Cultura é trincheira contra o ICE desde antes de Trump – 04/02/2026 – Ilustrada

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Enquanto o gelo cobre as ruas de Washington, cartazes espalhados pela cidade pedem “ICE out” —fora ICE. Aqui, claro, não é o frio que os manifestantes querem que vá embora, mas a agência de imigração dos Estados Unidos, fortalecida sob o novo mandato de Donald Trump.

Os protestos contra a atuação do serviço não ficam restritos às ruas e têm ecoado fortemente no campo cultural. Artistas do mainstream respondem com músicas, discursos, stand-ups e até a reformulação de formatos de shows, em meio a denúncias de truculência da agência e ao medo crescente entre comunidades imigrantes.

Isso ficou mais evidente nos protestos durante o Grammy, no domingo (1º), com discursos contrários à política anti-imigração, vindos de nomes como o porto-riquenho Bad Bunny, o grande vencedor da noite, Olivia Dean —neta de imigrantes, premiada como artista revelação— e Billie Eilish, que afirmou que “ninguém é ilegal em uma terra roubada”. No tapete vermelho do evento, artistas como Joni Mitchell, Kehlani, Justin Bieber e Hailey Bieber também vestiram bottoms com “ICE Out”

E Lady Gaga, mesmo que não tenha tocado no assunto durante o evento, já havia feito um discurso recente num show no Japão. “Meu coração dói ao pensar nas pessoas, nas crianças, nas famílias, em toda a América, que estão sendo implacavelmente alvo do ICE“, disse.

Mas mesmo antes de Trump, ainda que de forma mais tímida, artistas já eram uma frente de protesto contra a agência, criada em 2003, como uma resposta do governo George W. Bush aos ataques de 11 de setembro.

Na época, a missão era proteger os Estados Unidos do crime e da imigração ilegal que, segundo a gestão da época, ameaçavam a segurança nacional e segurança pública.

Em meio ao caos atual, cartazes de organizações que lutam contra a truculência da agência mostram os rostos de vítimas, como Alex e Renée, pelas ruas de diferentes cidades dos Estados Unidos.

Mas, há quase 20 anos, a californiana Ester Hernandez atualizou o seu quadro “Sun Mad” —ou louco pelo Sol, uma releitura satírica da marca de uvas-passas Sun Maid, feita em 1982—, transformado em “Sun Raid” —algo como ataque solar.

Nele, um esqueleto veste um bracelete do ICE e um huipil, vestimenta tradicional indígena, enquanto segura uma cesta com uvas. Sob e ao redor do desenho, está escrito “deportação garantida”, “feito no México” e “louco nos Estados Unidos”.

Na descrição da obra, que integra o museu Smithsonian, em Washington, há uma referência sobre como povos indígenas do México e da América Central compõem uma parcela dos imigrantes sem documento nos Estados Unidos.

Também em 2008, o Museu Nacional de Arte Mexicana, em Chicago, também desafiou as legislações anti-imigração com a exposição “A Declaration of Immigration”, com mais de 70 trabalhos, alguns deles abordando as ações do ICE.

Na esteira das mortes, o cantor Bruce Springsteen, na semana passada, lançou “Streets of Minneapolis”, uma música produzida em poucos dias, em homenagem às vítimas. Outro exemplo recente foi a música “Join ICE”, do artista folk Jesse Welles. Lançada em outubro do ano passado no álbum “No Kings”, a canção faz uma crítica satírica às práticas e à lógica de recrutamento da agência.

Artistas como Sabrina Carpenter e Olivia Rodrigo também se posicionaram contra o uso indevido de suas obras pelo governo —músicas como “Juno” e “All-American Bitch” foram usadas, por exemplo, em propagandas anti-imigração.

Em paralelo, ainda em 2013, a banda La Santa Cecilia, conectada às influências latino-americanas e à herança mexicana, já entoava músicas para os imigrantes sobre o temor em relação ao ICE.

Na letra de “Ice El Hielo”, o temor entre a comunidade latina é o cerne da letra. “O ICE está solto nessas ruas. Você nunca sabe quando isso vai nos atingir agora. As crianças choram na saída. Eles choram quando veem que a mamãe não vai chegar”, diz um dos trechos da canção.

Em entrevista na época à ABC News, em meio ao segundo mandato de Barack Obama, a vocalista da banda La Marisoul disse que a música tratava sobre a separação de famílias. “É a descrição do que acontece com muitas pessoas neste país”, refletiu ela na época.

Uma obra de Favianna Rodriguez, realizada em 2012 em colaboração com a artista de origem mexicana Melanie Cervantes, é outra denúncia direta das políticas de deportação em vigor nos Estados Unidos durante o governo Barack Obama.

Por meio de uma linguagem visual associada ao ativismo gráfico, o trabalho chama atenção para os impactos humanos dessas políticas, em um período em que o país registrava cerca de 1.100 deportações por dia — um número que evidencia a escala e a brutalidade do sistema migratório.

Nesta obra, a crítica pairava, principalmente, pelo programa Secure Communities —comunidas seguras—, que permitia o compartilhamento de dados entre o ICE e as polícias locais.

Em seu site, Rodriguez diz que esse mecanismo transformou forças de segurança municipais em extensões da polícia migratória federal, aprofundando o medo e a desconfiança entre comunidades imigrantes e o Estado. A artista diz que a política ajudou a reforçar práticas de vigilância e criminalização de populações racializadas.

O pôster exige o fim da chamada “polimigra”, termo criado pela artista a partir da fusão de “police” —polícia— e “migra”, palavra usada em espanhol para se referir ao ICE. A expressão sintetiza a crítica central da obra, a militarização do controle migratório e a normalização da deportação como ferramenta de governo.

Visualmente direta e politicamente contundente, a peça se insere numa tradição de arte latina de protesto, na qual o cartaz funciona como instrumento de mobilização social.

Ao situar sua crítica ainda no período anterior ao endurecimento das políticas migratórias sob Donald Trump, a obra da artista desmonta a ideia de que a repressão migratória é um fenômeno recente. E relembra que imigrantes, há décadas no país, são alvos de sanção e deportação há tempos.



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