Mahmoud Khalil memorizou as placas dos veículos que estacionam em sua rua. Ele observa superfícies reflexivas —vitrines de lojas, espelhos de carros— que o ajudam a monitorar seus arredores. Quando desconhecidos caminham atrás dele, ele os deixa passar.
Há um ano, Khalil, formado pela Universidade Columbia e residente permanente legal nos Estados Unidos, foi detido e se tornou o rosto da repressão da Casa Branca contra manifestantes pró-Palestina. Mais de 250 dias depois de ter sido libertado por um juiz, ele ainda vive a vida que o governo Trump lhe impôs.
O governo acusou Khalil, 31, de disseminar antissemitismo nas manifestações que agitaram o campus de Columbia e, depois que ele já estava detido, de não ter revelado informações relevantes em seu pedido de residência permanente. Khalil afirmou que críticas a Israel não são inerentemente antissemitas e que não houve omissão de informações.
Mas o governo Trump continuou seus esforços para deportá-lo, deixando Khalil em um limbo tenso, preocupado com a possibilidade de os tribunais de novo se voltarem contra ele e de, mesmo antes disso, o governo prendê-lo novamente.
“A incerteza realmente é como tortura”, disse ele em uma entrevista recente. E acrescentou: “Eu literalmente não consigo planejar nada. Absolutamente nada. Um móvel que queremos comprar agora não podemos, porque não sabemos o que vai acontecer.”
O Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) não respondeu aos pedidos de comentário a esta reportagem. O Departamento de Justiça se limitou a apontar aos seus documentos apresentados no processo.
Khalil não pode ter um emprego regular. Poucos empregadores estão dispostos a correr o risco de atrair a atenção do governo Trump. E ele não sai sozinho com seu filho de 11 meses, Deen, por medo de ser detido e de que o bebê, um cidadão americano, seja levado.
Em vez disso, Khalil preenche seus dias escrevendo. Ele está trabalhando em um livro de memórias usando sua prisão no ano passado como ponto de partida para a história de sua vida: um refugiado palestino nascido na Síria e herdeiro de uma tradição familiar de gerações em busca de um lar permanente.
O caso de Khalil está tramitando em duas frentes separadas —no tribunal federal e no tribunal de imigração—, e em ambos os locais, ele sofreu derrotas recentemente. Embora Michael Farbiarz, o juiz federal que ordenou sua libertação, tenha uma ordem vigente proibindo o governo Trump de deportar Khalil, essa decisão pode se tornar nula nos próximos meses.
Khalil foi preso no ano passado em seu prédio de apartamentos de propriedade de Columbia enquanto sua esposa grávida, Noor Abdalla, uma cidadã americana, assistia à cena horrorizada. Ele ficou detido por meses em um centro de detenção na Louisiana, mesmo enquanto outros manifestantes eram libertados. Em junho, Farbiarz ordenou sua libertação.
Por um tempo, Khalil estava vencendo.
Além de libertá-lo, Farbiarz disse que a base legal para sua prisão original —a determinação do secretário de Estado, Marco Rubio, de que ele deveria ser removido por disseminar antissemitismo— era inconstitucional.
Mas em janeiro, um tribunal de apelações dos EUA disse que Farbiarz não tinha autoridade para libertar Khalil ou opinar sobre as questões constitucionais em seu caso. O foro adequado, disseram, era o tribunal de imigração, que está sob o controle do Departamento de Justiça.
Após a decisão de janeiro, Khalil não saiu de seu apartamento por vários dias, até que seus advogados receberam confirmação do Departamento de Justiça de que o governo entendia que seria ilegal tentar detê-lo novamente. (Khalil pediu que a localização de seu apartamento não fosse divulgada, por preocupação com sua segurança.)
A equipe jurídica de Khalil pode pedir que um painel completo de juízes do tribunal federal de apelações revise a decisão. O prazo para fazer esse pedido é o final deste mês. Se os juízes decidirem não revisar o caso, o próximo passo de Khalil provavelmente seria um recurso à Suprema Corte.
Enquanto isso, seu caso de imigração está tramitando perante o Conselho de Apelações de Imigração, um órgão que faz parte do governo Trump. Embora por enquanto a determinação de Rubio em relação ao antissemitismo não faça parte do caso, um juiz de imigração ainda recomendou que Khalil seja deportado, determinando que ele deixou de incluir informações pertinentes em sua solicitação de residência de 2024.
Seus advogados apresentaram uma petição argumentando que o juiz de imigração ignorou “o peso esmagador das evidências mostrando que Khalil não cometeu fraude ou falsidade ideológica” em sua solicitação e negligenciou considerar o argumento de que sua prisão foi um claro exemplo de retaliação por seu discurso protegido pela Primeira Emenda.
O conselho de imigração também pode decidir ainda neste mês. Se mantiver a conclusão do juiz de imigração de que Khalil pode ser deportado, a equipe jurídica de Khalil então pedirá a um tribunal federal de apelações diferente que revise essa decisão.
Para a equipe jurídica, existe um cenário de tempestade perfeita: a Suprema Corte decide não suspender seu caso. Os tribunais de apelações, em conjunto, derrubam qualquer impedimento para removê-lo do país. Nesse ponto, que pode chegar nos próximos meses, ele poderia ser deportado.
Há uma potencial tábua de salvação. O prefeito Zohran Mamdani, de Nova York, pediu no mês passado ao presidente Donald Trump que encerrasse o caso de Khalil e de outros quatro imigrantes da região de Nova York.
Khalil disse que estava grato pelo apoio de Mamdani e que ele e Abdalla esperam criar seu filho em uma Nova York com Mamdani como prefeito. Mas ele diz não sentir que pode contar com uma mudança de opinião de Trump, que no ano passado chamou Khalil de “estudante estrangeiro radical pró-Hamas”.
Ao escrever seu livro, Khalil está se baseando em parte em anotações de diário que escreveu durante seus meses de detenção em Louisiana, algumas contidas em um pequeno caderno preto, outras em folhas soltas cobertas com escrita árabe azul fluida. Ele mantinha o material escondido debaixo de um colchão em sua cela.
“Senti que precisava documentar este momento. Mas ao mesmo tempo não podia escrever meus pensamentos no papel porque temia que o governo pudesse levar essas páginas a qualquer momento.”
Acima de tudo, Khalil buscou enfatizar que sua experiência não foi isolada. Sua hipervigilância é compartilhada por muitos, muitos outros. “Vemos isso em todo o país com imigrantes decidindo ficar dentro de casa, não sair, temendo que o ICE venha atrás deles”, disse ele.
Em um momento durante a entrevista, ele perguntou se seria apropriado se chamar de paranoico. “Essa foi a breve sensação que tive antes da minha detenção: ‘Estou sendo paranoico?'”, disse. Ele se lembrou de sentir que estava, em março passado, momentos antes de ser preso.
Ele estava se aproximando de seu prédio de apartamentos de propriedade de Columbia, sentindo-se nervoso com a forma como estava sendo alvo de deportação online por críticos pró-Israel e apoiadores do governo Trump. Ele passou pelo bar familiar na esquina e sentiu alívio por um momento.
“Eu pensei: ‘Ah, eu estava paranoico à toa. Nada vai acontecer'”, lembrou. Ele subiu as escadas de seu prédio. E de repente, disse ele, “alguém estava andando atrás de mim e ao final me perguntou: ‘Você é Mahmoud Khalil?'”




