Gabriel Boric chegou ao poder em dezembro de 2021 prometendo inaugurar um novo ciclo político no Chile.
Quando os resultados mostravam que ele tinha ganhado, de virada, do agora presidente eleito José Antonio Kast, que o havia derrotado no primeiro turno, as ruas de Santiago explodiram em uma festa que reuniu seus já tradicionais apoiadores da esquerda, mas também eleitores da direita democrática e republicana, que preferiram aquele jovem barbudo e idealista de 35 anos a um conservador admirador do ditador Augusto Pinochet.
Como comumente ocorre na política, o pêndulo virou novamente, e o mesmo Kast, agora numa roupagem mais moderada, tomará posse no próximo dia 11.
Mas o que dizer sobre o Chile que Boric está deixando?
Em poucas palavras, o jovem presidente sentiu de imediato o atrito entre seus sonhos e a realidade. As razões que atrapalharam seu desempenho foram várias, mas as principais foram a forte oposição da direita no Congresso, que travou reformas, a necessidade de usar a força nos conflitos no norte, com a rejeição ao fluxo de imigrantes venezuelanos, e no sul, entre mapuches radicais e fazendeiros, além do aumento da sensação de insegurança —ainda que as cifras de mortes violentas no Chile sejam pífias.
A rejeição dos chilenos à nova Constituição em 2022, que substituiria a Carta ainda vigente da época de Pinochet, foi um baque forte. Boric não estava diretamente envolvido na redação e nem poderia fazer campanha aberta, por conta do cargo que ocupa. Quando chegou a hora de votar, o “não” ganhou. A oposição teve então a chance de redigir outro texto, que também foi rejeitado, desta vez com apoio da base de esquerda de Boric.
A primeira Carta resultou, para parte dos chilenos, “identitária”, e a outra, conservadora. Tudo acabou como estava, e segue regendo o país a Constituição de Pinochet, com profundas alterações já feitas no passado pelo governo socialista de Ricardo Lagos.
Os conflitos no Norte e no Sul foram uma derrota. Boric pregava conciliação via diálogo. As tentativas fracassaram, e ele teve de adotar medidas de emergência ao estilo de Sebastián Piñera. Quando a economia se debilitou e cresceram casos de violência, sua popularidade estremeceu. Surgiu então um Boric de centro, que aumentou o envio de tropas ao sul e declarou estados de emergência, medida que repudiava como candidato.
Houve avanços. Boric acelerou julgamentos de crimes da ditadura e preparou um evento para marcar os 50 anos do golpe de 1973, como um estímulo a não desistir de revelar a verdade histórica e proteger os direitos humanos. Também avançou na inclusão social via educação e aprovou reformas trabalhistas e previdenciárias.
Nos últimos meses, sua popularidade girou em torno dos 30%. No plano econômico, a inflação fechou 2025 em 3,5%, o menor nível em cinco anos, as exportações superaram US$ 107 bilhões e a pobreza voltou a cair.
Coube ao ministro da Fazenda, Mario Marcel, conter pressões por maior gasto. Boric assumiu o custo de esfriar uma economia sobreaquecida, mas não conseguiu converter estabilidade macroeconômica em crescimento perceptível no curto prazo. As medidas sociais jogaram a seu favor. O salário mínimo foi elevado, as pensões, ampliadas, a saúde pública, expandida e a jornada de trabalho, reduzida de 45 para 40 horas.
Boric encerra o mandato de modo ambivalente. Não promoveu a ruptura estrutural prometida em 2021. Mas também não aprofundou a instabilidade, como muitos previam.




