Na manhã de 10 de janeiro, Nicole Cleland estava em seu carro seguindo um agente do ICE (a polícia de imigração dos EUA) em sua cidade natal, Richfield, no estado de Minnesota.
De repente, o agente entrou em várias ruas e parou, saindo de sua Dodge Ram branca, disse Cleland, que trabalha como voluntária em um grupo local de vigilância que observa a atividade dos agentes de imigração. O agente então caminhou até o carro de Cleland e a surpreendeu chamando-a pelo nome Nicole.
“Ele disse que tinha reconhecimento facial e que sua câmera corporal estava ligada”, disse Cleland, 56 anos, que não conhecia o agente antes.
Cleland foi uma de pelo menos sete cidadãos americanos informados por agentes do ICE em janeiro que estavam sendo gravados com tecnologia de reconhecimento facial em Minneapolis e arredores, segundo ativistas locais e vídeos publicados nas redes sociais, que foram verificados pelo jornal The New York Times. Nenhum deles havia dado consentimento para que seus rostos fossem registrados.
O reconhecimento facial é apenas uma das ferramentas tecnológicas que o ICE implantou em Minneapolis, onde milhares de agentes estão realizando uma operação de repressão.
As tecnologias estão sendo usadas não apenas para identificar imigrantes em situação irregular, mas também para rastrear cidadãos que protestaram contra a presença do ICE, disseram três pessoas que trabalham ou trabalharam no Departamento de Segurança Interna e que não estavam autorizados a discutir assuntos confidenciais.
O ICE está usando dois programas de reconhecimento facial em Minnesota, disseram eles, incluindo um feito pela empresa de tecnologia Clearview AI e um programa mais recente, o Mobile Fortify.
A agência também está usando ferramentas de celular e redes sociais para monitorar a atividade online das pessoas e potencialmente invadir telefones. E os agentes estão acessando um banco de dados, construído pela empresa de análise de dados Palantir, que combina dados governamentais e comerciais para identificar localizações em tempo real de indivíduos que estão perseguindo, disseram os funcionários atuais e ex-funcionários.
“As tecnologias estão sendo implantadas, ou parecem estar sendo implantadas, de uma maneira muito mais agressiva do que vimos no passado”, disse Nathan Freed Wessler, advogado da União Americana pelas Liberdades Civis, que processou o Departamento de Segurança Interna devido à operação de imigração em Minneapolis. “A conglomeração de todas essas tecnologias juntas está dando ao governo habilidades sem precedentes.”
O Departamento de Segurança Interna não divulgou quais tecnologias os agentes de imigração estão usando em Minneapolis. Um porta-voz disse que a agência não detalharia seus métodos, acrescentando: “Por anos, as forças de segurança em todo o país têm aproveitado a inovação tecnológica para combater o crime. O ICE não é diferente.”
O alcance das tecnologias levantou preocupações. Em novembro, senadores democratas, incluindo Edward Markey (Massachusetts), Chris Van Hollen (Maryland) e Adam Schiff (Califórnia), pediram ao ICE mais informações sobre seu software de reconhecimento facial e solicitaram que a agência suspendesse o uso da tecnologia em cidades americanas.
O ICE expandiu enormemente suas ferramentas tecnológicas no último ano após um influxo de dinheiro. Em julho, o presidente Donald Trump assinou um projeto de lei aumentando o orçamento anual do ICE de de US$ 8 bilhões para aproximadamente US$ 28 bilhões, tornando-o a agência de aplicação da lei mais ricamente financiada no governo federal.
Em abril, o Departamento de Segurança Interna concedeu à Palantir um contrato de quase US$ 30 milhões para construir um sistema apoiado por inteligência artificial que ajudaria a encontrar e rastrear indivíduos para deportação. A Palantir deveria entregar um protótipo até 25 de setembro, de acordo com licitações públicas emitidas pela agência. A agência começou a usar o sistema, disseram dois funcionários atuais da Segurança Interna.
Uma pessoa familiarizada com a Palantir disse que a empresa trabalha com o ICE em um banco de dados que integra diferentes informações para ajudar os agentes a identificar apenas não cidadãos.
Em setembro, o Departamento de Segurança Interna também gastou quase US$ 10 milhões adquirindo pelo menos três ferramentas e serviços de monitoramento de redes sociais que permitem buscas aprofundadas em celulares, de acordo com registros de aquisição e contratos públicos para o projeto.
Uma das ferramentas, que foi construída pela Paragon, uma empresa de tecnologia israelense, permite assumir o controle de telefones ou invadi-los remotamente para ler mensagens ou rastrear localizações. As outras foram construídas pela Penlink, uma empresa de software com sede em Nebraska. Elas usam dados de redes sociais extraídos da web e informações de corretores de dados para ajudar a construir dossiês de qualquer pessoa com uma conta em redes sociais.
As empresas não responderam aos questionamentos da reportagem.
O uso de software de reconhecimento facial pelo ICE foi documentado em vídeos e fotos de grupos ativistas locais em Minnesota em janeiro e revisados peloNew York Times. Duas fotos capturaram agentes uniformizados usando celulares para escanear os rostos de manifestantes em Minneapolis, enquanto em um vídeo, agentes podiam ser ouvidos dizendo às pessoas que estavam sendo gravadas com tecnologia de reconhecimento facial e que seus rostos seriam adicionados a um banco de dados.
A tecnologia visível nas fotografias era o Mobile Fortify. Um porta-voz do departamento disse que o Mobile Fortify é uma “ferramenta legal de aplicação da lei” e “legalmente usada em todo o país de acordo com todas as autoridades legais aplicáveis”.
Em um relatório da agência de 2024, o Departamento de Segurança Interna disse que usava uma ferramenta de reconhecimento facial da Clearview AI para investigações de exploração infantil. Mas em um contrato de US$ 3,75 milhões com a empresa em setembro, a agência disse que a ferramenta também seria usada para investigar ataques às forças de segurança.
Um porta-voz da Clearview AI disse que o foco de seu contrato com o departamento era apoiar investigações sobre exploração infantil e crimes cibernéticos.
O ICE continua buscando mais tecnologia. Em janeiro, a agência publicou um pedido de informações sobre maneiras de melhor adquirir e integrar os chamados big data e tecnologia de publicidade em suas operações, dizendo que estava “trabalhando com volumes crescentes de documentação administrativa criminal, civil e regulatória de numerosas fontes internas e externas”.
Cleland, a moradora de Richfield, disse que três dias após o encontro com o agente do ICE, recebeu um email do Departamento de Segurança Interna informando que seus privilégios de viagem haviam sido revogados. Nenhuma explicação foi fornecida.
Cleland disse que oscilou entre raiva e medo. “Não sei até onde o ICE pode chegar. Estou lutando para descobrir o que posso fazer, sem me colocar em maior risco ou colocar outras pessoas em risco.”
Em janeiro, Cleland assinou uma declaração juntando-se a um processo contra o Departamento de Segurança Interna no Tribunal Distrital dos EUA em Minnesota. O processo contesta as ações do ICE. Em sua declaração, Cleland perguntou por que seu status de viajante havia sido revogado.
“Sou uma americana totalmente comum, e não posso tolerar o que está acontecendo agora”, disse.




