Gisèle Pelicot: Homens que me estupraram não são doentes – 25/01/2026 – Mundo

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Quando Gisèle Pelicot acompanhou seu marido à delegacia de Carpentras, cidade no sul da França próxima ao vilarejo onde haviam decidido passar a aposentadoria, imaginou que os dois voltariam logo para casa, juntos.

Ela sabia que Dominique, o homem com quem se casara em 1973, fora fichado dois meses antes por filmar por baixo das saias de mulheres em um shopping da região —ficou surpresa, mas decidiu permanecer a seu lado, com a promessa de que aquilo jamais ocorreria de novo.

Naquela ida à delegacia, porém, a aposentada descobriria que, de 2011 até aquele dia 2 de novembro de 2020, seu marido a drogara dezenas de vezes. O objetivo era convidar homens pela internet para estuprá-la desacordada e filmar os atos.

Quatro anos depois, Pelicot tomou uma decisão inesperada ao rejeitar o direito ao anonimato e decidir por um julgamento público, em que todos os vídeos das violências que sofreu fossem exibidos ao público. “Não são as vítimas que deveriam ter vergonha, são os acusados. As vítimas não são culpadas pelo que lhes acontece”, reitera à Folha em entrevista por vídeo na sexta-feira (23).

Dominique Pelicot e outros 50 homens foram condenados pelos estupros em dezembro de 2024. Apenas um recorreu e, em outubro de 2025, teve sua pena aumentada pela Justiça francesa.

Avessa ao público desde o fim do julgamento, ela lança em fevereiro o livro de memórias “Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado”, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Na obra, fala sobre sua infância e a construção de uma vida pacata e normal até o dia em que isso mudou totalmente. “Quando digo que fui atropelada por um trem, é exatamente como me senti”, diz.

Nesta entrevista, a francesa fala sobre a dificuldade de conciliar as memórias de um casamento de cinco décadas com o “homem que acreditava ser perfeito” e aquele que conheceu nos vídeos e discute a falta de responsabilização masculina em casos de violência sexual.

“Espero que na prisão eles reexaminem suas consciências”, afirma. “Mas não são doentes, são responsáveis por seus atos.”

Também afirma estar feliz por ter transformado sua história em exemplo, mas diz que não se considera um ícone feminista. E conta que agora tem um novo companheiro, quando achava impossível se apaixonar novamente. “Somos duas almas com cicatrizes que se encontraram e querem seguir em frente.”

O livro tem passagens bastante gráficas dos vídeos dos estupros. Como foi relembrá-los ao escrever?

Assisti aos vídeos só em maio de 2024, quando tomei a decisão de tornar o julgamento público. Meus advogados me disseram que seria necessário. Foi insuportável.

Ainda vejo essa mulher [das imagens] e não me reconheço. Sou eu, claro, mas me distancio dizendo que não sou, porque sou uma mulher viva. A que vejo na cama está como uma morta, viveu dez anos de anestesia geral. Isso também me ajudou a enfrentar esse julgamento. Me ajudou a dizer que não era eu, criou um distanciamento.

Por que a sra. achou importante descrever parte das cenas de violência em detalhe?

Eu quis contar minha versão, porque a imprensa contou o que viu naquela sala de audiência. Minha maneira de ser, de me portar, de me vestir, tudo foi descrito. Mas eu quis contar o que, como vítima, eu… É verdade, não tenho lembranças, mas quando assistimos a esses vídeos, é insuportável.

Tem a questão da vergonha. Não são as vítimas que deveriam ter vergonha, são os acusados. As vítimas não são culpadas pelo que lhes acontece.

Eu quis contar uma anedota sobre um vídeo famoso [de uma mulher fazendo sexo consentido com Dominique Pelicot] em que estão convencidos de que sou eu. A mulher se parece estranhamente comigo, tem mais ou menos o mesmo corte de cabelo que eu, mas é muito mais jovem. Fiquei muito confusa quando um advogado disse que tinha um vídeo que ia provar que “a senhora Pelicot não estava sedada”.

Meus advogados encontraram o vídeo e vimos que não era eu. Tive que fotografar uma pinta na minha barriga para provar, foi uma situação lunática. Mas era preciso enfrentar, era preciso ser correto. É preciso ser irrepreensível [sendo a vítima] em um processo como esse.

A sra. fala sobre sua dificuldade para reconciliar todos os anos que viveu com seu ex-marido com a figura que descobriu nos vídeos dos estupros. Como lida com essas memórias hoje?

É muito complicado. Passei 50 anos com o homem que acreditava ser perfeito, nunca tive problemas com o senhor Pelicot. Obviamente, passamos por crises como todos os casais, mas era superável e sempre fiz questão de estar lá para ele, de ajudá-lo.

Esse lado B, essa parte sombria que ele tinha dentro de si, eu só descobri quando cheguei à delegacia. Quando digo que fui atropelada por um trem, é exatamente como me senti. Minha vida desmoronou. Perdi tudo. Vendi meus móveis, cheguei a Paris com minhas duas malas e meu cachorro.

Recomecei do zero, mas também aprendi a me conhecer, a saber quem sou diante da adversidade. Essa força, quero dá-la aos outros. Porque acho que todos podemos ter momentos extremamente complicados. O meu caso é sórdido, mas é possível dizer a si mesmo que podemos superar e ser felizes. É o que sou hoje.

A sra. se tornou um ícone feminista global. Como se sente nessa posição? Considera-se feminista?

Estou feliz por ter transformado esta história em exemplo e meu nome em estandarte. Eu diria que não sou uma feminista radical, mas sou feminista no fundo. Sempre fui uma mulher financeiramente independente, livre —casada, mas livre.

E não era uma mulher submissa na minha vida pessoal. Como diz o senhor Pelicot, ele “submeteu uma mulher insubmissa”, porque eu era uma mulher que o enfrentava. Tínhamos discussões às vezes que eram bastante acaloradas, mas eu não me sentia de forma alguma reprimida.

Quanto a ser um ícone, eu aceito o título, claro, mas diria mais que sou uma referência.

A sra. mencionou essa frase de seu ex-marido no julgamento: de que havia “submetido uma mulher insubmissa”. No livro, a sra. descreve a vida de uma mulher de sucesso, com um emprego estável, e de um homem com muita dificuldade de se encontrar profissionalmente. Quanto a sra. acha que esse desejo de subjugação feminina está ligado à violência sexual?

Quando nos conhecemos, éramos dois jovens de 19 anos e começamos juntos na vida. Não havia rivalidade porque eu achava que a ascensão social aconteceria naturalmente, chegaríamos mais ou menos ao mesmo nível.

É verdade que ele teve um percurso profissional um pouco caótico, mas era um homem que se esforçava bastante para encontrar trabalho. Talvez ele tenha tido uma sensação de fracasso em relação a mim. É possível. Mas eu nunca tinha sentido isso.

Quando ele começou a me sedar, foi no início de sua aposentadoria; ele se aposentou dois anos antes de mim. Será que foi isso que desencadeou tudo? Será que toda essa parte sombria que ele tinha dentro dele despertou por isso? Não tenho a resposta.

Que papel a sra. acredita que a internet teve na radicalização de seu ex-marido?

[A internet] é uma praga social. Ainda ouvimos muitas histórias como a minha, seja na Alemanha, na Espanha, na Itália ou na Inglaterra, isso continua. Os homens continuam a sedar suas mulheres. Eu pensava que minha história despertaria a consciência coletiva, mas ainda há muito a ser feito na luta feminista.

Em 2010, Dominique Pelicot foi flagrado pela primeira vez filmando mulheres em um shopping, e nada foi feito. Em 2020, foi totalmente diferente. O que mudou em dez anos? Foi sorte ou uma verdadeira mudança social?

Acho que é um pouco dos dois. Quando ele foi surpreendido nesse shopping em 2010, recebeu uma multa de € 100, não foi preso e eu nunca fui informada de seus atos.

Há uma banalização da violência sexual e sexista, porque esses indivíduos [os seguranças] disseram: “Não é tão grave”. Mas sim, era grave.

Em 2020, ele foi surpreendido novamente. Dessa vez, o segurança chama a delegacia. E o policial foi perseverante ao dizer: “Ele é um velhinho, mas vamos mesmo assim fazer uma busca em sua casa”. Isso salvou minha vida.

O policial testemunhou no tribunal que, a cada vez que assistia aos vídeos, pensava que aquela mulher iria morrer. Vemos esses indivíduos me maltratando com o consentimento do senhor Pelicot e não houve um único deles que denunciou.

Eles sabiam muito bem o que vinham fazer. Mas, para eles, não era tão grave —porque eles não consideravam que tinham estuprado, se o marido havia dado o consentimento. Isso também diz muito sobre o comportamento dos homens hoje.

É frequente que o comportamento de abusadores seja patologizado. A sra. acredita que os homens que a violentaram podem ser considerados doentes? E o seu ex-marido?

Se tivessem sido reconhecidos como doentes, estariam num hospital psiquiátrico, não na prisão. Eles tinham discernimento quando vieram [cometer os estupros], portanto, eram totalmente responsáveis pelos seus atos.

Penso que há uma maneira de olhar a mulher completamente distorcida. Eles se serviram, vieram satisfazer seu poder sexual sem refletir um segundo sobre seus atos. Espero que, na prisão, eles reexaminem suas consciências. Mas não estou tão certa de que vão fazer isso, porque aquele [um dos condenados] que entrou com recurso no ano passado chegou dizendo: “Eu sou vítima”. Ele era a vítima!

Eu lhe disse que ele não tinha entendido nada e que achava que, em um ano, ele teria feito uma reflexão sobre si mesmo. Ele continuava dizendo que não tinha feito nada de errado. Ou eles estão em negação ou não querem reconhecer quem são de verdade.

Eles ainda têm muito trabalho pela frente. Espero que estejam sendo ajudados por psicólogos. Mas não são doentes, são responsáveis por seus atos.

Um relatório recente do governo francês mostrou que as violências que a sra. sofreu poderiam ter sido evitadas. Em 2010, o DNA do seu ex-marido se mostrou compatível com o encontrado em uma cena de tentativa de estupro em 1999, em Paris, mas a investigação só avançou em 2022. O que a sra. pensa sobre a atuação das autoridades ao investigar violências contra as mulheres?

É verdade que se eu tivesse sido informada sobre o que ele fez em 2010, teria me poupado de muitos problemas. Mas o mal já está feito. Para mim, a justiça foi feita e eles foram considerados culpados.

Infelizmente, esse não é o caso de todas as vítimas. O caso dessa jovem mulher de 1999, onde há o DNA do senhor Pelicot, está prescrito, então talvez não haja processo.

Acho isso lamentável. A partir do momento em que temos as provas, deveríamos suspender a prescrição, porque toda vítima tem direito à sua justiça. Essa mulher hoje é casada, com filhos, e talvez ela não queira dizer quem é, mas gostaria que ela pudesse ir até o fim do seu processo. Gostaria que a Justiça pudesse reabrir esse caso para repará-la.

A sra. menciona várias vezes que quer encontrar Dominique Pelicot para lhe fazer perguntas. A sra. já o fez? Se não, o que a impede?

Eu não fui encontrá-lo primeiro porque não tive tempo. E também porque preciso de um pouco de distância em relação a tudo isso. Acho que não farei isso antes do outono [no segundo semestre] porque agora estou publicando o livro, mas quero encontrá-lo.

Não pude conversar com ele e gostaria de ter respostas. Por que, se você me diz que sou o amor da sua vida, você pôde chegar a esse ponto? O que eu fiz para sofrer isso?

Há também respostas em relação à filha dele [Caroline Darian, que acusa o pai de tê-la estuprado também, o que ele nega]. Então espero que, olhando nos olhos, tenha respostas. Talvez nunca as tenha, mas pelo menos vou tentar. Eu me sinto responsável por isso.

A sra. escreve sobre seu novo companheiro. Como fez para confiar em homens novamente?

Sabe, quando vivi minha história, passei três anos sozinha. Precisava me reparar, me isolar e refletir. Nunca pensei que poderia me apaixonar novamente, nem mesmo ter vontade. Mas a vida colocou no meu caminho esse homem que tem uma bela alma.

Nós nos apaixonamos, já que ele também teve um percurso de vida complicado. Somos duas almas com cicatrizes, que se encontraram e querem seguir em frente.

Raio-X | Gisèle Pelicot, 73

Nascida em Villingen, na Alemanha, cresceu no interior da França e se mudou para Paris na juventude. Trabalhou na Électricité de France, a empresa de fornecimento de energia elétrica do país, até se aposentar em 2013. Tornou-se mundialmente conhecida após recusar o direito ao anonimato no julgamento que condenou seu ex-marido e outros 50 homens por estupros cometidos contra ela de 2011 a 2020. É autora do livro de memórias “Um Hino à Vida” (Companhia das Letras).



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