Com a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã em sua segunda semana, o conflito deixa de se assemelhar, como desejavam alguns membros do governo Donald Trump, a uma operação limitada e ganha contornos de guerra prolongada.
O presidente americano exigiu a rendição incondicional do Irã na sexta-feira (6). Israel, por sua vez, reiterou as ameaças contra qualquer sucessor de Ali Khamenei, líder supremo assassinado em bombardeio do último dia 28. Seu filho, Mojtaba, foi escolhido para liderar o regime —o que, na prática, torna quase nula a possibilidade de virada democrática em Teerã.
Apesar da coordenação profunda entre o Pentágono e as Forças Armadas de Israel para conduzir a guerra contra Teerã, os objetivos dos dois países e o cenário preferido de cada um para o fim do conflito não estão claros —e começam, inclusive, a divergir, segundo especialistas ouvidos pela Folha.
Nas primeiras horas da guerra, tanto Trump quanto Binyamin Netanyahu falaram em derrubar a teocracia iraniana, exortando manifestantes a saírem às ruas e tomarem as instituições do país. Os alvos iniciais reforçaram esse objetivo, com o republicano se gabando de ter matado 49 figuras da alta liderança do Irã, incluindo Khamenei.
“Quando você mata o homem que era o líder supremo do Irã há 36 anos, é difícil não enxergar uma motivação de mudança de regime”, diz Yossi Mekelberg, analista sênior para Oriente Médio da Chatham House, conhecido think tank do Reino Unido.
“É possível que esse objetivo se transforme em ‘gerenciamento de regime’, como o que os EUA fizeram na Venezuela [onde a sucessora de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez, vem cedendo a exigências de Washington]. Mas eu não acho que isso é uma expectativa realista para o Irã”, onde o regime está consolidado há décadas e é bem menos personalista, diz Mekelberg.
Nos últimos dias, a motivação de efetuar uma mudança de regime no país desapareceu da comunicação oficial americana e israelense. Os aliados se voltaram a objetivos mais restritos, como destruir o programa de mísseis balísticos do Irã —que é capaz de ameaçar Israel, mas não os EUA— e atingir novamente instalações nucleares meses depois do ataque, em junho de 2025, que teria “obliterado completamente” a capacidade iraniana de desenvolver uma bomba, segundo o próprio Trump.
“Não acho que ninguém em Israel ou nos EUA acredite mesmo que seja possível derrubar o regime iraniano apenas por meio de bombardeios aéreos”, afirma Raz Zimmt, ex-militar israelense e diretor do programa de estudos iranianos do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Tel Aviv. “Está bastante claro que um dos objetivos da guerra é, se não derrubar o regime, miná-lo a ponto de que a população iraniana possa se revoltar. Mas não há como garantir que isso ocorra.”
As motivações contraditórias de Washington e Tel Aviv devem levar ainda a um cenário no qual os aliados passam a perseguir objetivos diferentes, avalia Ali Alfoneh, cientista político especializado em Irã do Instituto dos Estados Árabes do Golfo.
“Netanyahu parece perseguir uma política de mudança de regime, guerra civil e, em última análise, desmantelamento do Irã. Trump, por sua vez, parece estar menos interessado nisso e já expressou preferência por um ‘modelo Venezuela’, isto é, uma mudança de líderes sem o colapso do regime em si”, diz Alfoneh.
“Esse modelo pode ser interessante para a República Islâmica, especialmente após o assassinato de [Khamenei], que era contra negociações diretas com os EUA”, prossegue. “Israel, entretanto, provavelmente vai tentar sabotar qualquer acordo entre EUA e Irã”, diz.
Tel Aviv sempre foi contra as negociações que levaram ao acordo nuclear com o Irã durante o governo Barack Obama, bem como as tratativas dos últimos meses, ignoradas por Trump ao lançar a guerra atual.
O momento em que o conflito deveria terminar também é um ponto de atrito entre os países aliados. “Sabemos que Trump cria sua própria realidade”, diz Mekelberg. “Ele disse em junho que os EUA conquistaram vitória contra o Irã, e agora, oito meses depois, há uma guerra ainda pior. Ele pode declarar vitória agora e dizer que é melhor gerenciar o regime.”
“Israel não vai gostar, mas Netanyahu não tem como continuar a guerra sem apoio dos EUA. Ele precisa da logística americana, dos reabastecimentos no ar”, afirma.
Isso porque um conflito prolongado, no qual Israel tem mais tempo para destruir a base industrial e de produção de mísseis do Irã, é de interesse do governo israelense, avalia Zimmt. “Pode haver um problema se Trump decidir forçar um cessar-fogo em questões de dias, isto é, antes que o objetivo militar israelense esteja concluído”, diz.
Mesmo no cenário considerado ideal por muitos membros do governo americano —a queda da teocracia e sua substituição por um governo menos hostil aos EUA—, não há garantia de que um novo regime, mesmo se democrático, automaticamente teria boas relações com Israel ou encerraria sua campanha de financiamento de grupos que atuam contra Tel Aviv.
“Estados não tem amigos ou inimigos permanentes: eles têm interesses permanentes, definidos pelo governo no poder”, diz Alfoneh. “O regime [do xá Reza] Pahlavi era aliado de Israel porque viam países árabes da região apoiados pela União Soviética como inimigos em comum. É importante notar que isso não mudou mesmo depois da Revolução Iraniana de 1979, uma vez que os dois tinham Saddam Hussein no Iraque como adversário”, o que só mudou nos anos 1990, afirma o analista.
“Foi só depois do enfraquecimento do Iraque que estrategistas israelenses começaram a enxergar o Irã como a potência dominante da região que precisava ser contida ou enfraquecida. A mesma lógica pode se aplicar a qualquer regime que substitua a República Islâmica.”




