriam como um poder policial regional para garantir a estabilidade”, diz Winter, que é também editor-chefe da revista Americas Quarterly.

Segundo ele, essa foi a filosofia predominante de Washington durante a maior parte dos últimos 200 anos. “No longo arco da história e política externa dos EUA, essa forma de pensar é muito comum”, afirma. “Os 35 anos desde o fim da Guerra Fria foram a exceção.”

A reedição da política de Roosevelt tem riscos, continua, mas é difícil traçá-los a partir de um evento tão recente e com uma figura tão impopular como Nicolás Maduro, agora preso em Nova York para responder por acusações de narcotráfico e terrorismo após ser capturado pelos EUA.

“Eu vejo uma América Latina que está claramente se deslocando para a direita no momento, e uma das principais razões é a implosão da Venezuela nos últimos dez anos”, afirma Winter. “Isso desacreditou políticas socialistas e de esquerda.”

Antes de sábado, fazia quase 40 anos que os EUA não invadiam um país na América Latina. Como a operação vai repercutir na região?

Acho que esta foi a decisão mais importante e arriscada que Washington tomou na América Latina em mais de 35 anos, desde as guerras da América Central e a invasão do Panamá nos anos 1980. O desenrolar vai determinar as relações de Washington na região pelos próximos anos. Pode impactar eleições domésticas, pode criar oportunidades para algumas empresas multinacionais, mas complicações para outras. A aposta de Trump é que Delcy Rodríguez será melhor para os interesses dos EUA do que Maduro.

A história nos mostra os tipos de riscos que advêm desse tipo de intervenção americana na América Latina. Podemos traçar uma linha direta entre a Guerra Hispano-Americana de 1898 e as invasões de República Dominicana, Nicarágua e Haiti no início do século 20 e a ascensão do nacionalismo latino-americano, que eventualmente deu origem a figuras como Fidel Castro e Juan Perón, cuja identidade se baseava na rejeição do imperialismo estadunidense.

Os resultados complicaram os interesses e investimentos dos EUA durante grande parte do século passado. Não sei se veremos uma reação semelhante desta vez, porque Maduro era muito impopular e, sinceramente, não acredito que os EUA serão uma força de ocupação na Venezuela. Mas, como dizem, a história nem sempre se repete, às vezes rima.

A invasão do Panamá aconteceu em outro contexto. Como a operação de sábado se assemelha à do Panamá e como se difere?

A invasão do Panamá também terminou com Manuel Noriega em um agasalho esportivo escoltado para fora do país por alguém vestindo um uniforme da DEA [agência federal de combate ao narcotráfico dos EUA]. E alguns dos argumentos contra Noriega e Maduro —ambos como supostos chefões de impérios exportadores de cocaína— são semelhantes.

Uma diferença importante é que Maduro é impopular tanto dentro da Venezuela quanto no resto da América Latina em um grau muito maior do que Noriega jamais foi. E isso torna a reação política na região imprevisível. As pessoas ficarão bravas com o retorno de uma Washington que intervém ou ficarão mais felizes com a saída de um ditador cujas políticas levaram a América Latina a ser sobrecarregada por mais de 7 milhões de migrantes venezuelanos nos últimos 10 anos?

E eu sei que a experiência brasileira é um pouco diferente. O Brasil conseguiu absorver os venezuelanos que chegaram, mas em Colômbia, Peru e Chile, as tensões que foram criadas por este fluxo sem precedentes de pessoas têm tido um impacto real na economia e na política. José Antonio Kast acabou de ganhar uma eleição no Chile, em parte, prometendo construir um muro de fronteira no estilo Trump. Estou tentando descobrir qual reação prevalecerá.

Trump criticou ao longo de toda a sua vida pública o que chamou de “guerras inúteis” dos EUA, e agora invadiu a Venezuela. O que isso significa para sua gestão e seus apoiadores?

É muito claro que Trump tem um conjunto diferente de regras para o Hemisfério Ocidental do que tem para o resto do mundo. Ele falou no sábado sobre o retorno da Doutrina Monroe, mas o que estamos realmente vendo é o retorno do Corolário Roosevelt. Esta é uma referência a Theodore Roosevelt, que afirmou, nos anos 1900, que os EUA não apenas rejeitariam a presença de potências extra-hemisféricas, que era a Doutrina Monroe, mas também agiriam como um poder policial regional para garantir a estabilidade. E isso é essencialmente o que Trump acabou de fazer na Venezuela. É o mesmo raciocínio que levou os EUA a invadirem vários países nos anos 1900 e 1910 (estou falando de Nicarágua, República Dominicana, Haiti e Cuba) em nome de uma proteção da estabilidade e dos interesses dos EUA.

Agora, vamos ser claros. Trump não vai começar a invadir todos os países latino-americanos de cujos governos ele discorda. Ele não tem apoio político doméstico para fazer isso. E o problema para Trump não é o Partido Democrata, é sua própria base, a base Maga [acrônimo para Make America Great Again, ou Faça a América Grande Novamente]. É aqui que acho que as coisas ficam complicadas e incertas. Trump parece ter mais tolerância e mais disposição para fazer esse tipo de coisa nas Américas. Ouvimos isso em sua entrevista coletiva no sábado. Alguém comparou isso ao Iraque e ao Irã, e ele disse que aquelas eram guerras que estavam a 10 mil milhas de distância. O contraste foi muito esclarecedor.

No longo arco da história e política externa dos EUA, essa forma de pensar é muito comum. Essa ideia de que o Caribe, em particular, é quase como uma terceira fronteira, que é incumbência do interesse nacional e da segurança dos EUA, tem sido a filosofia predominante de sucessivos governos em Washington durante a maior parte dos últimos 200 anos. Os 35 anos desde o fim da Guerra Fria foram a exceção.

Nos últimos meses, o presidente Lula (PT) vinha reconstruindo uma ponte com Trump, mas agora criticou fortemente a invasão. O que isso pode significar para o Brasil e sua relação com os EUA?

Eu achei que a declaração brasileira foi cuidadosamente redigida. Ela refletiu princípios de longa data da política externa brasileira. Também fiquei impressionado com como reverberou nas últimas 24 horas, inclusive por autoridades de lugares como Chile, México, Colômbia e Peru. Ficou claro que os olhos de grande parte da América Latina no sábado estavam voltados para Brasília.

Quanto ao impacto sobre esta trégua entre EUA e Brasil, que está em vigor desde novembro, acho que é muito cedo para dizer. Delcy fez uma declaração muito forte no sábado depois que Trump disse que iria tentar trabalhar com ela. [O secretário de Estado] Marco Rubio, quando consultado mais tarde, disse que ela estava falando para seu público doméstico. Suspeito que, em Washington, havia uma expectativa de que o governo brasileiro reagiria da maneira que reagiu. Mas é uma situação muito volátil e em desenvolvimento.

Por outro lado, Lula foi aliado do chavismo por décadas antes de se distanciar do regime, nos últimos dois anos. Como fica essa relação agora, considerando as tradições do Itamaraty?

O Itamaraty tem, por sucessivos governos brasileiros, enfatizado instituições multilaterais, o direito à soberania e tem sido contra intervenções militares. Está claro que isso não é apenas sobre o presidente Lula, é sobre as visões institucionais de longa data do serviço exterior do Brasil. São profissionais no Itamaraty que têm, em conjunto com seus colegas do Palácio do Planalto, agido com habilidade e profissionalismo desde 9 de julho, quando o presidente Trump anunciou pela primeira vez as tarifas.

Há muitos casos na história de interferências dos EUA que não resultaram em mais democracia. Quais são os riscos para a Venezuela agora nesta área?

Acho que Trump, acima de tudo, está sempre perguntando qual é o interesse dos EUA. Isso é o que o guia. No sábado, Trump falou que quer que esse novo arranjo beneficie o povo da Venezuela, mas, em última análise, ele, mais do que qualquer outro presidente recente dos EUA, está sempre pensando na América primeiro. O resultado será bom para o povo da Venezuela? Não acho que essa seja a primeira preocupação de Trump. Acho que ele sabe que, para seu plano funcionar, ele precisa do apoio do povo venezuelano, então não desconsiderará completamente a opinião pública. Mas não há dúvida de que ele vê isso, assim como tudo mais, através do prisma da “América primeiro”.

Por que Trump descartou María Corina Machado, líder da oposição venezuelana?

Bem, não tenho certeza se ele a descartou. Tenho pensado muito [no presidente da Ucrânia, Volodimir] Zelenski e como, em fevereiro, Trump o expulsou da Salão Oval e todos disseram: “Isso é um desastre para a Ucrânia, a guerra acabou”. Apenas algumas semanas depois, Zelenski estava de volta a Washington ao lado de Trump, e ambos estavam sorrindo como se nada tivesse acontecido. A moral da história é que nunca realmente acaba com Trump. Ele está sempre aberto à mudança.

O governo brasileiro sabe disso melhor do que ninguém. Pensamos que seria uma guerra comercial de 18 meses entre Brasil e EUA, mas fizeram fila para falar com Trump, Rubio e J.D. Vance [vice-presidente americano], e eles ouviram. Meu ponto é: acho que ainda há uma porta aberta para María Corina e, certamente, para a oposição venezuelana de modo mais geral. Até alguns amigos na oposição venezuelana concordaram, a contragosto, que uma transição imediata e completa para María Corina ou Edmundo González [candidato da oposição nas últimas eleições] não era possível, dado o poder dos militares venezuelanos.

Novamente, não está claro que o presidente Trump conseguirá moldar os eventos na Venezuela da maneira que ele está falando. Ele disse no sábado que sua intenção era administrar o país. Agora, sabemos que esse não é o caso. A intenção é permitir que Delcy governe a Venezuela e faça a vontade de Washington, reduzindo o fluxo de migrantes e drogas e começando a abrir o país para investimentos dos EUA em petróleo e em outros setores. Mas todos esses casos nos mostram que o poder americano é limitado.

Caracas repercute na política doméstica brasileira. A cada eleição, um dos candidatos diz que, se o outro ganhar, o Brasil vai virar a Venezuela. No sábado, figuras de esquerda criticaram a invasão, enquanto as de direita comemoraram a queda de Maduro. Quem está ganhando essa discussão?

É papel dos governos, com toda razão, se preocupar com coisas como soberania nacional e intervenção estrangeira. Essa é a base da arte de governar. Mas as pessoas comuns não pensam dessa maneira. O que elas veem é o fim de um tirano que destruiu não apenas seu próprio país, mas, por meio do êxodo de milhões de pessoas, criou consequências para outras nações em toda a América do Sul.

Eu vejo uma América Latina que está claramente se deslocando para a direita no momento, e uma das principais razões é a implosão da Venezuela nos últimos dez anos. Isso desacreditou políticas socialistas e de esquerda e infligiu danos à reputação até mesmo entre líderes capitalistas e democráticos da esquerda, como Gabriel Boric.

Lula, em parte por causa de sua história, opera quase em uma categoria separada. Ele pode ter seus defeitos, mas ele é claramente um capitalista. Sua decisão de se distanciar de Maduro, muitos críticos podem dizer que veio tarde demais, mas isso o ajudou a se proteger de alguma forma do contínuo desastre que é o regime chavista. Em última análise, a eleição brasileira de 2026 será decidida por outros fatores, principalmente a economia e a situação de segurança doméstica dentro do Brasil.


Brian Winter, 48

Jornalista e analista político especializado em América Latina, com foco no Brasil. É editor-chefe da revista Americas Quarterly e ex-correspondente da Reuters em São Paulo e Buenos Aires. Autor de “O Improvável Presidente do Brasil “(Civilização Brasileira), ao lado de Fernando Henrique Cardoso



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