“Cuba vai falir muito rápido.” A frase de Donald Trump recoloca a ilha no centro do radar político de Washington. Sugere a possibilidade de que o presidente tente aplicar a Cuba a mesma lógica de pressão econômica e política que aplicou à Venezuela.
A pergunta que se impõe é se esse método pode ser transplantado para a realidade cubana.
Para entender por que Cuba volta ao foco agora é preciso partir da situação concreta da ilha. A economia cubana atravessa uma crise profunda, marcada por apagões recorrentes, queda da produção, escassez de alimentos e migração em massa.
A vulnerabilidade energética é central nesse quadro. Cuba sempre dependeu de petróleo externo e durante anos contou com o fornecimento venezuelano. A deterioração estrutural da indústria petrolífera da Venezuela reduziu drasticamente esse apoio. O efeito é direto: sem combustível suficiente, colapsam o transporte, a geração elétrica e parte da produção agrícola e industrial.
Esse quadro encontra, nos EUA, um ambiente político propício à ideia de endurecimento. Há um fator interno decisivo, a pressão constante exercida por setores do eleitorado cubano-republicano na Flórida. Cuba continua sendo um tema central da política do Estado, com peso eleitoral e presença organizada no Congresso.
Daí emerge a leitura americana de que Cuba estaria “mais frágil do que nunca”. Há razões objetivas para essa percepção. A saber: o fim do subsídio soviético em 1991, o esgotamento do colchão venezuelano ao longo dos anos 2010, o colapso do turismo após a pandemia, a saída de centenas de milhares de cubanos e a deterioração dos serviços básicos.
Mas essa fragilidade é relativa e histórica. A economia cubana é estruturalmente frágil há décadas. O chamado “período especial” dos anos 1990 foi, em vários indicadores, tão ou mais severo que a crise atual. A leitura de que “agora é o limite” se repete periodicamente desde os anos 1960. Mas o fato é que não se concretiza.
Há, porém, um elemento decisivo que diferencia Cuba da Venezuela no plano político interno. Em Cuba, Trump não dispõe de uma figura comparável a Delcy Rodríguez. Na Venezuela, Delcy tornou-se peça-chave do regime. Concentra poder, negocia sanções, administra a política petrolífera e funciona como rosto externo e válvula de escape diplomática.
Em Cuba, não há personagens com essas características. O sistema é mais institucionalizado, mais fechado, menos personalista e sem uma divisão funcional equivalente. A ausência de uma “Delcy cubana” significa que a pressão externa tende a bater diretamente no núcleo do regime, sem intermediários visíveis.
A leitura do analista James Bosworth, em versão resumida, lembra que não é a primeira vez que Cuba é dada como prestes a cair. A ilha sobreviveu ao embargo iniciado nos anos 1960, à crise dos mísseis de 1962, ao colapso soviético em 1991, ao “período especial”, à morte de Fidel Castro, aos protestos de 2021 e ao endurecimento das sanções no primeiro mandato de Trump. Em vários desses momentos, a aposta externa foi a mesma: a escassez levaria ao colapso político. O colapso, porém, não ocorreu.
A tensão central se estabelece aí. De um lado, a leitura americana atual: Cuba está economicamente exaurida, com crise energética, população cansada e dependência externa reduzida. De outro, está a leitura histórica, o regime já sobreviveu a choques equivalentes e saiu ileso.
Porém, entre a aposta americana num colapso econômico e a história cubana de sobrevivência à pressão externa, permanece em aberto se Trump pode fazer com Cuba o que está tentando fazer com a Venezuela.




