Protestos desencadeados pelo agravamento das dificuldades econômicas e alimentados pela raiva contra o regime do Irã varrem o país há mais de uma semana, levando multidões às ruas das principais cidades, incluindo a capital Teerã.
Na quinta-feira (8), o país mergulhou em um apagão de internet, provocado pelas autoridades, enquanto as manifestações exigindo a destituição do sistema teocrático se espalhavam e cresciam em tamanho. Vídeos filmados na noite de quinta-feira mostraram prédios governamentais em chamas por todo o país, inclusive em Teerã.
Pelo menos 28 manifestantes foram mortos desde o início dos protestos no fim de dezembro, segundo grupos de direitos humanos.
As manifestações são as maiores no Irã desde 2022, quando a morte de uma jovem de 22 anos, Mahsa Amini, sob custódia policial, desencadeou intensos protestos contra o regime, segundo observadores e grupos de direitos humanos.
O presidente Donald Trump disse que os EUA viriam em auxílio dos manifestantes no Irã se o regime usasse força letal contra eles. Autoridades iranianas afirmaram que reagiriam a qualquer interferência americana, inclusive potencialmente atacando bases e forças americanas na região.
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, atacou os manifestantes em um discurso televisionado na sexta-feira, chamando-os de vândalos e acusando-os de tentar “agradar” a Trump. “Há pessoas cujo trabalho é apenas destruição”, disse Khamenei no discurso.
Os chefes do Judiciário e dos serviços de segurança do Irã disseram que tomarão medidas duras contra os manifestantes.
Por que as pessoas protestam?
Os protestos foram desencadeados pelo cenário crítico da economia iraniana, que tem estado sob pressão constante há anos, em grande parte como resultado das sanções dos EUA e da Europa vinculadas às suas ambições nucleares.
Essa pressão foi agravada pelas tensões regionais, incluindo uma guerra de 12 dias com Israel em junho passado, que drenou ainda mais os recursos financeiros do Irã.
Uma queda acentuada na moeda iraniana afetou duramente os negócios dependentes de importação, irritando lojistas e pressionando os orçamentos familiares. A moeda perdeu aproximadamente metade de seu valor em relação ao dólar em 2025.
Comerciantes, negociantes e estudantes universitários realizaram dias de protestos, fechando grandes mercados e realizando manifestações nos campi. Em resposta, as autoridades efetivamente fecharam grande parte do país.
Os comícios têm cada vez mais como alvo o próprio regime autoritário dos clérigos islâmicos do país. Nas redes sociais e emissoras de televisão, manifestantes foram vistos gritando slogans como “Morte ao ditador” e “Iranianos, levantem suas vozes, gritem por seus direitos”.
Qual é a intensidade dos protestos?
Desde o início da última rodada de protestos, as manifestações se espalharam por dezenas de cidades em todo o Irã, de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra. Em entrevistas por telefone, mais de uma dúzia de testemunhas disseram que viram grandes multidões na noite de quinta-feira (8) em bairros de Teerã e em outras cidades, incluindo Mashhad, Bushehr, Shiraz e Isfahan.
A Anistia Internacional disse em um comunicado na quinta-feira que documentou pelo menos 28 manifestantes mortos nos últimos dias, incluindo crianças. Outros três grupos que documentam e monitoram direitos humanos — HRANA; Iran Human Rights, com sede na Noruega; e a Organização Hengaw para os Direitos Humanos — colocaram o número de mortos mais alto, em mais de 40.
Amir Ali, um empresário de 32 anos em Teerã, disse que ele e um grupo de amigos se juntaram aos protestos e gritaram: “Morte ao opressor, seja rei ou líder supremo” e “A rua prevalecerá, o povo vencerá”.
Asal, uma lojista de 20 anos na província de Alborz, disse recentemente que continuou a participar dos protestos por dias, apesar de as forças de segurança dispararem gás lacrimogêneo e projéteis de paintball contra ela e outros manifestantes.
“Não importa para mim se eu morrer”, disse Asal, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome por medo de represálias. “Se meu país for consertado com minha morte, estou satisfeita.”
Como as autoridades reagiram até agora?
Em rodadas anteriores de manifestações, as autoridades iranianas frequentemente responderam com força, usando prisões em massa e violência. Desta vez, inicialmente sinalizaram disposição para se envolver com os manifestantes e ouvir suas demandas, mas endureceram sua postura nos últimos dias.
O regime do Irã está lidando com várias outras crises, incluindo escassez de água, crescente poluição do ar e o temor persistente entre muitos iranianos de novos ataques militares dos EUA ou de Israel.
O presidente Masoud Pezeshkian reconheceu o que chamou de queixas legítimas do público e disse que o poder público deve agir rapidamente para resolvê-las.
Em meio à turbulência, o chefe do banco central renunciou, e Pezeshkian nomeou Abdolnaser Hemmati, ex-ministro da Economia, para o cargo.
Khamenei chamou as reclamações dos comerciantes de válidas, mas também atribuiu a crise econômica a forças externas, que ele afirmou estarem buscando minar a estabilidade do país.
Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i, chefe do judiciário do Irã, disse à mídia iraniana que o regime não mostraria misericórdia.
“Desta vez é diferente. Desta vez não há desculpas”, disse ele. “O inimigo anunciou oficialmente seu apoio. Digo ao povo e às famílias que desta vez ninguém será poupado.”




