Clara Magalhães Martins está há quase 1.500 dias na Ucrânia. Deixou o conforto do apartamento onde vivia na Alemanha e abandonou o trabalho para ser voluntária e ajudar ucranianos afetados pela guerra, que completou quatro anos nesta terça-feira (24).
“Não parece que já passou todo esse tempo. Aqui você está sempre tão ocupada que realmente não vê passar. Nos últimos tempos vi que as ajudas diminuíram, mas a demanda da população nunca diminui”, diz a advogada paulista de 35 anos. Depois de morar em várias regiões do país, Clara aluga hoje um apartamento em Rivne, no noroeste da Ucrânia, perto da fronteira com a Belarus.
“Moro aqui, mas passo mais tempo na estrada do que em qualquer outro lugar. Outro dia fiz uma das viagens mais tristes desde que cheguei. Levei os pais de um amigo meu, que era intérprete, para buscar os restos mortais dele. Ele estava combatendo no front. Dirigi por dez horas durante a madrugada, e na volta trouxemos parte do corpo dele todo queimado dentro de uma caixa de munição. Eu nem sequer pude chorar naquela hora, porque estava na frente dos pais, e ele era filho único”, relembra.
Clara conhece bem as estradas ucranianas. Nos últimos meses, tem cruzado com frequência a fronteira com a Polônia para buscar doações que chegam do exterior. “Volta e meia recebemos doações de um grupo sueco que envia comida enlatada, lenços umedecidos, velas, extintor de incêndio.”
Há dois anos e meio sem ir ao Brasil, Clara divide seu tempo entre o voluntariado e um trabalho na área de segurança militar. Mesmo tendo que tirar dinheiro do bolso para continuar ajudando, diz não pensar em desistir. “Sinto que tenho uma situação muito privilegiada porque eu posso ir embora e voltar para o Brasil na hora que eu quiser. Mas quem teve a sua casa bombardeada e perdeu tudo vai para onde?”
Quem também trabalha como voluntária na Ucrânia é a missionária goiana Elizabeth de Souza, 65. Diariamente ela acorda às 7h30 para preparar e distribuir café da manhã e almoço a cerca de 200 pessoas em um refeitório improvisado em uma tenda. “Sempre trabalhei na área social, que é o que eu amo fazer. Acredito que seja uma espécie de legado que herdei dos meus pais e de alguma maneira também passei para a minha filha, que também é voluntária aqui comigo”, conta Elizabeth, há dois anos na Ucrânia.
“Ver a resiliência das pessoas que continuam lutando é incrível. Admiro a coragem e a determinação desse povo”, diz. Ela conta com o apoio de uma ONG religiosa, que se mantém com doações por meio das redes sociais. Elizabeth paga mensalmente cerca de R$ 4.000 para alugar um apartamento de três quartos que divide com a filha e o genro, também em Rivne.
“Das coisas mais difíceis para mim é ver os idosos que ficaram sozinhos porque seus filhos migraram. Vejo gente mais velha que realmente depende das nossas doações porque ganha apenas uma aposentadoria muito baixa”
Apesar do frio, da falta de conforto e de todas as dificuldades de ser voluntária em um país que está em guerra, nenhuma das brasileiras planeja abandonar a Ucrânia agora. “O que me move a continuar são as amizades que nasceram aqui. Existe uma base muito forte de lealdade neste país”, afirma Clara.




