No final de janeiro deste ano, o reverendo Imad Haddad, bispo da Igreja Evangélica Luterana da Jordânia e da Terra Santa, emitiu uma declaração condenando o ataque perpetrado por colonos israelenses contra um vilarejo palestino perto de Ramala.
Eles invadiram e danificaram terras pertencentes a moradores da região. Segundo o bispo Haddad, os colonos —que vivem em assentamentos considerados ilegais pela ONU— também atacaram e espancaram uma senhora e sua família. Ela foi hospitalizada na UTI com grave ferimento na cabeça. As forças de segurança israelenses permitiram que os responsáveis retornassem impunemente para suas casas.
Não se trata de episódio isolado. Ataques periódicos de colonos contra palestinos, cristãos e muçulmanos, são sistematicamente documentados. Em 2024 houve 1.449 ataques. Em 2025, organizações internacionais contabilizaram mais de 1.800 ocorrências.
Uma das dificuldades é que qualquer crítica a esses atos costuma ser enquadrada como antissemitismo. O reverendo Munther Isaac, teólogo palestino e pastor da Igreja Evangélica Luterana de Belém, reconhece que o antissemitismo é um problema real. No entanto, diferencia antissemitismo de antissionismo. Confundir críticas às ações do Estado de Israel com preconceito contra judeus é, segundo ele, um erro grave.
Pouco se discute, porém, o papel do sionismo cristão. Trata-se de um movimento predominantemente evangélico, com grande peso nos Estados Unidos, que apoia incondicionalmente o Estado de Israel e defende o retorno do povo judeu à chamada Terra Prometida como cumprimento profético.
Os assentamentos —condomínios residenciais construídos com autorização e proteção do governo israelense em territórios palestinos— abrigam hoje mais de 730 mil colonos. A desigualdade resultante é visível nas comunidades de Jubbet al-Dhib e Sde Bar.
Jubbet al-Dhib, vila palestina fundada em 1929 e com cerca de 160 habitantes, permanece sem acesso à eletricidade, apesar de repetidos pedidos de conexão ao governo israelense, todos negados. Um projeto internacional de energia solar também foi indeferido. Em pleno século 21, seus moradores continuam dependendo de velas, querosene e geradores precários.
A 350 metros dali, a comunidade judaica de Sde Bar, fundada em 1997 e com cerca de 50 habitantes, dispõe de eletricidade, água, piscina e escola própria —cujo acesso é negado às crianças palestinas. Conta ainda com estrada pavimentada e ligação direta a Jerusalém por rodovia moderna, que os vizinhos palestinos não podem utilizar.
São assentamentos como Sde Bar que recebem recursos humanos e financeiros de organizações cristãs sionistas. Estima-se que, entre 2010 e 2020, organizações evangélicas norte-americanas tenham injetado cerca de US$ 65 milhões nesses territórios. E o apoio vai além da assistência humanitária tradicional.
A Christians United for Israel (Cufi), com cerca de 10 milhões de membros, já doou milhões de dólares para a defesa dos colonos. A HaYovel, hoje conhecida como The Israel Guys, recruta cristãos para trabalhar nos assentamentos e doa coletes à prova de balas, capacetes e drones às equipes de segurança. Outras entidades financiam equipamentos de visão noturna, câmeras e rádios. A justificativa apresentada é a necessidade de proteção contra “terroristas palestinos”.
Esse suporte contribui para viabilizar a contínua anexação de terras palestinas. O resultado é a fragmentação de comunidades, o deslocamento de famílias, a demolição de casas, a apropriação de áreas cultiváveis e a imposição de severas restrições de mobilidade e de acesso à justiça. Na prática, cresce a inviabilidade de um Estado palestino.
Em janeiro deste ano, patriarcas e líderes de igrejas em Jerusalém alertaram que o sionismo cristão “engana o público, semeia confusão e prejudica a unidade do rebanho”, além de colocar em risco a própria presença cristã na Terra Santa.
Cristãos que apoiam os assentamentos e os que silenciam diante de suas consequências enfrentam uma responsabilidade inescapável. É preciso perguntar se suas posições refletem o núcleo da mensagem que afirmam seguir.




