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A foto de uma mulher acendendo um cigarro em uma imagem do aiatolá Ali Khamenei em chamas se tornou um dos símbolos da recente onda de manifestações contra o regime autoritário do Irã. Os protestos, que já somam mais de 3.400 mortos, segundo a ONG Iran Human Rights, começaram em 28 de dezembro.
O vídeo foi publicado por uma usuária que se identifica como uma mulher iraniana moradora do Canadá e passou a ser reproduzido por outras usuárias.
Essa não é a primeira vez que as mulheres iranianas são símbolo de uma revolta popular contra o líder supremo e a teocracia islâmica estabelecida em 1979. Como lembrou nesta semana a Folha, durante os protestos de 2022, a imagem que rodou o mundo foi a de jovens cortando os cabelos ou ateando fogo a lenços usados para cobrir os fios.
Aquela onda de manifestações foi desencadeada pela morte da jovem Mahsa Amini, 22, morta pela polícia de Teerã. Ela teria sido flagrada com parte dos cabelos à mostra, contrariando a legislação local. O Irã e o Afeganistão são os únicos países do mundo a manterem a obrigatoriedade do véu islâmico.
Os protestos desembocaram no movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que se tornou um slogan das ativistas, sem liderança definida.
No Irã, a mais nova onda de protestos no país começou por insatisfações econômicas, mas já se transformou em uma revolta generalizada.
Homens e mulheres têm se arriscado na linha de frente dos protestos contra o regime, com imagens impressionantes de corpos enfileirados mostrando rostos masculinos. Nesta quarta-feira (14), as autoridades afirmam que executarão o jovem Erfan Soltani, 26.
Ainda assim, no país, os protestos são fortemente atrelados à ideia de liberação feminina. Apesar do arrefecimento dos protestos de rua de 2022, os frutos da desobediência feminina permaneceram. Em 2024, uma estudante se despiu em uma universidade de Teerã —e foi internada em um hospital psiquiátrico, sob a acusação de que não se tratava de um protesto, mas de uma crise de saúde mental, o que outras ativistas negam.
Imagens e relatos de mulheres desafiando a legislação com os cabelos à mostra tem se intensificado desde dezembro de 2025. No mês passado, dois organizadores de uma maratona foram presos após competidoras participarem sem o véu.
Alguns meses antes, em outubro, uma engenheira de 67 anos, Zahra Shahbaz Tabari, foi condenada à morte por carregar uma bandeira com o slogan do movimento.
Um vídeo, circulado nas redes sociais na semana passada, mostra uma mulher idosa de cabelos brancos e a boca ensanguentada caminhando nos protestos.
A repressão feminina baseada na interpretação ultraconservadora da lei islâmica é questionada também por teóricas muçulmanas reformistas. O pleito, para elas, é o fim da tutela do Estado sobre as decisões femininas, e não uma recusa à religião.
A poeta e advogada Sedigheh Vasmaghi, em sua análise do Corão, argumenta que a cobertura do cabelo é aconselhada, não determinada. Ela também argumenta que certas leis previstas no livro sagrado do Islã diziam respeito ao momento histórico em que ele foi escrito e devem ser revisadas por legisladores modernos, sem prejuízo ao cumprimento dos preceitos religiosos.
Vasmaghi foi presa em março de 2024 sob acusação de fazer propaganda contra o regime. Solta em maio, afirmou ter sido torturada.




