Que diferença faria se a Europa fosse uma federação? – 03/02/2026 – Rui Tavares

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Pouca gente sabe, mas o primeiro autor a propor uma União Europeia foi alguém que acabara de chegar das Américas. Chamava-se William Penn, inglês e fundador da Pensilvânia. Em 1693, ele imaginou um Parlamento europeu para garantir a paz entre as nações do continente que deixara para trás.

Do outro lado do Atlântico, observando o estado de guerra permanente na Europa, Penn concebeu a ideia de uma federação. Ironicamente, seriam as Américas a adotar primeiro essa forma política, enquanto a Europa esperaria séculos para a redescobrir.

Mas hoje, na própria Europa, o federalismo tornou-se quase uma palavra proibida —a famigerada “palavra começada por F”. Muitos nacionalistas europeus acreditam que fazer uma federação significaria enterrar o Estado-nação. No entanto, os países europeus dividem-se, no fundo, em dois tipos: os pequenos e os que ainda não perceberam que são pequenos. Num mundo dominado por potências continentais como a China, a Índia ou os Estados Unidos, o mito da autossuficiência nacional tornou-se insustentável.

Foi essa constatação que inspirou Mário Draghi, ex-primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, a defender que a Europa só é respeitada onde aplica políticas federais —como na zona do euro ou no espaço Schengen— e que nunca o será se continuar a limitar-se ao método confederal.

Essas áreas, afinal, já ultrapassam as fronteiras da própria União: há países de dentro que não participam delas, e países de fora que nelas estão. Onde a União é forte —no mercado interno, por exemplo— age como federação; onde é fraca —na política externa, na defesa, na indústria— age como uma confederação e, portanto, hesita.

A diferença entre os dois métodos não é teórica, é prática. O método confederal exige sempre unanimidade e bloqueia o avanço comum; o federal estabelece decisão partilhada e responsabilidade conjunta.

Mas nada na história europeia é puro. Como sempre, o caminho será experimental, feito de transações e improvisos —como, aliás, sempre na Europa. A questão não está em abolir os Estados, mas em partilhar de modo inteligente aquilo que só juntos podem decidir.

A Europa não é um espaço de Estados-nação absolutos: as velhas potências foram cabeças de impérios, as do Leste recém-independentes foram partes deles. Nenhuma viveu isolada.

O seu funcionamento dependia sempre das relações que se estendiam para lá das fronteiras —muitas vezes ainda não desenhadas— das suas comunidades.

Por isso, a União Europeia é, de certo modo, a consequência natural do fim dos impérios e da descolonização. E é também um retorno às ideias americanas: foram as antigas colônias, do outro lado do Atlântico, quem primeiro escolheu a forma federativa.

Assim, não é a federação que ameaça as nações; é a sua ausência. A federação pode ser a jangada de pedra que as protege em tempos revoltos, garantindo-lhes escala, coesão e soberania compartilhada. A Europa chega tarde à sua própria ideia, mas talvez ainda a tempo de aprender, com a herança americana, que o federalismo não é o fim das nações —é a sua continuação possível.


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