O vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, discursou na noite de quinta (22) em Minneapolis, cidade que tem vivido uma onda de protestos contra as operações massivas de imigração do governo Donald Trump. Ladeado de viaturas federais com o slogan “defenda a pátria”, Vance disse que o caos que engolfa Minneapolis é culpa de “agitadores de extrema esquerda” e políticos do Partido Democrata.
Em tentativa de reforçar o apoio ao ICE, o serviço de imigração americano, Vance dobrou a aposta do governo Trump e defendeu os agentes federais em dois casos no estado que causaram revolta de moradores e da oposição: a morte de Renee Nicole Good, cidadã americana baleada pelo ICE no dia 7, e a apreensão de um menino de cinco anos por agentes que conduziam uma batida de imigração na terça (20).
“Eu vi essa história terrível. Eu sou pai de um menino de cinco anos e, na hora, pensei: que horror, como pudemos fazer isso? Mas depois me informei”, disse Vance, citando a versão do ICE de que a criança, Liam Conejo Ramos, foi apreendida porque seu pai, um imigrante equatoriano em situação irregular, fugiu dos agentes. “O que eles deveriam ter feito? Deixado uma criança de cinco anos morrer de frio na rua?”
Tricia McLaughlin, porta-voz do Departamento de Segurança, reforçou a tese, afirmando que a criança foi abandonada pelo pai e pela mãe e que o ICE tratou o menino bem, levando-o para comer em um restaurante do McDonald,s e que os manifestantes assustaram a criança.
Liam e o pai, Adrian Conejo Arias, foram levados para um centro de detenção do ICE em San Antonio, no Texas, a mais de 2.000 quilômetros de distância de Minneapolis. O advogado da família disse que os dois têm permissão para estar nos EUA enquanto aguardam o resultado de seu pedido de asilo. Liam também é cidadão equatoriano.
“Eles deveriam ter deixado de prender um estrangeiro ilegal nos EUA?”, continuou o vice-presidente no discurso. “Se a ideia é que não podemos prender pessoas que quebram a lei porque elas têm filhos, todo pai nesse país vai ter completa imunidade.”
Vance acusou a imprensa de mentir sobre o caso do menino e disse que a culpa era do governo local. “Se tivéssemos um pouco de cooperação de policiais do estado [de Minnesota] e do município, o caos diminuiria muito”, afirmou.
Como é praxe nos EUA, cidades e estados governados por democratas geralmente se recusam a colaborar com operações de deportação, dizendo que elas fragilizam o trabalho da Justiça local ao incutir medo em comunidades imigrantes, que deixam de cooperar com a polícia. A recusa a colaborar com o ICE, entretanto, tornou-se muito mais intensa em Minneapolis depois que um agente federal matou a tiros a cidadã americana Renee Nicole Good, que protestava contra uma batida de imigração.
No discurso, Vance voltou a culpar Good pela própria morte. Ao tratar do caso, o vice-presidente recuou de uma fala anterior e disse que agentes do ICE não têm “imunidade total”. Entretanto, após afirmar que o governo Trump aplicará “sanções disciplinares” contra agentes que “cometam erros”, Vance completou: “Não vamos julgar ninguém no tribunal da opinião pública. Eu já falei sobre esse caso: acho que a morte de Renee Good foi uma tragédia —e também acho que ela atropelou um agente do ICE com o carro dela.”
Análises de vídeos de diferentes ângulos conduzidas pela imprensa americana mostram que, quando foi baleada, Renee Good estava com as rodas do carro viradas para longe do agente, e as pernas do homem não estavam próximas do veículo quando ele sacou a arma e atirou.
“A tragédia aqui é múltipla”, prosseguiu Vance. “É a tragédia de que Renee Good perdeu a vida. E é a tragédia de que há agentes do ICE entrando em comunidades sem saber se, quando ligarem para a polícia, receberão apoio ou não. É isso que produz essa situação terrível.”
As operações de imigração em Minneapolis já duram três semanas. Moradores locais passaram a seguir agentes do ICE em tentativa de interromper as batidas, alertando imigrantes com apitos e confrontando os membros do serviço de imigração. “Por causa de alguns agitadores de extrema esquerda, os agentes não conseguem fazer seu trabalho sem sofrerem ameaças ou até agressões. Isso é inaceitável”, disse Vance.




