O discurso presidencial sobre o Estado da União, proferido há 236 invernos americanos, é uma função constitucional do cargo, uma ocasião cerimonial em que o chefe de Estado relata ao Legislativo e ao povo o que fez e pretende fazer no cargo. Não deve se assemelhar a um baile funk ou a um comício em Sucupira.
O cenário na segunda-feira (23) à noite no Congresso provocaria um ataque de nervos em George Washington, o primeiro presidente a fazer o discurso, no sul de Manhattan. A última chance de Donald Trump para capturar uma audiência nacional simultânea antes da eleição de novembro foi, como se esperava, desperdiçada porque não faz parte do DNA do presidente admitir que a União anda num estado delicado.
Sim, ele fez do discurso um comício de 108 minutos —o mais longo da história— e provavelmente a audiência começou a cair depois de meia hora.
Quem sabe se os eleitores independentes, o bloco sem o qual Trump não teria conseguido se reeleger, ainda prestavam atenção ao discurso quando o presidente qualificou a principal questão para qualquer americano —o custo de vida— como “uma mentira suja e repugnante” perpetrada por democratas. O apoio dos independentes a Trump despencou para uma baixa recorde de 26%, de acordo com uma nova pesquisa da rede CNN.
Mas os democratas parecem aparvalhados. Onze anos depois de o empresário nova-iorquino ter descido a escada rolante para anunciar a primeira candidatura, a oposição ainda não conseguiu se adaptar ao mundo pós-verdade e apresentar uma frente articulada para lidar com o país aprisionado numa casa do Big Brother. Gritar da plateia no meio do discurso não é tática de oposição.
Um repórter da revista The Atlantic recentemente ligou para uma veterana consultora política que se desligou do Partido Republicano por causa do trumpismo e hoje se alinha aos democratas. Ela ainda reúne grupos focais semanalmente para tomar o pulso de diferentes segmentos de eleitores.
Ao ser indagada sobre o ânimo da oposição, começou a gritar no telefone: “Os republicanos estão em campo como mercenários, enquanto os democratas estão dando folga para todo mundo nas sextas-feiras para conversar sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal”, disse Sarah Longwell.
Além de pedir aos americanos para não acreditarem na realidade que teima em dominar seu cotidiano em custo de vida, empregos e acesso à assistência médica, o presidente não ofereceu soluções para os problemas que ele nega existir. Citou com rancor a habitual lista de culpados, distribuiu medalhas e, acima de tudo, prestou tributo a si mesmo.
Mas as consequências da noite produzida como reality show não serão imediatamente sentidas por americanos. O público mais ansioso com o discurso não vai votar em novembro e vive a oceanos de distância de Washington.
Depois de Trump encorajar os protestos que resultaram no massacre de possivelmente 30 mil pessoas, os iranianos não ouviram qualquer definição clara do socorro oferecido pelo presidente que, sabemos, está assustado com os alertas feitos pelos comandantes militares sobre o risco de um ataque.
E, no país mais existencialmente ameaçado pelas mudanças de humor de Trump, os ucranianos não ouviram uma só frase indicando que os EUA vão usar seu poder para deter Vladimir Putin.




