Guadalajara, capital do estado de Jalisco e uma das maiores cidades do México, viveu nesta segunda-feira (23) um dia de ruas vazias, suspensão de serviços e saques a comércios. O estado está sob código vermelho, decretado pelo governo local após a morte de Nemesio Rubén Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG).
O megatraficante foi morto no domingo (22) durante uma operação das forças federais na cidade de Tapalpa, no sul do estado. Sua morte desencadeou uma onda de ataques atribuídos ao cartel, levando as autoridades a ativarem o protocolo de alerta máximo, que prevê restrições à circulação e reforço do policiamento diante do risco à segurança pública.
Em meio ao clima de instabilidade, foram registrados saques a lojas, agências bancárias e outros estabelecimentos comerciais. Para a polícia local, os crimes foram cometidos por pessoas que não necessariamente têm ligação direta com o cartel.
Os principais alvos foram lojas de conveniência. Apenas a rede OXXO teve 81 unidades afetadas nesta segunda-feira. A reportagem percorreu algumas lojas da companhia mexicana e encontrou todas fechadas. Moradores locais também relataram casos de saques a casas em áreas da periferia da cidade.
O governo de Jalisco afirma ter detido 20 pessoas por envolvimento em atos de violência, como incêndio de veículos e confrontos armados contra autoridades. Outras 21 foram presas sob suspeita de participação em saques. O número de mortos no estado passa de 60, incluindo 25 integrantes da Guarda Nacional, cerca de 30 suspeitos ligados a grupos criminosos e uma mulher civil.
As autoridades recomendam que a população permaneça em casa e saia apenas em caso de necessidade. Ainda no domingo, o transporte público foi totalmente suspenso em toda a região metropolitana de Guadalajara, que reúne nove municípios e mais de 4,5 milhões de habitantes. As aulas em escolas e universidades também seguem suspensas.
A engenheira química Karen Brito, moradora da Cidade do México, está em Guadalajara a passeio desde sexta-feira. O retorno à capital estava previsto para domingo, mas o voo foi reagendado para a próxima quarta-feira. O Aeroporto Internacional de Guadalajara registra 71 cancelamentos e 17 atrasos de voos. O terminal opera sob reforço de segurança da Guarda Nacional.
Brito relata que, no domingo, tomava café da manhã com amigas em uma rua da cidade quando percebeu uma movimentação repentina de pessoas fechando os comércios. A engenheira diz que teve dificuldade para encontrar um carro por aplicativo para voltar ao hotel onde está hospedada e acabou retornando a pé.
Com o cancelamento do voo, precisou estender a estadia no hotel e afirma enfrentar dificuldades para comprar alimentos, diante do fechamento de lojas e da alta procura em supermercados. No restaurante do próprio hotel, há poucas opções disponíveis, já que muitos hóspedes evitam sair do local.
Apesar do fechamento da maior parte do comércio, supermercados e farmácias registraram movimento intenso ao longo do dia, com formação de longas filas e corrida por alimentos e itens básicos, por receio de novos ataques. Em alguns estabelecimentos, o acesso passou a ser controlado, com a entrada de clientes limitada como medida preventiva.
No mercado público San Antonio, localizado na Colônia Americana, bairro residencial próximo ao centro, moradores aguardavam em uma extensa fila para comprar comida em uma Fonda, como são conhecidos os pequenos restaurantes populares. Por volta das 12h, o estabelecimento era um dos poucos que mantinha as portas abertas no mercado, conhecido por oferecer alimentos tradicionais e hortifrutis para moradores e turistas.
A avenida Niños Héroes, via comercial localizada na Colônia Moderna, ficou praticamente vazia durante todo o dia. O único ponto de maior concentração no local foi um supermercado, onde moradores enfrentavam longas filas para comprar alimentos. Outras ruas centrais, como a avenida Alemania, seguiram com bloqueios policiais até o início da tarde do horário local. A polícia segue abordando pedestres e motoristas para checagem de documentos de identificação.
Ainda ao longo da segunda-feira, visitantes que haviam sido mantidos no zoológico de Guadalajara como medida preventiva após a decretação do código vermelho começaram a deixar o local em ônibus sob escolta policial.
A onda de violência impactou também as atividades religiosas em Jalisco, justamente na primeira semana da Quaresma, em um país com 77% de católicos. No domingo, igrejas emitiram comunicados suspendendo missas e outros eventos, além de convocarem os fiéis para rezar pela paz no país. “Diante das situações de violência que geram incerteza e temor, como Igreja queremos oferecer caminhos concretos para conservar a paz do coração e manter viva a esperança”, afirmou em redes sociais o cardeal José Francisco Robles Ortega, arcebispo de Guadalajara.
A Universidade de Guadalajara, principal instituição de ensino superior da região, informou que retomará as atividades de forma gradual e segura nesta terça-feira (24), priorizando o formato virtual sempre que possível para evitar deslocamentos.
Em comunicado, o governador de Jalisco, Pablo Lemus Navarro, afirmou que cerca de 2.000 militares da Secretaria da Defesa Nacional foram enviados pelo governo federal ao estado para reforçar as ações de vigilância. “Paulatinamente, recuperaremos as atividades e os serviços, como o transporte público e o retorno às aulas”, disse o governador, que também pediu que a população atue com prudência e acompanhe apenas informações divulgadas por canais oficiais.
Circulam nas redes sociais imagens de supostos ataques atribuídos a membros do CJNG, entre elas a de um avião em chamas no aeroporto de Guadalajara. Autoridades públicas e a imprensa local afirmam que se trata de conteúdo falso, produzido por meio de inteligência artificial.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que não havia registros de bloqueios em rodovias e que a maior parte das atividades no estado começou a ser restabelecida.




