Um dia após a expiração do último tratado de controle de armas nucleares vigente entre Estados Unidos e Rússia, as duas maiores potências atômicas do planeta indicaram o caminho para uma nova negociação envolvendo outros países com a bomba.
O Novo Start, acordo de 2011 que limitava o número de ogivas nucleares e meios para lançá-las, além de mecanismos de fiscalização mútua de arsenais, caducou na quinta-feira (5) porque o presidente Donald Trump não aceitou proposta de Vladimir Putin para estender o arranjo por um ano.
Uma das queixas centrais de Trump é que a China expande seu arsenal sem fazer parte de nenhum acordo. Segundo a Federação dos Cientistas Americanos (FAS, na sigla inglesa), referência no tema atômico, Pequim dobrou seu estoque de ogivas para 600 de 2019 para cá.
Já os russos, que com os americanos concentram 86% das bombas nucleares do mundo, preferem conversar a sós com os EUA, até por uma questão de status. “Mas estamos prontos para qualquer cenário”, disse nesta sexta (6) o chanceler Serguei Lavrov em Moscou.
Seu embaixador para assuntos de desarmamento em Genebra, Guennadi Gatilov, desenhou o cenário em uma conferência na cidade suíça. “Se houver qualquer conversa séria sobre negociações multilaterais, então em princípio a Rússia estaria envolvida em tal processo se o Reino Unido e a França também estiverem”, disse.
Juntos, os dois aliados americanos no clube militar Otan têm 515 ogivas, um arsenal comparável ao da China, mas estável ao longo dos anos.
Na quinta, Trump havia se manifestado em rede social sobre o assunto, dizendo que o Novo Start não deveria ser estendido e defendendo um novo tratado. Ele não especificou os termos, apresentados no evento em Genebra pelo subsecretário de Estado para desarmamento dos EUA, Thomas DiNanno.
“Hoje, os EUA enfrentam ameaças de múltiplas potências nucleares. Em resumo, um acordo bilateral com apenas uma potência é inapropriado”, disse. “A China está a caminho para ter mais de mil ogivas em 2030 com apoio da Rússia”, completou, dando nome aos bois.
Ele disse que os chineses inclusive esconderam, ao longo dos anos, testes nucleares explosivos, algo que Pequim nega. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que não irá participar de negociações pois seu arsenal é incomparável ao russo e ao americano.
Segundo as contas da FAS, a Rússia tem um arsenal total de 5.459 ogivas, contando aí 1.150 que foram aposentadas e esperam desmantelamento. Já os EUA operam 5.177 bombas, 1.477 delas tiradas de circulação.
Pelos termos do Novo Start, ambos os países deveriam ter até 1.550 armas nucleares operacionais, ou seja, prontas para uso. Hoje, tanto russos quanto americanos manejam um pouco mais do que isso em seus silos, lançadores terrestres, submarinos e bombardeiros.
Enquanto se discute o formato de um novo tratado, os dois lados debatem a extensão informal dos termos do Novo Start, apesar do ataque de Trump ao acordo. Isso ocorreu em reuniões às margens do encontro sobre a Guerra da Ucrânia realizado na quarta (4) e na quinta em Abu Dhabi.
Ainda não há uma definição, mas segundo pessoas com conhecimento do assunto em Moscou, a tendência é de que EUA e Rússia respeitem os limites atuais até haver clareza sobre o que vai acontecer a seguir.
Já as inspeções mútuas, congeladas por Putin em 2023 como retaliação às sanções sofridas por seu país pela invasão da Ucrânia no ano anterior, não devem voltar.
Ainda assim, a chancelaria russa deixou claro que, se houver movimentação americana de expansão do arsenal, Moscou se reserva o direito de fazer o mesmo.




