Guerra no Irã: Quando Trump recuar, será tarde demais – 12/03/2026 – Mundo

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Em breve, Donald Trump tocará o sino de encerramento de sua guerra contra o Irã. Esse momento terá menos a ver com o cumprimento de sua missão (seja lá o que isso signifique) do que com quanta dor ele consegue suportar. Podemos presumir com segurança que o limiar de dor do Irã é mais alto que o dele. Trump, ainda assim, apresentará sua saída como uma vitória. O Irã terá todo incentivo para garantir que ninguém acredite nele. Esse é o cerne de seu dilema autoinfligido.

Antecipar isso teria sido útil para Trump. Um passo seria ter aumentado as reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos, que caíram drasticamente após a invasão da Ucrânia pela Rússia e nunca foram repostas. Os preços do petróleo e do gás natural podem ter disparado, mas prevenir ainda é melhor que remediar.

Um segundo passo seria ter conquistado o apoio das monarquias do golfo Pérsico para seu plano de guerra com antecedência. O fato de não ter um objetivo definido dificultou isso. Agora ele enfrenta um golfo cada vez mais irritadiço. Um terceiro passo seria ter preparado o público americano para um conflito mais longo. Idem.

A questão é se Trump se deu conta das desvantagens de não pensar à frente. Se estivesse em uma curva de aprendizado, saberia que mesmo um Irã severamente enfraquecido pode continuar a assustar petroleiros no golfo e paralisar grande parte da produção de energia da região. Sem ocupar o Irã, Trump não pode garantir passagem segura no estreito de Hormuz. A produção de drones é descentralizada e difícil de erradicar por ataques aéreos.

Tampouco Trump pode escolher a dedo uma nova liderança iraniana. Outros já observaram que os EUA levaram duas décadas para substituir o Talibã pelo Talibã no Afeganistão. Trump levou pouco mais de uma semana para substituir um Khamenei por outro. Como Mojtaba, o novo líder supremo, é considerado mais linha-dura que seu pai, Trump provavelmente não conseguirá garantir um cessar-fogo iraniano, muito menos uma “rendição incondicional”. O que lhe resta são algumas apostas muito arriscadas.

A primeira seria enviar comandos americanos ou israelenses a Isfahan para apreender o que resta do estoque iraniano de 400 kg de urânio enriquecido. O sucesso ofereceria a Trump uma saída espetacular. De fato, a tentação de uma operação relâmpago que subverta a narrativa do Taco [“Trump Always Chickens Out”, em inglês, ou Trump sempre amarela] pode ser irresistível.

Pairando sobre isso está o fantasma de Jimmy Carter. Sua fracassada missão de resgate de reféns no Irã em 1980 ajudou a afundar sua presidência. Tendo anunciado tantas vezes a obliteração do programa nuclear iraniano, Trump não sobreviveria a um revés equivalente.

Sua outra jogada seria ocupar a ilha de Kharg, no Irã, para interromper suas exportações de petróleo. Tal movimento poderia ser ainda mais arriscado porque envolveria muito mais soldados americanos em terra do que uma operação de comandos —e por muito mais tempo. Estrangularia a principal fonte de receita do Irã e agravaria o choque do petróleo.

Mas sua relação risco-recompensa parece temerária. Após pouco mais de uma semana, o apoio público à guerra de Trump contra o Irã está no mesmo nível em que estava para a Guerra do Vietnã no final de 1967, após mais de 11 mil mortes americanas. Não há tolerância nos EUA hoje nem para algumas dezenas de baixas. Taco é, portanto, uma questão de quando.

Trump ainda pagaria um preço alto por uma declaração unilateral de vitória. O maior risco é que nada aconteça. Ao se retirar, o presidente americano teria revelado ao Irã seu ponto de ruptura, que são os preços de energia em disparada.

O Irã também tem voto na decisão de quando esse conflito termina. Teria toda razão para manter sua perturbação nos mercados globais de energia como dissuasão contra Trump mudar de ideia. O Irã foi atacado por Israel quatro vezes nos últimos dois anos —duas vezes com os EUA de Trump na liderança. Teerã vai querer elevar os custos de outra retomada daqui a alguns meses.

A rota mais segura do regime iraniano para a segurança seria se tornar nuclear. Boa inteligência pode continuar reduzindo a capacidade atômica do Irã a escombros, mas isso não é garantido. A lógica iraniana de correr para o status da Coreia do Norte será convincente. Outros, notadamente Vladimir Putin, da Rússia, e Kim Jong-un, da Coreia do Norte, podem ser tentados a ajudar. Regimes em toda parte estão fazendo os mesmos cálculos com renovada urgência.

Um dano que Trump não pode reparar é à confiança nos EUA. Muito depois de os preços do petróleo terem se estabilizado, o mundo se lembrará de seu governo se vangloriando com a imagética da letalidade, como seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, a chama. Trump escolheu ir à guerra e demonstrou satisfação explícita em seu poder sobre a vida e a morte. A guerra é um passo grave depois que todas as outras opções foram esgotadas. Que Trump tinha outros cursos de ação é bem compreendido. Que ele preferiu este é difícil de ignorar.



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