Adriana Diaz, 42, percorreu os cerca de 780 km de Maturín, na Venezuela, até Pacaraima (RR). Com ela vieram seus dois filhos, hoje com 7 e 9 anos. A família enfrentou dois dias de viagem de ônibus, uma noite dormida sobre papelões antes de passar por triagem em Boa Vista e morou quase cinco meses em um abrigo da Operação Acolhida, do governo federal brasileiro.
Na Venezuela, Adriana não tinha salário estável, embora tivesse formação em educação e administração industrial, e a família havia sofrido com violência e roubos nos negócios. Apesar da barreira do idioma, ela diz que escolheu o Brasil porque queria melhores oportunidades para as crianças.
“Não podia pagar educação privada, e eles dependiam da pública, que atualmente na Venezuela não está funcionando como deveria”, diz.
Análise da Folha a partir de dados do Sistema do Comitê Nacional para os Refugiados (Sisconare) e do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais) da Universidade de Brasília mostra que a migração venezuelana tem se tornado cada vez mais um movimento feito por famílias, não só por indivíduos.
Embora o perfil predominante continue a ser de adultos na faixa de 25 a 39 anos, o percentual desse grupo passou de 40%, em 2017, para 27%, em 2025, enquanto outras faixas etárias se tornaram mais representativas.
Em 2025, uma em cada quatro pessoas que atravessaram as fronteiras, seja em busca de proteção ou em decorrência da crise econômica do regime de Nicolás Maduro, tinha menos de 15 anos.
Esse grupo de crianças e adolescentes passou de 16%, em 2017, para 25%, em 2025, segunda faixa etária mais representativa do ano. O maior patamar foi em 2022, com mais de 29 mil entradas, 28% do total, consolidando uma tendência registrada desde 2018. Naquele ano, foram 13,8 mil entradas no país, alta de 286% em comparação a 2017.
“É uma dinâmica de migração familiar, um processo mais planejado: levar os filhos e pensar dinâmicas de inserção e em oportunidades para essas crianças. Há também uma lógica de pessoas que já consolidaram a sua condição no Brasil, arranjaram emprego, conseguiram minimamente se estabelecer em termos de residência e começam a trazer os filhos para o Brasil”, afirma o diretor do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski Silva.
O percentual de pessoas de 40 a 64 anos também aumentou. Em 2025, totalizou 20% dos migrantes que chegaram ao país, pouco mais de 18 mil pessoas. O maior número absoluto foi registrado em 2024, com 22,4 mil pessoas, 19% do total de entradas.
“Há várias questões de subsistência, uma vez que as aposentadorias e o sistema de saúde já não são suficientes. A migração acaba sendo uma saída na busca do acesso a medicamentos e a tratamento de saúde, que hoje são muito precários na Venezuela”, diz o especialista.
Coordenador de estatística do Obmigra, Antônio Tadeu de Oliveira explica que esses dados captam apenas pessoas que chegaram e se registraram no mesmo ano. Além da mudança no perfil etário, ele diz observar o aumento da migração feminina.
Em 2025, o total de mulheres foi numericamente superior ao de homens, com 198 chegadas a mais. A primeira vez em que houve mais entradas de venezuelanas foi em 2022, com 52,4 mil ante 51 mil dos homens. A maior diferença foi registrada em 2024, com 3.000 a mais, totalizando 59,3 mil mulheres, ante 56,3 mil homens.
Adriana Diaz chegou a morar um ano e meio no Equador com as crianças e o hoje ex-marido, antes de retornar à Venezuela e migrar novamente para o Brasil. O objetivo, segundo ela, era buscar melhor qualidade de vida. “Não era justo só comer, dormir, cumprir com as necessidades básicas, essa não pode ser a vida. É preciso ter aspirações maiores, preparar-se para melhores oportunidades, e é isso que quero para os meus filhos e para mim.”
De Pacaraima, a família venezuelana foi enviada ao Paraná pelo processo de interiorização voluntária promovido como parte da Operação Acolhida, do governo federal com apoio de agências da ONU desde 2018. Com oferta de emprego em frigoríficos, os três estados da região sul foram os que mais receberam esse fluxo, seguidos por São Paulo, destino de 16 mil migrantes.
Na fronteira norte do Brasil, nas primeiras semanas depois da captura de Maduro pelos Estados Unidos não houve grandes alterações de movimento. Segundo a Polícia Federal, dezembro de 2025 teve média de 280 migrantes por dia; já nos dois primeiros dias depois da captura de Maduro, no início deste mês, foram registrados 259.
Apesar disso, dados de deslocamento forçado do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) mostram que desde 2018 o Brasil se consolidou como rota para os venezuelanos. Em 2017, o país aprovou uma nova Lei de Migração e passou a ter um projeto de acolhida na fronteira, com recursos dos Estados Unidos.
Isso, somado ao contexto de fechamento das fronteiras na pandemia e às políticas da primeira gestão Trump, fez do Brasil o terceiro principal destino para venezuelanos de 2018 a 2022, posição retomada pelos EUA na gestão de Joe Biden.
Ao final de 2024, a diferença entre o fluxo de migrantes forçados recebidos pelos EUA e pelo Brasil foi de 3,4%, com 648 mil entradas nos Estados Unidos ante 626 mil em solo brasileiro.
“A partir desse movimento de uma migração forçada, o Brasil teve uma dinâmica de ingresso de venezuelanos nesse século. Há episódios de redução, mas o cenário, em curto e médio prazo, é de manutenção. Não vai ser do dia para noite que esse movimento vai reduzir”, diz Silva.




