Trump transforma em espetáculo discurso do Congresso – 25/02/2026 – Mundo

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“Temos algumas surpresas para a noite”, disse à Folha um funcionário do Congresso dos Estados Unidos momentos antes de o discurso do Estado da União começar. A frase já antecipava o tom teatral que marcaria a cerimônia.

Transformar pronunciamentos em espetáculo não é novidade para Donald Trump. Desta vez, porém, em meio à queda de popularidade e já de olho nas eleições legislativas de meio de mandato, ele evitou apresentar um plano concreto para que o Partido Republicano mantenha a maioria no Congresso até novembro.

Em geral, tentou mostrar como os Estados Unidos estão em ótimas mãos, enquanto republicanos levantavam e aplaudiam a cada frase. Mesclou declarações que a plateia está acostumada a ouvir: criticou imigrantes, inflou números da economia, desdenhou dos democratas e voltou a falar que foi responsável pelo fim de oito guerras.

Tudo isso embalado com frases como: “Nosso país está vencendo tanto”, disse. “Na verdade, estamos vencendo tanto que nem sabemos o que fazer sobre isso.”

Para o deputado democrata Glenn Ivey, Trump “tenta dizer ao povo americano que está tudo bem com a economia, mas eles sabem que não está”. “Isso vai ter um custo.”

A estratégia pode ser considerada arriscada. Segundo o portal Axios, Trump já confidenciou a aliados que teme um processo de impeachment caso os republicanos sejam derrotados nas urnas. Ainda assim, não delineou um caminho político para os próximos meses.

Diante da plateia e dos telespectadores, ao abordar o tema eleitoral, limitou-se a pressionar o Congresso a aprovar o Save America Act — projeto que, segundo a Casa Branca, busca impedir que não cidadãos votem nos Estados Unidos. A proposta é vista com desconfiança por democratas, que avaliam que ela poderia, na prática, restringir o acesso ao voto, inclusive de mulheres.

No plenário, ele parecia mais interessado em assumir o papel de apresentador de auditório: chamava personagens da plateia como quem anuncia a próxima atração da noite. Apontava, nomeava, convocava —e recebia a reação esperada.

Assim ocorreu com a seleção masculina de hóquei dos Estados Unidos, que entrou pela galeria onde estava a imprensa e exibiu a medalha de ouro olímpica. Também foram chamados ao destaque nomes associados a histórias de dor, como Erika Kirk, viúva do influenciador trumpista Charlie Kirk, e a mãe da refugiada ucraniana Irina Zarutska, assassinada a facadas em um vagão do metrô no ano passado.

Entre os pedidos ao Congresso, Trump defendeu a proibição de carteiras de motorista para imigrantes sem documentação, acusou parlamentares de corrupção e pressionou pela aprovação de um projeto que proíbe congressistas de negociarem ações na Bolsa.

Também solicitou ao presidente da Câmara, Mike Johnson, e ao líder da maioria no Senado, John Thune, que transformassem em lei seu modelo de precificação de medicamentos. Voltou a pedir a aprovação de seu plano de saúde, parado há meses, e propôs estender aos “trabalhadores frequentemente esquecidos” o mesmo tipo de conta de aposentadoria oferecido a servidores federais.

Trump chegou ao discurso após uma semana difícil: a Suprema Corte considerou ilegais suas tarifas de importação. Ao mesmo tempo, intensificou a pressão sobre o Irã para um possível ataque —movimento que enfrenta resistência inclusive entre apoiadores que cobram coerência com a promessa de campanha “America First”.

Do lado democrata, houve tentativas de retaliação: manifestações do lado de fora, uso de roupas brancas por parlamentares em referência à luta feminina e ao direito ao voto, além da presença de convidados potencialmente constrangedores para o presidente, como vítimas de Jeffrey Epstein e pessoas afetadas por ações do ICE.

Dentro do plenário, porém, a reação democrata foi dispersa. Nem todas as mulheres vestiam branco, e poucos parlamentares reagiram de forma contundente às falas do presidente. Entre eles esteve Al Green, que já havia sido retirado da sessão no ano anterior ao protestar contra Trump e repetiu o gesto ao exibir um cartaz com a frase “pessoas negras não são macacos”. Foi removido logo no início.

As deputadas Ilhan Omar e Rashida Tlaib foram as vozes mais incisivas. Chamaram o presidente de mentiroso e o responsabilizaram por mortes ocorridas em operações migratórias neste ano. Ainda assim, deixaram o plenário antes do fim do discurso. Lauren Underwood também saiu após menos de uma hora. Ao The New York Times afirmou que não suportava permanecer ali.

Ao final, republicanos classificaram o discurso de inovador e brilhante. Mike Johnson disse ter sido um dos melhores que já ouviu e chamou o comportamento democrata de “vergonhoso”.

Entre os opositores, prevaleceram as críticas. A senadora Elizabeth Warren utilizou a mesma palavra, “vergonha”, mas para se referir ao presidente. Já o deputado Joaquin Castro afirmou nas redes sociais que, enquanto americanos lutam para pagar saúde, creche, aluguel e alimentação, Trump se vangloriava da economia.

“Ele fala em promover a paz enquanto alimenta conflitos na Venezuela, no México e no Irã. Exalta a deportação de criminosos enquanto agentes do ICE abordam cidadãos nas ruas e prendem crianças em instalações improvisadas”, escreveu.

O deputado democrata Mark Takano disse à Folha que o discurso, no fim, não trouxe surpresas. “Esperava mentiras, polarização e a vilanização de imigrantes. Foi apenas uma demonstração de liderança terrível.”



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