Os últimos nazistas na Groenlândia foram capturados em outubro de 1944, quando soldados americanos invadiram uma estação meteorológica alemã escondida na costa oeste desolada da ilha e fizeram dezenas de prisioneiros. Em menos de um ano, a Alemanha seria derrotada e a Segunda Guerra Mundial chegaria ao fim.
Mas 80 anos de tensão e cooperação entre a Dinamarca e os Estados Unidos em relação à Groenlândia estavam apenas começando —culminando na atual obsessão do presidente Donald Trump em adquirir a ilha ártica.
Embora a história comece com a Segunda Guerra Mundial, ela foi moldada pela Guerra Fria que se seguiu, na qual os EUA transformaram a árida Groenlândia em um importante ativo militar, povoando-a com bases aéreas, imponentes instalações de radar e até mesmo um complexo subterrâneo de bunkers nunca concluído, destinado a abrigar mísseis nucleares.
Tudo isso foi possível graças a um acordo com a Dinamarca que concedeu aos EUA liberdade militar quase ilimitada na ilha, acordo que permanece em vigor até hoje. “Fizemos isso antes, podemos fazer de novo”, disse Daniel Fried, ex-alto funcionário do Departamento de Estado que trabalhou com questões soviéticas na década de 1980.
Se Trump compreende essa história é um mistério, enquanto líderes europeus tentam persuadi-lo a abandonar sua insistência em possuir a ilha. Trump disse na quarta-feira que um “acordo preliminar” havia sido alcançado, mas os detalhes permaneceram obscuros.
Em uma era anterior ao poder aéreo militar, antes mesmo de Trump nascer, os planejadores militares dos EUA davam pouca importância à Groenlândia. Mas quando a Alemanha invadiu e ocupou a Dinamarca em 1940, eles perceberam que a ilha, então uma colônia dinamarquesa escassamente povoada principalmente por inuítes, era vulnerável ao controle nazista.
Com aeródromos perigosamente próximos à costa leste dos EUA, importantes reservas minerais e uma localização ideal para monitorar as condições climáticas que moldavam as condições de batalha na Europa, a defesa da Groenlândia era considerada essencial para os EUA. Foi uma ideia que persistiu por décadas antes de desaparecer brevemente após a Guerra Fria e retornar com força total na era Trump.
O rei da Dinamarca acolheu as forças americanas e aprovou um acordo por escrito concedendo ampla liberdade militar na ilha, enquanto houvesse uma ameaça, sem abrir mão da soberania dinamarquesa. Com a derrota da Alemanha e o fim da guerra, porém, seu país estava pronto para se despedir dos americanos. “A opinião pública dinamarquesa esperava o retorno do controle total da Groenlândia”, explicou um estudo sobre o assunto realizado pelo Instituto Dinamarquês de Assuntos Públicos.
Washington tinha outros planos. O advento dos bombardeiros de longo alcance criou uma nova sensação de vulnerabilidade, justamente quando a União Soviética emergia como uma nova ameaça aos EUA. A Groenlândia ficava na rota de voo mais direta da Rússia para o leste dos EUA.
“Com 800 mil milhas quadradas, a Groenlândia é a maior ilha e porta-aviões estacionário do mundo”, escreveu a revista Time em janeiro de 1947. Ela “seria inestimável, tanto em uma guerra convencional quanto em uma guerra eletrônica, como um posto avançado de radar e uma posição avançada para futuros locais de lançamento de foguetes”. Os americanos não tinham intenção de sair.
A má notícia foi dada em dezembro de 1946 pelo secretário de Estado dos EUA, James F. Byrnes. Durante uma reunião no hotel Waldorf Astoria, em Nova York, Byrnes explicou ao seu homólogo dinamarquês, Gustav Rasmussen, que a Groenlândia havia se tornado “vital para a defesa dos Estados Unidos”.
Embora a presença militar dos EUA pudesse ser prolongada, Byrnes disse que tinha uma ideia melhor: a Dinamarca deveria simplesmente vender a Groenlândia aos Estados Unidos.
A ideia “pareceu ser um choque” para Rasmussen, que previu com precisão que seu governo rejeitaria a ideia, de acordo com outro memorando do Departamento de Estado. Mas, ao contrário da atual explosão, o assunto foi tratado “discretamente” por ambos os lados, observou Heather Conley, pesquisadora sênior não residente do American Enterprise Institute, especializada no Ártico.
O governo Truman não pressionou, em parte por temer que Moscou alegasse que os EUA haviam roubado terras de um aliado europeu. À medida que a ameaça soviética se tornava mais vívida na Europa, a Dinamarca ficou mais disposta a permitir que as tropas americanas permanecessem na Groenlândia.
Em 1951, os EUA e a Dinamarca chegaram a um acordo para “unir seus esforços para a defesa coletiva” sob os auspícios da recém-formada Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Embora enfatizasse a soberania contínua da Dinamarca sobre a ilha, o acordo concedia aos EUA ampla liberdade para “construir, instalar, manter e operar instalações e equipamentos” e para “estacionar e alojar pessoal”, juntamente com outros direitos relacionados à atividade militar. Isso incluía o aprofundamento de portos e até mesmo a manutenção de instalações postais.
O acordo não incluía uma data de validade, e a Dinamarca nunca reivindicou uma. Uma das poucas limitações do acordo era delinear “áreas de defesa” específicas dentro das quais os EUA poderiam operar.
Com o acordo em mãos e recém-alarmados por uma ofensiva comunista apoiada pela União Soviética na Coreia, os militares americanos rapidamente entraram em ação. Em um projeto secreto e urgente, engenheiros militares trabalharam sem parar, sob a luz do dia ártico 24 horas por dia, para construir uma grande base aérea em Thule, no noroeste da Groenlândia. Operada por milhares de militares americanos, a pista de 3.000 metros da base serviria como ponto de lançamento para bombardeiros estratégicos e aviões espiões.
Mais de uma dúzia de bases militares e estações de radar e monitoramento meteorológico acabaram sendo abertas em toda a ilha. No auge da presença militar dos EUA na Groenlândia durante a Guerra Fria, cerca de 10.000 militares americanos estavam estacionados na ilha. Mas depois que a União Soviética entrou em colapso em 1991, o custo de uma grande presença em uma ilha do Ártico não fazia mais sentido.
A maioria das instalações americanas na Groenlândia foi fechada na década seguinte, com as atividades dos EUA se consolidando em Thule, cujo nome foi alterado em 2023 para Pituffik, em reconhecimento a um antigo assentamento inuíte no local. Agora é uma base da Força Espacial dos EUA, com cerca de 150 funcionários que gerenciam radares de alerta antecipado e comunicações por satélite.
Trump argumenta que a Groenlândia é mais uma vez vital para a segurança dos EUA, e muitos especialistas em segurança nacional concordam. Eles apontam para a crescente competição no Ártico com a Rússia e a China por recursos naturais e rotas marítimas, à medida que o derretimento do gelo remodela a região. Trump também afirma que a Groenlândia é crucial para o ambicioso sistema de defesa antimísseis Domo de Ouro que ele espera construir nos próximos anos.




