Dezenas de milhares de pessoas marcharam por Minneapolis neste sábado (10) para protestar contra a morte de uma mulher baleada por um agente do ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. Mais de mil manifestações estavam planejadas em todo o país neste fim de semana contra a campanha de deportação do governo de Donald Tump.
A participação da população em Minneapolis, apesar do frio, mostrou como a morte de Renee Good, 37, na quarta-feira (7), tocou em um ponto sensível, alimentando protestos em grandes cidades.
Liderados por uma equipe de dançarinos indígenas mexicanos, manifestantes em Minneapolis, que tem uma populaçãode 3,8 milhões, marcharam em direção à rua residencial onde Renee foi baleada em seu carro.
A multidão, que o Departamento de Polícia de Minneapolis estimou em dezenas de milhares, gritava o nome dela e slogans como “Abolir o ICE” e “Sem justiça, sem paz —tirem o ICE das nossas ruas.”
“Estou incrivelmente irritada, completamente desolada e devastada, e depois apenas ansiando e esperando que as coisas melhorem,” disse Ellison Montgomery, uma manifestante de 30 anos, à Reuters.
Autoridades de Minnesota classificaram o tiroteio como injustificado, ressaltando um vídeo de testemunhas que, segundo eles, mostrava o veículo de Renee se afastando do agente quando ele atirou.
O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), que supervisiona o ICE, manteve a informação que o agente agiu em legítima defesa.
Segundo o DHS, Renne, que era voluntária em uma rede comunitária que monitora e registra operações do ICE em Minneapolis, teria avançado com o carro na direção do agente que então atirou nela, depois que outro profissional do ICE havia se aproximado do lado do motorista e pedido que ela saísse do carro.
O tiroteio na quarta-feira ocorreu logo após cerca de 2.000 agentes federais terem sido enviados para a área de Minneapolis no que o Departamento de Segurança Interna chamou de sua maior operação de todos os tempos, aprofundando uma divisão entre o governo federal e os líderes democratas no estado.
As tensões escalaram ainda mais na quinta-feira (8) quando um agente da Patrulha de Fronteira dos EUA em Portland, Oregon, baleou e feriu um homem e uma mulher em seu carro após uma tentativa de parada veicular.
Usando linguagem semelhante à sua descrição do incidente em Minneapolis, o governo Trump disse que o motorista tentou “transformar em arma” seu veículo e atropelar os agentes.
Os dois tiroteios relacionados levaram uma coalizão de grupos progressistas e de direitos civis, incluindo Indivisible e a União Americana pelas Liberdades Civis, a planejar mais de mil eventos sob a bandeira “ICE Out For Good” (ICE fora de uma vez por todas) no sábado e domingo (12). As manifestações foram programadas para terminar antes do anoitecer para minimizar o potencial de violência.
Na Filadélfia, manifestantes gritavam “O ICE tem que ir embora” e “Não à América fascista”, enquanto marchavam da prefeitura até um comício em frente a uma instalação federal de detenção, segundo a afiliada local da ABC.
Em Manhattan, várias centenas de pessoas carregavam cartazes anti-ICE enquanto passavam por um tribunal de imigração onde agentes têm prendido migrantes após suas audiências.
“Exigimos justiça para Renee, o ICE fora de nossas comunidades, e ação de nossos líderes eleitos. Já basta”, disse Leah Greenberg, co-diretora executiva do Indivisible.
MANIFESTAÇÕES MAJORITARIAMENTE PACÍFICAS
Minnesota tornou-se um importante ponto de conflito nos esforços do governo federal para deportar milhões de imigrantes meses antes do tiroteio de Renee, com Trump criticando seus líderes democratas em meio a um escândalo massivo de fraude no bem-estar social envolvendo alguns membros da
grande comunidade somali-americana lá.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, um democrata que tem sido crítico dos agentes de imigração e do tiroteio, disse em uma entrevista coletiva mais cedo no sábado que as manifestações têm permanecido majoritariamente pacíficas e que qualquer pessoa que danificasse propriedades ou se envolvesse em atividades ilegais seria presa pela polícia.
“Não vamos contrapor o caos de Donald Trump com nosso próprio tipo de caos”, disse Frey. “Ele quer que mordamos a isca.”
Mais de 200 policiais foram mobilizados na sexta-feira (9) à noite para controlar protestos que levaram a danos de US$ 6.000 no Depot Renaissance Hotel e tentativas fracassadas de alguns manifestantes de entrar no Hilton Canopy Hotel, supostamente onde estão hospedados agentes do ICE.
O chefe de polícia Brian O’Hara disse que alguns na multidão rabiscaram pichações e danificaram janelas no Depot Renaissance Hotel. Ele afirmmou que a reunião no Hilton Canopy Hotel começou como um “protesto
barulhento” mas escalou quando mais de 1.000 manifestantes foram para o local, levando a 29 prisões.
“Iniciamos um plano e tomamos nosso tempo para desescalar a situação, emitimos vários avisos, declarando uma assembleia ilegal, e finalmente começamos a avançar e dispersar a multidão”, disse O’Hara.
REPRESENTANTES DA CÂMARA IMPEDIDOS DE ENTRAR EM INSTALAÇÃO DO ICE
Três democratas do Congresso de Minnesota apareceram em uma sede regional do ICE perto de Minneapolis no sábado de manhã, onde manifestantes entraram em confronto com agentes federais esta semana, mas tiveram acesso negado. Legisladores chamaram a negação de ilegal.
“Deixamos claro para o ICE e o DHS que eles estavam violando a lei federal”, disse a representante dos EUA Angie Craig aos repórteres enquanto estava do lado de fora do edifício federal Whipple em St. Paul com as representantes Kelly Morrison e Ilhan Omar.
A lei federal proíbe o DHS de bloquear membros do Congresso de entrar em locais de detenção do ICE, mas o departamento tem cada vez mais restringido tais visitas de supervisão, provocando confrontos com legisladores democratas.
“É nosso trabalho como membros do Congresso garantir que aqueles detidos sejam tratados com humanidade, porque somos os malditos Estados Unidos da América”, disse Craig.
Referindo-se aos danos e protestos em hotéis de Minneapolis durante a noite, a porta-voz do DHS, Tricia McLaughlin, disse que os democratas do Congresso tiveram a entrada negada para garantir “a segurança
dos detidos e funcionários, e em conformidade com o mandato da agência”.
Ela afirmou que as políticas do DHS exigem que membros do Congresso notifiquem o ICE com pelo menos sete dias de antecedência para visitas às instalações.




