A ponte Golden Gate, famosa estrutura vermelha que se estende entre a baía de São Francisco e o oceano Pacífico, foi palco de mais de 2.000 suicídios confirmados desde sua conclusão, em 1937. O número real de mortes é maior —nem todos os saltos são testemunhados e nem todos os corpos são recuperados.
Em 2006, pelo menos 34 pessoas se suicidaram atravessando a grade de 1,2 metro e mergulhando mais de 60 metros no estreito. Foi também o ano em que Paul Muller e outros dois familiares de pessoas que haviam saltado da ponte decidiram fazer algo.
Esse “algo” evoluiu para a instalação de redes de aço inoxidável com quilômetros de extensão —um “sistema de dissuasão de suicídio“, como o grupo caracterizou—, hoje instaladas em ambos os lados da ponte. Elas não podem ser vistas por quem atravessa a ponte, mas são visíveis para quem está na grade, olhando para baixo.
Durante décadas, houve uma média de 30 suicídios na ponte a cada ano. Em 2024, quando as últimas peças da rede foram instaladas, foram oito. Em 2025, o primeiro ano completo com as redes instaladas, houve quatro, e nenhum de junho a dezembro.
Esse total anual é um dos menores já registrados na ponte. É provável que sete meses seja o período mais longo sem um suicídio na ponte, embora não existam muitos registros antigos. “Nos últimos sete meses não houve nenhum, então os resultados não poderiam ser melhores”, disse Muller.
Muller ficou desanimado ao saber que houve um suicídio no início de 2026. Ele complementa, no entanto, que o objetivo da reforma é salvar vidas e desfazer a fama da ponte de ser um lugar para morrer.
Denis Mulligan supervisiona as operações da ponte como gerente geral do Distrito de Transporte da Ponte Golden Gate, Rodovia e Transporte, concessionária responsável pelo local. Seu escritório na extremidade sul da ponte tem vista para o fluxo de carros, pedestres e bicicletas que cruzam entre São Francisco e o Condado de Marin.
No final de 2023, quando a instalação das redes estava perto de terminar, Mulligan disse que seriam necessários um ou dois anos de coleta de dados para avaliar o impacto das redes no número de mortes fora de sua janela.
No início de 2026, Mulligan considerou os resultados.
“A avaliação é que a rede está funcionando conforme o planejado”, disse. “Estamos tentando reduzir o número de mortes. Isso é o que o governo deve fazer, proteger o público. Fomos sinceros desde o início que nada é 100% certo, mas achamos que este é um esforço válido e bom para a comunidade. Acreditamos que muitas pessoas estão vivas hoje por causa do projeto.”
Mulligan também supervisiona um sistema de vigilância eletrônica e uma equipe de oficiais na ponte cujas responsabilidades incluem identificar e impedir aqueles que estão considerando saltar. No ano passado, houve 94 intervenções bem-sucedidas, metade da média de antes das redes.
Os cabos
“Redes” é um termo inadequado. A proteção é composta de cabos tensos de aço inoxidável, feitos para resistir ao ambiente marítimo, que ficam cerca de seis metros abaixo das passarelas públicas em ambos os lados da ponte.
Quem saltar da ponte pode se ferir ou se abalar, o que, em geral, dissuade a intenção de continuar o caminho até a água.
Mulligan afirmou que, por prudência e para evitar possíveis tentativas de imitação, não comentaria como os casos de suicídio ocorridos nos últimos dois anos superaram as redes, nem quantas pessoas foram resgatadas após saltarem nelas.
Não é possível medir o número de pessoas que vieram à ponte com a intenção de suicídio, mas desistiram depois de ver a rede de proteção.
A história
Em 1937, dez semanas após a abertura da ponte, um veterano da Primeira Guerra Mundial de 47 anos supostamente disse: “Este é o meu limite”, e saltou.
Foi o primeiro suicídio conhecido. Outros seguiram. Em 1939, a Patrulha Rodoviária da Califórnia recomendou que as grades de 1,2 metro fossem elevadas —o que nunca aconteceu. Estética e custos foram algumas das justificativas dadas pelo poder público para atrasar a obra.
O número de mortes, vagamente rastreado, chegou a 500, depois a 1.000, e continuou crescendo a cada semana ou duas, em média.
Frustrado com a inércia, Muller, Dave Hull e Patrick Hines fundaram a organização sem fins lucrativos Bridge Rail Foundation em 2006, com a esperança de aumentar a altura das grades.
“Uma questão predominante na história da Golden Gate é como restringir o acesso fácil a meios letais”, disse Muller. “É uma maneira de reduzir suicídios que não é difícil de colocar em prática. Você não precisa de muito treinamento psiquiátrico complexo para, simplesmente, esconder as armas.”
O apoio à causa cresceu. Famílias enlutadas, profissionais de saúde mental e até legistas pediram para que algo fosse feito. A ideia que ganhou força foi emprestada de uma solução usada em Berna, na Suíça: redes.
Debates se intensificaram, aprovações vieram, licitações de construção foram abertas e os custos aumentaram. Houve disputas legais com empreiteiros. A construção começou em 2018 —isto é, levou mais tempo para instalar as redes do que para construir a própria ponte. O custo da obra foi estimado em 76 milhões de dólares, mas acabou em 224 milhões de dólares.
Os críticos da empreitada se perguntam se impedir que as pessoas se suicidem na Golden Gate faz com que elas desistam da ideia ou apenas executem-a em outro lugar. Os defensores das redes discordam.
Um estudo de 1978 de Richard Seiden, da Universidade da Califórnia, Berkeley, acompanhou 515 pessoas que, de 1937 a 1971, foram à Golden Gate com a intenção de pular, mas foram persuadidas a não fazê-lo. A pesquisa apontou que 94% dos participantes ainda estavam vivos ou haviam morrido de causas naturais. “O comportamento suicida é orientado para a crise e de natureza aguda”, concluiu Seiden.
ONDE BUSCAR AJUDA
CVV (Centro de Valorização da Vida)
Voluntários atendem ligações gratuitas 24 horas por dia no número 188 ou pelo site www.cvv.org.br
Mapa Saúde Mental
Site mapeia diversos tipos de atendimento: www.mapasaudemental.com.br




