Ataque ao Irã reforça visão da China sobre poder militar – 07/03/2026 – Mundo

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Os ataques repentinos e furiosos das forças dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã na semana passada, incluindo a morte do líder supremo do país, Ali Khamenei, estão confirmando a visão de mundo de Xi Jinping de que o poder militar é soberano.

Durante anos, Xi alertou a China sobre a hostilidade militar americana e orientou seus generais a construir um Exército de classe mundial, ou o que ele chamou de “grande muralha de aço”, forte o suficiente para dissuadir os EUA e garantir a paz nos termos de Pequim.

“É preciso falar com os invasores na linguagem que eles conhecem“, disse certa vez. “Ou seja, uma guerra deve ser travada para dissuadir a invasão, e uma vitória é necessária para conquistar paz e respeito.”

A busca de Xi, que já dura mais de uma década, pelo poder de combater fogo com fogo ganha agora urgência adicional devido ao uso explícito da força militar pelo presidente Donald Trump, que está ameaçando governos e perturbando uma ordem global em que a China cada vez mais se vê liderando.

Enquanto Xi e Trump devem se reunir em algumas semanas em Pequim para prolongar uma frágil trégua após uma guerra comercial punitiva no ano passado, o espectro da força bruta americana derrubando líderes soberanos como o aiatolá Ali Khamenei, do Irã, e capturando outros como o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, permanece perturbador para a China. Khamenei e Maduro eram parceiros estratégicos de Pequim.

Analistas e autoridades chinesas dizem não acreditar que os EUA teriam Xi como alvo da mesma forma, dado o status da China como potência nuclear. Mas o apoio de Trump à guerra como ferramenta para afirmar a dominância americana reafirmou, ainda assim, a visão de Pequim de que Washington continua sendo a ameaça mais duradoura à China.

Um influente cientista político chinês, Zheng Yongnian, destacou as percepções na China de que os EUA estavam usando Israel como trampolim para entrar em guerra com o Irã. Dessa forma, disse ele, a China deve impedir que rivais geopolíticos como Japão e Filipinas —ambos aliados dos EUA por tratado— se tornem o “Israel do Leste Asiático” e o “Israel do Sudeste Asiático”.

“Devemos evitar que essas nações sejam conduzidas pelos Estados Unidos para alcançar seus próprios objetivos”, disse Zheng ao The Beijing News.

Outros analistas, como Shen Dingli, especialista em relações internacionais baseado em Xangai, disseram que a demonstração do poderio militar americano estava forçando a China a fazer uma “análise sóbria do equilíbrio de poder”. “Pequim agora vê com mais clareza a extensão das capacidades americanas”, disse.

Uma das conclusões mais amplas sendo discutidas na China é não se deixar levar por uma falsa sensação de segurança ao entrar em negociações com Washington. O fato de as primeiras bombas americanas e israelenses terem caído sobre o Irã quando as partes ainda deveriam estar em negociações é considerado por Pequim algo dúbio e um abuso do poder americano.

“A decisão de atacar enquanto as negociações estavam em andamento transmite um precedente perturbador: a diplomacia não é um fórum para iguais soberanos, mas um instrumento sujeito aos caprichos da potência dominante”, dizia um editorial na mídia estatal chinesa.

Sob o governo Trump, dizem analistas chineses, os EUA se tornaram mais imprevisíveis e mais perigosos, forçando a China a ser cada vez mais vigilante. “A conclusão estratégica para a China é bem simples”, disse Song Zhongping, ex-oficial militar chinês que agora é comentarista independente. “Não presuma que seus adversários jogarão segundo as regras. Eles podem atacar sem aviso e podem fazer o que for preciso, ignorando tanto as regras do jogo quanto as regras da guerra.”

Isso tem implicações para a avaliação de Pequim sobre a sinceridade de Washington em um momento em que Trump sinalizou que quer ser menos confrontador com a China. Seu governo recentemente adiou o anúncio de um pacote de vendas de armas para Taiwan, a ilha autogovernada reivindicada por Pequim. Embora isso possa parecer um gesto de reconciliação, analistas disseram que Xi provavelmente permaneceria cético e não seria dissuadido de seu fortalecimento militar.

“Da perspectiva de Pequim, os EUA podem enquadrar suas ações como uma busca pela paz, mas o que realmente oferecem é paz por meio da dominação ou da contenção”, disse Kirsten Asdal, que lidera uma consultoria focada na China. “Xi não quer isso para a China. Ele quer paz por meio da vitória chinesa.”

Pequim tem usado as ações militares dos EUA como forma de se apresentar, em contraste, como uma nação pacífica que defende a estabilidade global —apesar de amplas evidências do contrário, como o comportamento militar agressivo da China no estreito de Taiwan e no mar do Sul da China.

Para a China, “a força é para autodefesa e estabilidade, não para expansão”, disse Wang Dong, diretor executivo do Instituto de Cooperação e Entendimento Global da Universidade de Pequim.

Quando os EUA buscam força, continuou ele, o fazem com “poder bruto desproporcional” que, em última análise, não pode garantir nenhum de seus objetivos, como o surgimento de um governo amigável e pacífico no Irã.

“O que estamos testemunhando”, disse Wang, “são os últimos esforços desesperados de uma ordem liderada pelos EUA em declínio.”

Analistas ocidentais são mais céticos sobre a modéstia professada pela China, dizendo que Pequim também provavelmente decidirá que precisa de uma presença militar maior no exterior e correrá o risco de se envolver em complicações estrangeiras.

“A China”, disse Jude Blanchette, diretora do Centro de Pesquisa sobre a China da Rand, “sentirá o mesmo campo gravitacional que puxa todas as grandes potências em direção à construção de capacidades que podem alcançar mais longe de casa.”

Colaborou Ruoxin Zhang, de Pequim



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