Ficou famosa a reação do presidente americano Lyndon Johnson ao fim de uma inspeção de tropas rumo ao Vietnã. Numa base cheia de aeronaves, um assessor aponta uma delas e diz: “Aquele é o seu helicóptero, sr. presidente”. E o democrata rebate: “Todos aqui são meus helicópteros”.
Johnson substituiu John F. Kennedy, assassinado em 1963, quando os EUA tinham 16 mil soldados no sudeste asiático. Ao deixar a Casa Branca, em 1969, as tropas americanas superavam meio milhão e não havia desfecho para a guerra.
O triunfalismo de Donald Trump diante da captura de Nicolás Maduro, numa operação definida como a extração de um ditador do seu bunker para um centro de detenção em Nova York, convida a pensar sobre como governantes americanos lidam com o poder que detêm. A Presidência em si é uma instituição forte, mas seus protagonistas podem moldá-la —ou deturpá-la.
São vários, e até célebres, os historiadores presidenciais nos EUA. Vasculham arquivos, colhem testemunhos, conferem a produção jornalística, enfim, recorrem a múltiplas fontes ao esquadrinhar os chefes do Executivo. Alguns estão na ordem do dia, como Arthur M. Schlesinger Jr., autor de “A Presidência Imperial”, de 1973. O livro, lançado pouco antes da renúncia de Richard Nixon, trata da concentração de poder na Casa Branca, o que leva ao presidente imperial.
Nixon foi um deles. Schlesinger explica que a ruína do republicano não pode ser creditada só ao escândalo Watergate, mas a um combinado de fatores, como a apropriação de meios para fazer a guerra, a determinação unilateral das prioridades de governo, a abolição de programas estatutários, o represamento de verbas, o uso do veto, o ataque ao Legislativo e a campanha contra a imprensa. Soa familiar hoje.
Outro autor-chave é James David Barber, criador do departamento de ciência política da Universidade Duke e autor de “O Caráter Presidencial”, de 1972. Barber analisou presidentes desde George Washington, chegando a criar uma tipologia com quatro aspectos básicos de personalidade, divididos em duplas: ativos e passivos, negativos e positivos. Pelo cruzamento, descobre-se que Franklin D. Roosevelt era um ativo-positivo. Calvin Coolidge, um passivo-negativo.
Para Barber, já falecido, Trump seria um ativo-negativo, como Nixon e Johnson. Como se define o tipo: pessoa insegura, fraco raciocínio lógico, autoestima abalável, perseverante no erro, incapaz de aprender com o cargo. O historiador garante ser o pior caráter presidencial e, convenhamos, Trump exacerba o modelo.
Muito já se escreveu sobre a ilegalidade da operação que capturou Maduro. Ela viola o direito internacional, usurpa poderes do Congresso, desdenha do multilateralismo, fere a democracia. Some-se ao pacote a nova e regressiva estratégia de defesa dos EUA, segundo a qual Trump pode ameaçar qualquer país, cuja soberania ele a priori ignora.
Pois Schlesinger investigou a relação entre presidentes e suas equipes. A burocracia de Roosevelt amava o anonimato. Não a de Nixon. E a de Trump pode ousar. Numa presidência tão autocentrada, assessores tocam uma pletora de interesses, sejam ideológicos, militares ou empresariais, enquanto o chefão se esbalda na rede social. Dizem comentaristas atentos que já se ouve na Casa Branca algo como “é hora de manter o vovô ocupado”.




