
As questões relacionadas com a saúde constituem a principal preocupação dos portugueses, concentrando 55% das referências entre os maiores problemas enfrentados pela população.
Os dados fazem parte do primeiro Barómetro da Lusofonia, que será divulgado oficialmente esta quarta-feira, dia 28 de janeiro, na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp, em Lisboa. Este valor é superior à média dos oito países da Cplp, que se fixa nos 53%.
Em entrevista à ONU News, o coordenador do estudo, António Lavareda, reconhece que este resultado pode parecer paradoxal, tendo em conta que as condições de saúde em Portugal são, em geral, mais favoráveis do que em muitos países de língua portuguesa, mas apresenta explicações para estes dados.
“Isso não significa que a saúde de nenhum desses países seja tão boa, seja melhor do que a de Portugal. Significa que, infelizmente, eles têm outros problemas e maiores que vêm à frente até de uma questão tão importante que, provavelmente, também os aflige como a saúde.”
Os dados mostram que, em Portugal, a educação aparece em segundo lugar do ranking das preocupações, com 35%, seguido da economia com 22% e imigração com 17%.
Ao contrário dos restantes países da Cplp, os portugueses não revelam uma preocupação significativa com o desemprego, referido por apenas 9% dos inquiridos.
O estudo revela que Portugal é visto como um dos destinos preferidos para a imigração da população dos demais países. António Lavareda explica que o país desperta interesse.
“É o grande sonho dourado de ser uma próxima residência. Portugal é muito admirado nas suas diversas dimensões”.
O mesmo se verifica no campo do desporto com o futebol português a liderar, com ampla margem, a capacidade de despertar interesse nos restantes países, alcançando uma média geral de 54%. O futebol brasileiro aparece em segundo lugar, com 31%.
Os níveis de interesse pelo futebol de Angola (9%) e Cabo Verde (7%) são bastante reduzidos, enquanto os demais países registram valores residuais. No conjunto, 36% dos entrevistados declaram não acompanhar futebol de nenhum outro país lusófono.
Largo da Esperança, Lisboa, Portugal
O estudo inédito foi conduzido pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Económicas, Ipespe, com sede em São Paulo, no Brasil. A coordenação esteve a cargo do cientista político António Lavareda, que se encontra em Lisboa para apresentar os resultados e explicou a importância de olhar para os países de língua portuguesa.
“Há uma perceção de que essa língua consubstancia o que pode ser um projeto comum. Há uma demanda desses países, dessas sociedades, de se conhecerem mais, de se integrarem mais, de se darem mais as mãos, colaborando mais, se articulando mais, para ter uma presença mais num cenário internacional tão difícil como a gente vive nesses dias”, detalhou à ONU News.
Entre os oito países pesquisados, a saúde (53%), educação (43%) e desemprego (34%) concentram os principais problemas sociais na visão dos seus cidadãos. A principal exceção é Moçambique, onde apenas 28% destacam essa área.
Entre os angolanos, o padrão segue a tendência geral, com a educação (53%), a saúde (48%) e o desemprego (45%) no topo das preocupações, embora com um peso significativamente superior da educação e do desemprego face à média dos países analisados. A inflação surge em quarto lugar e assume uma relevância particularmente elevada, correspondendo ao dobro da média geral.
© Wikipedia Commons/Colleen Taugher
Bissau, a capital da Guiné-Bissau
Na Guiné-Bissau, os valores atribuídos à saúde e à educação são excecionalmente elevados: 85% dos inquiridos apontam a saúde e 78% a educação como os principais desafios. Estes são os índices mais elevados registados para qualquer problema entre os países analisados, sinalizando carências profundas em áreas essenciais da provisão pública.
As questões relacionadas com a saúde lideram igualmente as preocupações em São Tomé e Príncipe, representando 48% das referências. O desemprego constitui outro motivo de alarme para a população, com 40% das menções, enquanto a educação surge com 29%.
Em Timor-Leste, a perceção dos problemas distribui-se por várias frentes críticas, com cerca de seis em cada dez entrevistados a referirem a saúde (59%), a educação (59%) e o desemprego (58%).
Já em Moçambique, é a educação que encabeça o ranking das preocupações (35%), seguida do desemprego (21%), da inflação e da economia em geral, indicando que as questões económicas constituem o eixo central das inquietações no país.
Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 28 de outubro de 2025 – Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro
No Brasil, os principais problemas identificados pelos cidadãos são a saúde (45%), a violência (40%) e a educação (35%). Em Cabo Verde, a violência apresenta um peso semelhante ao observado no Brasil, com 47% das menções, mas surge atrás da saúde (55%) e, sobretudo, do desemprego (60%), que lidera as preocupações no país.
A inflação e o aumento dos preços recolhem 25% das referências, correspondendo ao segundo valor mais elevado deste indicador entre os oito países analisados.
O investigador brasileiro explica que a violência está relacionada com a idade da população e destaca os dados do Brasil.
“Quanto mais jovem uma sociedade, maior a incidência de criminalidade. Agora mesmo, por exemplo, no Brasil, o número de homicídios reduziu-se nos últimos 5 anos, caiu em torno de 20%. Qual é a explicação? A explicação principal é envelhecimento da população e diminuição desse contingente, onde ocorrem mais práticas de homicídios e mais vítimas de homicídios.”
O Barómetro da Lusofonia contou com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, entre outras instituições académicas e culturais. Terá uma periodicidade bienal, com o objetivo de se consolidar como referência internacional em estudos sobre democracia, desenvolvimento e identidade cultural no espaço lusófono.
*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.
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