Em meio aos maiores protestos em anos no Irã, o filho do último xá do país, deposto na Revolução Islâmica de 1979, pediu neste sábado (10) que os manifestantes tomem as cidades e afirmou que se prepara para retornar à nação.
“Nosso objetivo não é mais simplesmente ir às ruas; o objetivo é nos prepararmos para tomar o centro das cidades e mantê-lo sob nosso controle”, disse na rede social X Reza Pahlavi, radicado nos Estados Unidos. Ele também convocou “trabalhadores e funcionários de setores-chave da economia, especialmente transporte, petróleo, gás e energia”, a iniciarem uma greve nacional.
“Me preparo para retornar à minha pátria e estar com vocês, a grande nação do Irã, quando nossa revolução nacional triunfar. Acredito que esse dia está muito próximo”, afirmou ele.
Também neste sábado, o Exército do Irã afirmou que vai proteger infraestruturas estratégicas e propriedades públicas e instou os cidadãos a frustrarem “os planos do inimigo”. Na véspera, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, havia acusado os manifestantes de agirem em nome dos EUA e alertou que Teerã não toleraria pessoas agindo como “mercenários a serviço de estrangeiros”.
Os protestos, que começaram no final do ano passado, se espalharam por grande parte do país nas últimas duas semanas, inicialmente como resposta à inflação galopante, mas depois também contra os líderes religiosos.
Os distúrbios continuaram durante a noite de sexta (9). A mídia estatal afirmou que um prédio municipal foi incendiado em Karaj, a oeste de Teerã, por “manifestantes violentos”, e a TV do regime transmitiu imagens dos funerais de membros das forças de segurança que teriam sido mortos em protestos nas cidades de Shiraz, Qom e Hamedan.
Ainda não se sabe quanto apoio Pahlavi tem dos adversários de Teerã. O presidente americano, Donald Trump, havia afirmado, na última quinta-feira (19) que não estava inclinado a se encontrar com Pahlavi, um sinal de que estava esperando para ver como a crise se desenrolaria antes de apoiar um líder da oposição.
“Só espero que os manifestantes no Irã estejam seguros, porque aquele é um lugar muito perigoso agora”, afirmou o republicano nesta sexta (9). “É melhor vocês não começarem a atirar, porque nós também começaremos a atirar”, continuou Trump, que bombardeou o Irã no ano passado.
Alguns manifestantes nas ruas gritaram slogans em apoio a Pahlavi, como “Viva o xá”, embora a maioria dos cânticos tenha pedido o fim da teocracia e exigido medidas para melhorar a economia, duramente atingida por anos de sanções dos EUA e de outros países e devastada pela guerra de 12 dias em junho, quando Israel e EUA lançaram ataques aéreos contra o Irã.
Em um comunicado divulgado por sites de notícias semioficiais, os militares acusaram Israel e “grupos terroristas hostis” de tentarem “minar a segurança pública do país”.
“O Exército, sob o comando do Comandante Supremo, juntamente com as demais forças armadas, além de monitorar os movimentos inimigos na região, protegerá e salvaguardará resolutamente os interesses nacionais, a infraestrutura estratégica do país e o patrimônio público”, diz o comunicado.
O grupo iraniano de direitos humanos HRANA afirmou ter documentado 65 mortes, incluindo 50 manifestantes e 15 membros das forças de segurança, até 9 de janeiro. Já o grupo de direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega, disse que mais de 2.500 pessoas foram presas nas últimas duas semanas.
Um médico no noroeste do Irã disse à agência de notícias Reuters que, desde sexta, um grande número de manifestantes feridos foi levado a hospitais. Alguns foram gravemente espancados, sofrendo traumatismo craniano, fraturas nos braços e pernas e cortes profundos, e pelo menos 20 pessoas em um hospital foram atingidas por munição real, cinco das quais morreram posteriormente.
O gabinete de relações públicas da Guarda Revolucionária do Irã informou que três membros de uma força de segurança foram mortos e cinco ficaram feridos durante confrontos com o que seriam “manifestantes armados” em Gachsaran, no sudoeste do país.
Outro agente de segurança foi morto a facadas em Hamedan, no oeste do Irã. O filho de um oficial superior, o Brigadeiro-General Mártir Nourali Shoushtari, foi morto na área de Ahmadabad, em Mashhad, no nordeste. Outros dois membros das forças de segurança foram mortos nas últimas duas noites em Shushtar, na província de Khuzistão.
Os protestos representam o maior desafio interno em pelo menos três anos para os governantes religiosos do Irã, que parecem mais vulneráveis do que em outros períodos de agitação social.
Em meio a uma grave situação econômica e após a guerra do ano passado, os líderes de França, Reino Unido e Alemanha emitiram uma declaração conjunta na sexta condenando o assassinato de manifestantes e instando as autoridades iranianas a se absterem da violência.




