A líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, promoveu nesta quarta-feira (21) uma reorganização das Forças Armadas ao nomear 12 oficiais superiores para comandos militares regionais, pouco mais de duas semanas após a queda do ditador Nicolás Maduro.
Ela já havia designado anteriormente um ex-chefe do serviço de inteligência como novo comandante de sua guarda presidencial e como diretor da agência de contrainteligência.
Um documento com cópia das nomeações assinadas pelo ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, circula em meios locais, sem que o regime confirme oficialmente autenticidade.
Domingo Hernández Lares, no entanto, que é chefe do Comando Estratégico Operacional, cabeça operacional das Forças Armadas, parabenizou em sua conta do Telegram cada um dos generais nomeados para comandar 12 das 28 zonas operativas de defesa em diferentes estados do país.
Ele descreveu um como “um soldado de temperança, cheio de princípios e valores” e destacou os “dotes de liderança e exemplo para cumprir as missões” de outro.
“Soldado de honra que com espírito inquebrantável soube manter acesa a chama sagrada dos libertadores”, escreveu, por exemplo, sobre o novo comandante da zona do estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia.
A nova mudança na liderança militar ocorre pouco menos de 20 dias após a operação dos EUA em Caracas, que envolveu ataque com mísseis, soldados e helicópteros na madrugada do dia 4 de janeiro, resultando na captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Depois da operação, a grande incerteza que pairou sobre o futuro político do país veio acompanhada do rumor, discutido por venezuelanos na fronteira do Brasil com o vizinho, de que a cúpula política e militar do regime traiu o ditador e fez um acordo com os EUA.
Delcy era vice de Maduro. Desde então, o regime tem aberto canais de diálogo em meio à pressão americana, e Delcy foi convidada pelo governo de Donald Trump para visitar Washington —ainda não há data para a reunião, segundo a Casa Branca. Maduro e a esposa estão presos nos EUA.
“Estamos em um processo de diálogo, de trabalho com os EUA, sem medo algum de enfrentar as diferenças, as dificuldades”, disse Delcy nesta quarta-feira sem fazer referência ao convite. Ela ainda é alvo de sanções de Washington, incluindo o congelamento de bens.
Trump afirmou no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que “os líderes do país têm sido muito espertos”, referindo-se a Delcy. “A Venezuela ganhará mais dinheiro [com o petróleo] nos próximos seis meses do que ganhou nos últimos 20 anos”.
O republicano já havia qualificado anteriormente Delcy como “formidável” e havia assegurado que com ela “tudo vai muito bem”.
Também nesta quarta, o poderoso ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, negou que tivesse se reunido com autoridades americanas antes da queda de Maduro. “Eu não me reuni com ninguém. Desafio quem quer que seja [a mostrar provas]”, afirmou o ministro ao canal estatal VTV. “Andam com campanhas midiáticas de mentiras. Aqui não há traição nem brigas. Quem segue governando é a revolução bolivariana. Somos a garantia da paz neste país. Com Delcy Rodríguez à frente, a Venezuela segue um caminho de diplomacia, de paz.”
Uma das medidas que sinalizam abertura da ditadura é o começo da libertação de presos políticos. Entre os primeiros liberados estão a ativista de direitos humanos Rocío San Miguel, que havia sido presa em fevereiro de 2024, e do ex-candidato presidencial Enrique Márquez.
Nesta quinta-feira (22), Rafael Tudares, genro de Edmundo González Urrutía, reconhecido como vencedor do pleito de 2024 que terminou por reempossar Maduro, foi libertado pelo regime. Ele havia sido levado por homens encapuzados e sem identificação em janeiro de 2025 quando levava os filhos à escola.
“Após 380 dias de uma detenção injusta e arbitrária, e de haver sofrido, durante mais de um ano, uma situação desumana de desaparecimento forçado, meu esposo Rafael Tudares Bracho voltou para casa nesta madrugada”, escreveu Mariana González, mulher do libertado e filha de Edmundo.
A libertação de presos políticos, por outro lado, tem sido lenta e criticada pela oposição e organizações de direitos humanos, que exigem do regime a soltura imediata de todos os detidos. A ONG Foro Penal, referência de direitos humanos no país, registrava no dia 19 de janeiro 777 presos políticos e 143 libertações desde que o regime anunciou, no dia 8 de janeiro, que começaria a abrir as prisões.


