A Guerra do Vietnã era, até esta semana, o conflito mais condenado pelos americanos, de acordo com uma pesquisa de opinião realizada nos 50 anos da queda de Saigon, em abril passado. Apenas 29% dos americanos responderam, então, que a guerra foi justificada.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos, feita logo após o ataque ao Irã, revelou que só 27% dos americanos apoiam o bombardeio que decapitou a liderança iraniana. A pesquisa foi divulgada no domingo (1º), antes de o público ter conhecimento da expansão regional do conflito e da reação militar iraniana contra alvos americanos.
Vale destacar que o serviço militar era obrigatório nos EUA durante a guerra no Vietnã e foi extinto por Richard Nixon, em 1973, como resultado dos protestos e da percepção sobre o fracasso da aventura de quase 20 anos. Ao comparar os dois conflitos, outra diferença importante é que havia documentação visual mais limitada da carnificina no Sudeste Asiático, ao contrário do presente, em que os mísseis e drones são registrados por celulares e imediatamente postados na rede social.
É cedo para avaliar o impacto da decisão de Donald Trump de embarcar com Binyamin Netanyahu no ataque explicado ao público por motivos conflitantes dentro do próprio gabinete americano. Não há dúvida de que a reeleição de Trump, com adesão de novos segmentos demográficos, como jovens e latinos, foi ancorada em duas promessas –a de baixa do custo de vida e de desengajamento do resto do mundo sob o lema “América Primeiro”.
Levantamentos feitos pelo Partido Democrata, após a derrota de novembro passado, mostraram que o apoio de Joe Biden a Israel na matança de palestinos em Gaza custou caro a Kamala Harris.
O pinga-pinga de comunicados e entrevistas por telefone deixam claro que a estratégia de comunicação sobre o conflito não teve coordenação antecipada. Há sinais de que Trump está respondendo por instinto ao questionamento que assiste nos canais de cabo que o apoiam, como Fox News e Newsmax.
Os vazamentos na Casa Branca continuam, como no primeiro mandato. Assessores do presidente expressam alta ansiedade pelo impacto do conflito neste dramático ano eleitoral. O conflito, que mal começou, parece fora de controle dos que planejaram o ataque sem consulta ao Congresso, como determina a Constituição americana.
Se a debacle da abertura dos arquivos sobre o criminoso sexual Jeffrey Epstein provocou o primeiro racha no universo Maga, o novo conflito no Oriente Médio subiu bastante o volume da discórdia.
O mais onipresente aliado digital de Trump, Tucker Carlson, o ex-âncora da Fox que continua frequentando a Casa Branca, foi especialmente agressivo na condenação ao ataque e nas críticas a Israel. O influenciador antissemita Nick Fuentes, popular entre os jovens Maga, pediu voto para qualquer candidato escolhido pelo Partido Democrata, na eleição presidencial de 2028, se a chapa republicana for liderada pelo atual vice-presidente J. D. Vance.
Um traço da fidelidade política ao presidente, na última década, tem sido a alta tolerância dos seguidores à realidade paralela dos seus discursos. Na tarde desta quarta (4), um visivelmente defensivo Trump declarou que o Irã estava a duas semanas de produzir uma bomba atômica. É improvável que sua base, hoje reduzida, compre a justificativa para a guerra contra o Irã.




