América Latina: Espada roubada vira disputa política – 05/02/2026 – Mundo

América Latina: Espada roubada vira disputa política - 05/02/2026 -


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A revelação de que um ex-militante peronista participou, há mais de 60 anos, do roubo do sabre do libertador José de San Martín reacendeu um tipo muito particular de discussão política na América Latina: a persistência de objetos históricos como símbolos ativos da luta política contemporânea.

O caso argentino remete a agosto de 1963, quando integrantes da Juventud Peronista invadiram o Museu Histórico Nacional e levaram o sabre de San Martín, o herói da independência.

À época, Juan Domingo Perón estava proscrito, e a militância atravessava o que seus próprios integrantes definiam como um período de desmoralização e apatia.

Segundo Agosto, hoje com 85 anos, o objetivo da ação era “devolver mística à militância” e criar um gesto de impacto político que rompesse a rotina da repressão e da marginalidade.

O sabre, comprado em Londres em 1811 e usado por San Martín nas campanhas libertadoras, havia sido legado em testamento ao líder Juan Manuel de Rosas e depois doado por sua filha ao museu. Ao roubá-lo, os militantes deixaram no lugar um manifesto político em que denunciavam a situação do país, exigiam o fim da proscrição do peronismo, a ruptura com o FMI e a anulação de contratos petrolíferos.

A espada passava a ser tratada como relíquia política: sobre ela se faziam juramentos de lealdade à causa peronista, em cerimônias clandestinas, com jovens vendados sendo levados ao local onde o objeto estava escondido.

Trinta anos depois, em outro país e em outro contexto, um grupo guerrilheiro faria algo muito semelhante. Em 17 de janeiro de 1974, o Movimento (M-19), organização armada urbana da Colômbia, do qual fez parte o atual presidente Gustavo Petro, roubou a espada de Simón Bolívar da Quinta de Bolívar, em Bogotá. Eles deixaram uma mensagem que dizia: “Bolívar, tua espada volta à luta”.

Durante 17 anos, a espada percorreu vários países da América Latina, alimentando mitos: teria passado pelas mãos de Pablo Escobar, de Fidel Castro, escondida na casa do poeta León de Greiff. Ela se transformou em peça central da narrativa simbólica do M-19.

Só voltou oficialmente à Colômbia em 1991, no contexto da desmobilização da guerrilha e da assinatura do acordo de paz que levaria à Constituição daquele ano.

Décadas depois, a espada de Bolívar voltou ao centro da cena política por causa de Petro. Em agosto de 2022, durante a cerimônia de posse, Gustavo Petro ordenou que a espada fosse trazida à praça pública.

Nos dois casos, separados por quase 60 anos, o padrão é semelhante. Um objeto ligado à independência nacional é retirado de seu lugar institucional e recolocado no centro da política viva.

No caso argentino, o roubo do sabre de San Martín ocorreu em um contexto de proscrição política. No colombiano, o roubo da espada de Bolívar marcou a entrada em cena de uma guerrilha urbana que buscava se legitimar como herdeira simbólica das lutas de independência.

O gesto de Petro, em 2022, teve sentido inverso: não era mais o da insurgência contra o Estado, mas o da apropriação do mesmo Estado por antigos insurgentes.

Esses episódios ajudam a entender por que objetos como espadas, bandeiras e restos mortais continuam a ocupar lugar central na imaginação política da esquerda latino-americana.

Cuba tem os restos de José Martí, o México os de Zapata, a Venezuela os de Bolívar, a Argentina os de Perón e Eva Perón. São símbolos que não apenas representam a nação, mas a versão dela que cada projeto político quer contar.

Em um continente marcado por golpes, exílios, guerrilhas e transições pactuadas, os símbolos não ficam enterrados. Eles circulam, reaparecem e são reapropriados. O roubo da espada de San Martín e a exibição da espada de Bolívar na posse de Petro pertencem à mesma gramática política.


Mirada

A conta-gotas, a excarceração de presos políticos vem ocorrendo na Venezuela. É importante entender o termo que vem sendo usado. Ninguém está sendo liberado. Todos estão indo para uma espécie de prisão domiciliar —não podem usar redes sociais, não podem dar entrevistas, devem comparecer a cada 15 dias diante de tribunais e podem voltar a qualquer deslize.

Na nova onda de excarcerações ocorridas nos últimos dias, um preso estava tão machucado e abalado que não reconheceu seus familiares. Até agora, foram encarcerados 344 presos, ainda não se chegou nem na metade do número total.


Latinas

PODCAST

A colega e amiga colombiana María Jimena Duzán, colunista da revista Cambio e a apresentadora de um dos podcasts mais ouvidos no país fez um documentário em duas partes sobre a gentrificação de um bairro histórico de Cartagena, o Getsêmani. O local foi palco de uma importante batalha durante a tentativa de os espanhois recuperarem as ex-colonias.

CINEMA

Na quarta, às 19h40, a Folha realiza a pré-estreia do filme “Zafari”, distopia venezuelana com traços realistas da diretora Mariana Rondón, que retrata uma sociedade marcada por tensões. A sessão gratuita, no Espaço Petrobras de Cinema, será seguida de debate com a meu com a escritora e roteirista venezuelana María Elena Morán. A mediação será da repórter Daniela Arcanjo.

LITERATURA

Começa a temporada dos Hay Festival nas cidades colombianas. Já foi o de Cartagena, mas ainda vem aí uma intensa programação em Medellin e outras cidades. Trata-se do mais importante encontro dos autores do mundo latino-americano. Veja aqui a programação.



Fonte CNN BRASIL

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