Enquanto ataques israelenses e americanos castigavam o Irã, seus poderosos aliados ao redor do mundo não conseguiam chegar a um consenso sobre como reagir.
Brasil, China e Rússia condenaram rapidamente o ataque militar ao Irã, que se juntou a eles há dois anos no Brics, grupo de economias emergentes.
A Índia, que preside o bloco neste ano, pareceu tomar o lado oposto, favorecendo Estados Unidos e Israel ao permanecer em silêncio sobre o bombardeio, enquanto criticava os ataques retaliatórios do Irã na região.
A África do Sul, outro membro, foi mais cautelosa, expressando preocupações vagas sobre o conflito sem nomear nenhum país específico, aparentemente interessada em evitar um tipo de reação negativa dos EUA semelhante à que enfrentou recentemente após realizar exercícios navais com o Irã e outras nações do Brics.
Notavelmente ausente estava qualquer declaração conjunta ou demonstração de solidariedade. Foi um sinal claro de que o conflito pode estar testando a unidade do Brics e forçando-o a lidar com uma questão desconfortável: o bloco realmente consegue construir uma nova ordem mundial, como aspira fazer, sem alinhamento ideológico entre seus membros?
Desde sua criação em 2009, o Brics tem buscado aumentar a influência das maiores economias emergentes do mundo no cenário global. Diferentemente da Otan, onde a cooperação militar é central, os membros do grupo não fizeram nenhum compromisso explícito de defender uns aos outros.
Em vez disso, o bloco tem se concentrado em uma agenda predominantemente econômica, trabalhando para criar um banco de desenvolvimento conjunto, impulsionar o comércio entre seus membros e reduzir sua dependência do dólar americano.
Nos últimos anos, porém, o grupo começou a se posicionar de forma mais contundente como um contrapeso à hegemonia americana, pedindo uma reorganização das dinâmicas de poder global que considera ultrapassadas e favoráveis ao Ocidente. Em um esforço para avançar nesse objetivo, expandiu-se para incluir Irã, Egito, Etiópia, Indonésia e Emirados Árabes Unidos.
Ainda assim, à medida que o grupo se expandiu rapidamente para incluir membros com pontos de vista e objetivos geopolíticos marcadamente diferentes, analistas dizem que se tornou mais desafiador encontrar um caminho comum.
Em uma reviravolta constrangedora que mina ainda mais a organização, mísseis e drones iranianos atingiram os Emirados, outro membro do bloco. E à medida que o conflito se espalhou pela região, paralisou um dos corredores comerciais mais importantes do mundo, ameaçando os interesses econômicos e a segurança energética de alguns de seus membros.
“O grupo não está unido de forma alguma”, disse Paulo Nogueira Batista Jr., economista e ex-vice-presidente do banco de desenvolvimento do Brics. “E isso mina a ideia de ação conjunta.”
Quando se juntou ao grupo, o Irã encontrou algum alívio do isolamento global e das sanções econômicas, ao mesmo tempo em que ganhou novos aliados poderosos. Mas mesmo quando Teerã pressionou por mais cooperação militar, o bloco resistiu. Para o Irã, o grupo permaneceu principalmente como uma forma de acessar compradores de petróleo, segundo Renad Mansour, pesquisador sênior do programa de Oriente Médio e Norte da África do Chatham House.
“Nenhum desses países vai realmente se juntar ao Irã em qualquer guerra”, disse Mansour. Em vez disso, afirmou, Teerã provavelmente está esperando que “os países do Brics sintam o impacto econômico e então tomem algum tipo de ação”.
Esta não é a primeira vez que o grupo tem dificuldade em decidir qual é sua posição sobre um conflito envolvendo um de seus membros.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, o bloco não conseguiu concordar se isso violava o direito internacional, acabando por emitir uma declaração conjunta morna pedindo diálogo e condenando as sanções ocidentais.
Na primavera passada, depois que Israel e os Estados Unidos lançaram ataques militares ao Irã, o Brics emitiu outra declaração modesta expressando “grave preocupação”, sem criticar abertamente Israel ou os Estados Unidos.
Mas agora, enquanto o Irã enfrenta uma crise que provavelmente moldará seu futuro, o bloco optou por permanecer em silêncio.
“Há uma sensação de que o Brics ainda está tentando descobrir qual é sua própria posição”, disse Luiz Augusto de Castro Neves, ex-embaixador brasileiro na China que agora é presidente do Conselho Empresarial Brasil-China. “Mesmo enquanto busca um papel mais claramente definido no cenário internacional.”
As tensões em torno do Irã também lançaram dúvidas sobre se o bloco consegue forjar alianças econômicas sem que a política interfira, especialmente em um momento em que o presidente Donald Trump deixou claro que está disposto a usar medidas comerciais como tarifas e sanções para alcançar objetivos tanto econômicos quanto políticos.
A Índia, por exemplo, obedeceu discretamente às exigências americanas de parar de comprar petróleo iraniano e também agiu para reduzir suas importações de petróleo russo. Recentemente, Nova Déli também pareceu abandonar planos para um projeto portuário no Irã, aparentemente assustada pela ameaça de sanções americanas.
“É a geopolítica invadindo as relações comerciais”, disse Batista. “Então não é mais apenas uma questão de cooperação econômica.”
Se o grupo espera emergir como uma força desafiando a influência ocidental, precisará ir além de uma aliança econômica, disse Mansour.
“Se estamos falando de como será a próxima ordem mundial”, disse ele, “a política e as questões militares vão importar em algum momento. E podem se tornar pontos de estrangulamento.”




