Muito antes de o presidente Donald Trump o escolher para liderar as Forças Armadas dos Estados Unidos, Pete Hegseth descreveu o chamado moral que o impeliu a se voluntariar para servir no Iraque.
Ele trabalhava em Wall Street no verão de 2005 e leu um artigo sobre um insurgente que se explodiu, matando 18 crianças iraquianas. “Para mim, aquela era a face do mal”, disse Hegseth ao The Princeton Alumni Weekly, acrescentando: “Aquilo me enviou um sinal de que eu precisava fazer a minha parte para não deixar que aquela ideologia vencesse no Iraque”.
Pouco tempo depois, ele foi enviado para a cidade devastada pela Batalha de Samarra, que ocorreu cerca de um ano antes.
Hoje, Hegseth descreve em termos drasticamente diferentes a missão e o propósito moral que levaram à Guerra no Irã, agora em sua segunda semana. O objetivo, disse ele recentemente, é desencadear “morte e destruição do céu o dia todo”. Em vez de buscar justiça, as forças americanas estão buscando vingança contra um inimigo implacável.
“A guerra deles contra os americanos se tornou nossa guerra de retaliação”, prometeu ele.
Por décadas, presidentes americanos e seus secretários de Defesa enquadraram as intervenções militares dos EUA em termos altruístas. Embora a verdade fosse frequentemente mais complexa, eles retratavam as tropas americanas como libertadoras, levando democracia àqueles que viviam sob tirania e opressão.
Hegseth praticamente abandonou esse discurso. Sua retórica belicosa, por vezes vingativa, reflete sua crença de que os objetivos ambiciosos dos EUA no Iraque e no Afeganistão fizeram com que os militares perdessem o foco em sua principal tarefa —matar o inimigo— e levaram a derrotas custosas em ambas as guerras.
Em sua visão, a força militar dos EUA não está enraizada em seus altos ideais, como humanidade ou propósito moral, mas sim em sua capacidade de punir adversários. Qualquer coisa que desvie a atenção dessa missão singular, diz ele, é fraqueza.
“Não estamos em 2003. Não se trata de uma interminável construção de nações”, disse Hegseth na terça-feira (10) no Pentágono. “Nem se compara. Nossa geração de soldados não permitirá que isso aconteça novamente.”
Em vez disso, afirmou, as Forças Armadas dos EUA estavam perseguindo os objetivos de guerra de Trump com “eficiência brutal, domínio aéreo total e uma vontade inabalável”.
Um porta-voz do Pentágono afirmou que as declarações de Hegseth “projetam força, determinação e confiança” para inimigos e aliados em “um mundo cada vez mais perigoso”.
Em 2006, pouco depois da chegada de Hegseth a Samarra, uma explosão destruiu a cúpula dourada de um dos santuários xiitas mais venerados do Iraque. A explosão desencadeou meses de fúria sectária, mergulhando o país em um estado de guerra civil.
Hegseth fazia parte de uma pequena equipe focada na reconstrução de Samarra, onde as forças armadas dos EUA haviam investido dezenas de milhões de dólares. Ele analisou planilhas detalhando os contratos de reconstrução e visitou muitos dos locais, alguns dos quais estavam inacabados ou eram terrenos baldios. Ele concluiu que uma grande parte do dinheiro do Exército estava financiando a insurgência.
Ele e sua equipe redirecionaram os fundos restantes para o chefe do Conselho Municipal de Samarra, que os utilizou para formar uma força de segurança. O líder iraquiano também forneceu informações valiosas sobre o inimigo. Para demonstrar solidariedade, Hegseth e outros soldados de sua equipe passaram a noite na casa do líder iraquiano em conflito. O gesto foi ideia de Hegseth, segundo um ex-soldado de sua unidade.
Aqueles que conheceram Hegseth naquela época o descrevem como ambicioso, apaixonado e dedicado à missão.
Como secretário de Defesa —Hegseth prefere ser chamado de “secretário da Guerra”— ele prometeu que o foco das Forças Armadas voltaria a ser matar o inimigo. “Letalidade máxima, não legalidade morna”, disse ele este ano. “Efeito violento, não politicamente correto.”
Seu diagnóstico das deficiências militares é algo que frequentemente surge após uma guerra perdida. “Sempre há alguém que pensa que, se tivéssemos sido mais cruéis, se tivéssemos matado mais um milhão de vietnamitas, teríamos vencido a guerra”, diz Phil Klay, romancista e veterano do Corpo de Fuzileiros Navais na Guerra do Iraque. “Se você reduz a guerra à sensação de satisfação que se tem ao matar o inimigo, tudo se torna muito mais simples e gratificante.”
As opiniões de Hegseth também refletem as de Trump, que consistentemente rejeitou a ideia de que os EUA, em virtude de sua história singular e status de superpotência, tenham um papel especial no mundo em relação à disseminação da democracia ou à defesa da liberdade.
As visões de Trump e Hegseth se refletem no nome que deram à missão no Irã. No passado, o Pentágono escolheu nomes que buscavam transmitir ao povo americano e ao mundo a mensagem de que os militares lutavam por um ideal superior, como a “Operação Liberdade Duradoura” no Afeganistão ou a “Operação Protetor Unificado” na Líbia.
Para a missão no Irã, Hegseth aprovou “Fúria Épica”, um nome que conota retaliação.
Para os pilotos que realizam as missões e os marinheiros que disparam mísseis contra o Irã, a retórica belicosa é, por ora, provavelmente ruído de fundo. Eles estão focados na tarefa imediata e, muitas vezes, perigosa.
Mas, a longo prazo, justificar as guerras em termos morais, como defender a democracia ou proteger civis, oferece às tropas uma estrutura para entender por que lhes pedem para matar. “A linguagem moral funciona como um andaime psicológico para os militares”, afirma Michael Valdovinos, ex-psicólogo da Força Aérea e autor do livro “Lesões Morais”, ainda inédito. “Quando isso desaparece, as tropas podem ficar sozinhas carregando o fardo moral.”
Uma questão é se uma guerra travada sem um propósito moral claro e com apoio misto do público americano terá um peso maior sobre as tropas que a combatem após o fim das batalhas.
“Alguns podem dizer que pelo menos estão sendo honestos sobre o fato de que é pura força bruta”, diz Elliot Ackerman, que liderou fuzileiros navais na segunda batalha de Fallujah, no Iraque, e agora escreve romances e obras de não ficção que frequentemente abordam a complexidade moral da guerra. “Mas também é muito perigoso. Você está pedindo às pessoas que morram pelas ambições de um presidente e por um cálculo moral que não é maior do que a lei da força.”
Justificativas morais e apoio público são importantes para as tropas que tiram vidas em nome de seu país. “Posso dizer por experiência própria que não é uma sensação nada agradável ter participado de uma guerra que todos consideram um desastre”, diz Ackerman.




