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Nos círculos políticos republicanos da Flórida e entre a direita colombiana, é forte a campanha para pintar a gestão de Gustavo Petro como uma das piores dos últimos tempos na Colômbia. Esses setores têm estimulado a ideia de que os Estados Unidos deveriam planejar algum tipo de ação militar contra o país, um dos que mais produzem cocaína na região.
A crise aberta após a captura de Nicolás Maduro, porém, deu a Petro o espaço que ele precisava para demonstrar que seu governo, que termina em agosto, não terá sido um fracasso.
Petro iniciou o ano eleitoral com aprovação de 37%, com alta de 2,3 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o instituto Invamer.
Para alguém que, no segundo ano de mandato, havia encostado em uma desaprovação de 55%, trata-se de uma recuperação expressiva.
O site La Silla Vacía agregou as pesquisas mais recentes e indicou que o apoio ao presidente cresceu sobretudo fora de Bogotá, nas regiões onde se trava a batalha contra o narcotráfico: Amazônia, costa e áreas como o Pacífico.
São áreas em que facções praticam extorsão com a população mais humilde.
Hoje, os dois possíveis pré-candidatos do campo governista à Presidência, o senador Iván Cepeda e o ex-senador Roy Barreras, lideram as primeiras pesquisas. Por ora, o outsider da extrema direita Abelardo de la Espriella ainda não decolou.
Mas não foram os números da política interna que acalmaram Trump e o dissuadiram de intervir de algum modo na Colômbia.
Os dois presidentes conversaram por cerca de 50 minutos ao telefone, dias depois da ação na Venezuela.
O que Petro disse ao norte-americano para desmontar a narrativa negativa que vinha sendo construída sobre ele? Talvez apenas a realidade.
Apesar de a ação das facções de narcotraficantes ser intensa em território colombiano, as cifras do atual governo não são de todo negativas. Os dados contam uma história mais complexa do que a versão difundida em Washington.
O principal indicador da política antidrogas é a área cultivada com coca. Em 2024, o país chegou a 261 mil hectares. É uma má notícia em termos absolutos, mas com um matiz político relevante: o ritmo de crescimento desacelerou sob a atual gestão.
A área cresceu em 2022 (12%), em 2023 (10%) e em 2024 (3%). A medição de 2025 aponta 262 mil hectares, praticamente o mesmo patamar do ano anterior, indicando estabilização.
O contraste com o governo de Iván Duque é evidente: apenas em 2021 os cultivos cresceram 43%.
A principal vitrine de Petro são as apreensões. Desde agosto de 2022, o governo confiscou 2.800 toneladas de cocaína, a maior cifra das últimas décadas.
Foi com esse conjunto de números que Petro desmontou, ao menos por ora, a ofensiva política e militar dos EUA contra a Colômbia. Trump chegou a dizer: “Puxa, tinham me falado muito mal de você”.
A conversa foi definida como “amigável” pela Casa Branca. E Petro, que havia tido seu visto revogado, agora está convidado a visitar Washington em fevereiro.
Mirada
A situação na Venezuela é complicada e imprevisível. Mas, durante a semana em que estive na fronteira entrevistando venezuelanos que cruzavam a ponte Simón Bolívar, que liga Colômbia e Venezuela, nem tudo eram lágrimas e medo.
Alejandra Jaramillo, a sorridente senhora da foto, afirmou ter fé de que tudo melhorará. “Estão fazendo muito barulho com essa história do Trump. Logo ele se cansa e somos nós é que vamos ter de decidir nosso futuro.”
Latinas
A Latam-Wide Poll da AtlasIntel realizou uma pesquisa com latino-americanos para avaliar a opinião sobre a ação dos EUA na Venezuela. Mais de 11.285 pessoas responderam à pesquisa de 5 a 11 de janeiro de 2026.
A pergunta central feita aos entrevistados foi: “Você aprova ou desaprova a operação militar dos EUA que prendeu Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, sob acusações relacionadas ao tráfico de drogas?”
O resultado total: 60,1% aprovam a operação militar, 34,9% desaprovaram, e 5% disseram que não sabiam ou não tinham opinião.
O resultado entre venezuelanos: 57,7% aprovam a operação, 20,9% desaprovaram e 21,4% não souberam responder.
Leituras venezuelanas
Sim, a newsletter está um pouco monotemática nesta semana. Afinal, o grande assunto deste início do ano na América Latina é a ação militar dos EUA no país.
Uma boa porta de entrada para compreender a crise venezuelana passa por uma coleção de crônicas, reportagens e ensaios escritos ao longo da última década.
- “Todo se Puede Poner Peor” (William Neuman, Editorial Dahbar, 2023). O ex-correspondente do jornal The New York Times narra a degradação do país sob Maduro.
- “Los Años de la Espiral: Crónicas de América Latina” (Jon Lee Anderson, Sexto Piso, 2020), com textos como “El Señor de la Miseria”, sobre a Torre de David, e “La Revolución Acelerada de Nicolás Maduro”.
- “Sangre y Asfalto” (Carol Prunhuber, Kalathos, 2020), sobre o pulso dos protestos de 2017.
- “Venezuela: Ensayo sobre la Descomposición” (José Natanson, Debate, 2025), “Venezuela: Memorias de un Futuro Perdido” (Rafael Osío Cabrices, Catarata, 2024) e “La Gran Venezuela: La Larga Historia de Cómo se Desmoronó Todo” (Carlos Lizarralde, Editorial Dahbar, 2025) completam o retrato de um país em colapso.
Infelizmente, nenhum deles foi lançado no Brasil. Fica o recado para as editoras. A importância do país nos rumos da Venezuela é importante demais para justificar tamanho apagão informativo sobre o regime chavista no Brasil.
Prêmio ao jornalismo latino-americano
Criado pela plataforma Connectas, o Prêmio Legado homenageia personalidades que se tornaram referência ética no jornalismo latino-americano. Na primeira edição, os vencedores foram a mexicana Carmen Aristegui e o peruano Gustavo Gorriti.
↳ Aristegui é uma das jornalistas mais influentes do continente, reconhecida pela defesa do jornalismo independente e por investigações que lhe renderam prêmios como o Nacional de Jornalismo do México e o Gabriel García Márquez.
↳ Gorriti, com mais de quatro décadas de carreira, revelou redes de corrupção envolvendo presidentes, serviços de inteligência e grandes corporações, enfrentando sequestros, exílios e ameaças sem abrir mão da proteção às fontes e da busca pela verdade.




