Enquanto avalia opções de ataque ao Irã, o presidente Donald Trump escala sua presença militar no Oriente Médio e já inclui Israel no xadrez de uma eventual guerra contra a teocracia.
Nesta sexta-feira (30), o destróier USS Delbert D. Black chegou ao porto de Eilat, o principal de Israel no mar Vermelho e um de seus pontos estratégicos mais expostos a ataques. O navio veio em cinco dias da Grécia e oferece, além de capacidade de ataque, defesa antimíssil com seus sistema Aegis.
As forças do Estado judeu disseram o esperado, que a visita estava programada para a realização dos exercícios, mas o sinal para Teerã do apoio americano é evidente.
O Irã já disse que, se for atacado, irá retaliar não só contra algumas das oito principais bases dos Estados Unidos na região, mas também contra Israel, com quem travou 12 dias de guerra em junho passado.
Além disso, os EUA preparam o reforço ainda maior do seu poderio aéreo na região. Ao menos seis caças de quinta geração F-35A que estavam estacionados em Porto Rico, tendo participado da operação que capturou o ditador Nicolás Maduro no dia 3, estão a caminho do Oriente Médio.
Eles pousaram no fim da tarde de quinta-feira (29) em Açores, ilha portuguesa, tendo voado com o apoio de aviões-tanque KC-46. Outras seis aeronaves desenhadas para ações ofensivas empregadas na Venezuela, do modelo de guerra eletrônica EA-18G, também cruzaram o Atlântico rumo à Espanha.
São ativos vitais tanto para uma ação mais pontual —abrindo caminho para bombardeiros furtivos B-2 saídos dos EUA atacarem posições do regime, como ocorreu no ataque americano de junho passado ao programa nuclear do Irã— quanto no caso de uma guerra mais ampla.
Este cenário não estava colocado quando Trump fez as primeiras ameaças ao Irã, na esteira da repressão às manifestações contra os aiatolás da virada do ano. Ele recuou, argumentandp que a matança de ativistas havia parado, e mudou o foco para a crise da tomada da Groenlândia.
Enquanto isso, o Pentágono começou a se preparar para algo maior. Mobilizou dois grupos de porta-aviões, um dos quais já está na região. Enviou diversos navios e aeronaves, além de reforçar a defesa das principais bases americanas próximas ao Irã com sistemas antiaéreos Thaad de alta altitude e Patriot, de baixa.
Para um ataque de maior intensidade, nesta semana já havia ao menos 450 mísseis de cruzeiro Tomahawk, armas de precisão para uma primeira onda, em 11 embarcações nas águas do Oriente Médio. Os caças F-35, EA-18G, F/A-18, F-15E e F-16 no teatro de operações entrariam em sequência. Há ainda dezenas de aparelhos na Europa, a poucas horas de voo da ação se preciso.
Um papel ainda incerto é o da nova força de drones suicidas, aliás copiados do famoso modelo iraniano Shahed-136, criada em dezembro na região. O avião-robô foi usado contra a Venezuela, na primeira ação do tipo pelos EUA da tecnologia popularizada na Guerra da Ucrânia.
Na quinta, o secretário Pete Hegseth (Defesa) disse que todas as opções estavam disponíveis para Trump, que agora parou de falar dos manifestantes e voltou a pedir negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Nenhuma das opções é simples: uma decapitação do regime pode levar apenas a uma ditadura militar da Guarda Revolucionária ou a uma guerra civil, enquanto um conflito total pode sair do controle.
O Irã também parece ter reconstituído parte de sua capacidade de defesa antiaérea, seriamente degradada por Israel no ano passado.
No caso de um ataque devastador, contudo, é improvável que a teocracia prevaleça: os israelenses dominaram os céus iranianos em pouco tempo no conflito de 2025, carimbando o rótulo de tigre de papel nas temidas forças de Teerã.
Mas elas podem fazer estragos com os mísseis balísticos remanescentes da guerra, que atingiram diversas vezes Israel. Além disso, o Irã pode sacar uma carta que nunca usou, o fechamento do estratégico estreito de Hormuz, por onde passam um quinto do petróleo e o gás vendidos no mundo.
A ameaça está no ar, com a realização de exercícios com tiro real a partir de domingo (1º) na região, que já teve o espaço aéreo restrito nesta semana. O preço do petróleo já disparou neste mês por cortesia da tensão.
Em 2025, os iranianos não empregaram forças navais no embate com Israel. Neste mês, realizaram manobras anuais conjuntas com Rússia e China, o que alimentou na imprensa pró-regime relatos de que esses aliados poderiam participar os exercícios no estreito —nem Moscou, nem Pequim confirmam isso, que configuraria uma escalada.
Os iranianos também anunciaram a colocação em combate de mais mil drones suicidas, que seriam presumivelmente usados contar embarcações e bases americanas. No mar Vermelho, Teerã ainda tem a promessa de apoio dos seus aliados no Iêmen, os houthis.
Ao longo das guerras decorrentes do ataque de outro aliado iraniano, o Hamas, a Israel em 2023, os houthis tornaram o mar um campo de batalha. Ocasionalmente, disparavam mísseis e drones contra a mesma Eilat que agora os EUA ajudam a defender e mesmo Tel Aviv.




