Com os avanços militares recentes, a Síria consolidou seu poder no nordeste do país. Até então, esse território —que chegou a representar quase um terço do total— estava sob o controle da minoria curda. Esse é o maior evento no país desde a queda do ditador Bashar al-Assad em dezembro de 2024.
Uma das principais explicações para essa transformação drástica no jogo de forças é a guinada da política externa americana. Washington vinha apoiando os curdos por uma década. Sob o governo de Donald Trump, agora aposta no presidente Ahmad al-Sharaa e em seu projeto centralizador.
“Essas mudanças vão ter enormes consequências para a estabilidade da Síria e da região”, diz Kawa Hassan, do centro de pesquisa americano Stimson e especialista no Oriente Médio. Em especial, preocupa Hassan o futuro das minorias na Síria. Sharaa, o novo líder do país, afinal, começou a carreira política como líder de um braço da Al Qaeda.
A Síria tem uma população majoritariamente sunita, que é o principal ramo do islã. Mas há também outros grupos étnico-religiosos, como os curdos, os drusos e os alauítas. A família Assad —que governou por meio século— era de origem alauíta. Os colonizadores franceses fomentaram a disputa entre os grupos, como também fizeram no Líbano.
Em 2011, a Síria foi tragada por uma guerra civil, agravada pelo surgimento de facções radicais. Washington decidiu, naquele contexto, apoiar as forças curdas instaladas no nordeste sírio. Essas forças foram fundamentais para derrotar a organização terrorista Estado Islâmico, que havia perpetrado massacres no país e atentados em cidades europeias.
Com suas vitórias, os curdos tomaram territórios que o Estado Islâmico tinha conquistado, por sua vez, do governo central. Essas áreas incluem reservas de petróleo, regiões agrícolas e uma grande usina hidrelétrica.
O Estado Islâmico foi enfraquecido e, em dezembro de 2024, as forças de Sharaa depuseram o ditador Bashar al-Assad, inaugurando uma nova era no país. Sharaa prometeu que, sob seu mando, protegeria as minorias. O país, no entanto, tem vivido uma série de conflitos internos.
No sul, por exemplo, forças aliadas ao governo central lutaram contra os drusos. Houve episódios semelhantes na região costeira, onde vivem os alauítas. Centenas morreram desde então. “O Exército sírio e seus afiliados cometeram terríveis violações dos direitos humanos”, diz Hassan. “Há uma enorme retórica contra esses grupos.”
O enfoque está agora no nordeste, a região que concentra as populações curdas da Síria. Com o apoio americano, os curdos tinham ali estabelecido uma área semi-autônoma, com suas próprias instituições. Isso contraria o plano de Sharaa de centralizar o país em Damasco, a capital.
Na terça-feira (20), em meio aos avanços de Sharaa, os Estados Unidos deixaram clara sua nova postura. O enviado especial de Washington, Tom Barrack, disse que a razão de ser das forças curdas independentes havia expirado. No ínterim, os EUA têm retirado suas sanções contra a Síria e apoiado publicamente Sharaa, normalizando as relações com esse país após anos.
Nos últimos meses, mudaram não só o apoio americano, mas também as estratégias dos atores regionais. Países como Turquia, Arábia Saudita e Qatar também preferem a centralização da Síria e o enfraquecimento dos curdos, afirma Hassan. Isso importa para a Turquia, em especial, dado que há forças curdas em seu próprio território lutando há décadas pela independência.
“É uma estratégia bastante míope que vai sair pela culatra”, diz Hassan. Ignorar as demandas de grupos como os curdos e os drusos, que pedem algum grau de autonomia no país, pode ser desastroso”, afirma. “A Síria não vai ter estabilidade, e isso só vai fortalecer o Estado Islâmico.”
Os impactos dessas transformações já são visíveis, diz Hassan, nos desdobramentos recentes na região. Com a retirada dos curdos, alguns membros do Estado Islâmico e seus familiares escaparam de prisões. “Você pode imaginar o que essas pessoas querem fazer com os inimigos que os tinham derrotado”, afirma Hassan. “Estão famintos para matar curdos.”




