John Maynard Keynes observou certa vez que “os homens práticos, que se julgam livres de qualquer influência intelectual, costumam ser escravos de algum economista morto”. O ponto não era apenas que ideias ruins sobrevivem, mas que, quando desligadas dos contextos institucionais e históricos que as moldaram, passam a operar com uma autonomia perigosa.
Elas se deslocam para o poder, são simplificadas e deixam de funcionar como argumentos, transformando-se em imperativos morais. A convergência contemporânea entre trumpismo, anticomunismo do exílio cubano-americano, certas leituras da economia da migração, linguagem humanitária e fluxos migratórios evidenciam esse processo de forma inquietante, reduzindo Cuba de uma sociedade concreta e contraditória a um símbolo que exigiria um desfecho histórico definitivo.
Desde 1959, Cuba ocupa um lugar singular no imaginário político dos Estados Unidos. A queda da ditadura de Fulgencio Batista, apoiada por Washington, seguida da rápida aliança com a União Soviética, não representou apenas o surgimento de um Estado adversário, mas um desafio direto à autoridade hemisférica norte-americana a poucas milhas da Flórida.
Baía dos Porcos, Crise dos Mísseis e décadas de embargo cristalizaram Cuba como um resíduo simbólico da Guerra Fria, cuja carga persistiu muito além de sua relevância estratégica. Mesmo após o colapso soviético, sua sobrevivência permaneceu, para muitos, uma anomalia histórica. A breve normalização sob Barack Obama foi significativa justamente por tratar Cuba como um Estado ordinário; sua reversão sob Donald Trump e Marco Rubio restaurou uma política orientada pela memória, não pela administração.
Essa política é mediada há décadas pelo exílio cubano-americano, especialmente em Miami, onde o anticomunismo se consolidou como doutrina disciplinadora. A trajetória de Rubio expressa bem esse padrão: sua retórica é menos empírica que escatológica, sempre à espera do colapso final e de uma redenção histórica. O segundo mandato de Trump forneceu o temperamento institucional para essa visão, marcado pela indiferença às normas e pela preferência pela coerção espetacular.
Nesse contexto, o trabalho do economista George J. Borjas adquiriu projeção política desproporcional. Seus estudos sobre imigração, especialmente a reavaliação do êxodo de Mariel, sugerem efeitos salariais negativos para certos grupos de trabalhadores nativos. Embora amplamente contestadas e reconhecidamente sensíveis a pressupostos metodológicos, essas conclusões perderam nuance ao serem absorvidas pelo discurso público. A restrição migratória passou a figurar como necessidade moral, não como escolha política. Assim, Borjas se aproxima do “economista morto” de Keynes: citado como autorização ética, não como evidência debatível.
O anticomunismo fornece o roteiro moral, a econometria o álibi técnico e o Executivo o poder coercitivo. À medida que a crise econômica aprofunda a migração cubana, o efeito é reimportado como causa: pessoas “fugindo do socialismo”. A migração torna-se prova, e a prova, mandato. A história real de Cuba —com conquistas sociais inegáveis e fracassos estruturais persistentes— é substituída por uma narrativa moral simplificada. Como na canção popular cubana, a política permanece suspensa numa espera indefinida: quizás, quizás, quizás (talvez, talvez, talvez).
Tradução automática revisada por Isabel Lima




