A rotina entre bombas dos que mantêm Teerã funcionando – 13/03/2026 – Mundo

A rotina entre bombas dos que mantêm Teerã funcionando -


Bombas atingem Teerã. Fumaça paira sobre a metrópole de 10 milhões de habitantes. Algumas ruas estão quase desertas. Mas Reza continua dirigindo seu táxi todos os dias pela capital do Irã, em busca de clientes.

“Outro dia, a explosão foi tão forte que um lado do meu carro chegou a levantar do chão”, disse ele, descrevendo um bombardeio na região de Chitgar, no oeste de Teerã, onde tinha ido buscar um passageiro.

Reza, que pediu para usar apenas o primeiro nome para poder falar livremente, é um dos milhares de teeranenses que continuam trabalhando em meio aos constantes ataques aéreos israelenses e americanos para garantir que a cidade continue funcionando sob bombardeio.

Pedreiros estão ocupados consertando buracos, padeiros abrem ao amanhecer e taxistas circulam pelas ruas enquanto colunas de fumaça sobem ao céu. Muitos dos que se abrigam dos bombardeios em suas casas, com medo demais de se aventurar lá fora, podem recorrer a entregadores de bicicleta para receber comida e itens essenciais.

Para a maioria dos trabalhadores, seguir com o trabalho do dia a dia não é uma questão de patriotismo ou caridade, mas de simples sobrevivência. “Sem uma renda diária, como vou comprar comida para minha família?”, disse Reza.

Nasser, um técnico de televisão, disse que recebeu “centenas de ligações” de clientes em toda Teerã que estavam confinados em suas casas e queriam “sintonizar seus canais de televisão por satélite” para acompanhar o que está acontecendo.

Sem técnicos como Nasser, muitos dos que estão na capital do Irã vivem em um apagão de informações, com acesso à internet restrito e TV por satélite bloqueada pelo Estado.

“Estamos entregues à própria sorte sob bombardeio ininterrupto, sem sirenes de alerta, abrigos ou qualquer tipo de proteção, e sem acesso ao mundo exterior”, disse Nadia, uma estudante que foi forçada a ficar em casa depois que as universidades foram fechadas.

No último fim de semana, os teeranenses ficaram sob um manto de fumaça depois que Israel atingiu instalações de armazenamento de petróleo em ataques noturnos. Os moradores foram orientados a permanecer em ambientes fechados para evitar chuva negra tóxica. Do lado de fora, manchas pretas oleosas eram visíveis em carros e superfícies.

Desde então, longas filas se formaram nos postos de gasolina; alguns teeranenses esperam várias horas para conseguir uma cota de 20 litros de gasolina, um terço a menos que a cota normal. Autoridades insistem que o abastecimento será restabelecido em poucos dias.

Teerã sofreu um dos bombardeios mais intensos na madrugada de terça-feira (10). Preocupações com a criminalidade também cresceram na capital após ataques aéreos atingirem delegacias e centros de segurança pública. Muitas casas estão vazias depois que seus moradores fugiram para cidades mais seguras.

Com o aumento das preocupações com roubos, as autoridades insistiram que a cidade permanece segura. O chefe de polícia de Teerã, Ahmad-Reza Radan, disse que os policiais foram “autorizados a abrir fogo” para combater invasores ou ladrões, “para proteger a propriedade das pessoas em tempos de guerra”.

Com o Nowruz, o Ano-Novo persa, a menos de duas semanas, os mercados que normalmente estariam lotados de compradores estão em grande parte vazios.

Mais estabelecimentos comerciais reabriram desde sábado, o primeiro dia útil da semana iraniana, e muitas lojas permanecem abertas e bem abastecidas. Mas, desde domingo, bancos e repartições públicas começaram a operar com 20% do quadro de funcionários, com todas as mulheres autorizadas a trabalhar a partir de casa.

As autoridades afirmam que as reservas de combustível do país estão seguras, os portos estão operando normalmente e as cargas continuam sendo descarregadas. O governo também prometeu que salários e aposentadorias serão pagos em dia, enquanto equipes de emergência estão prontas para responder a interrupções no fornecimento de água e eletricidade.

Funcionários municipais podiam ser vistos trabalhando em partes da capital. “Ainda não fomos mandados para casa”, disse um trabalhador consertando meio-fios no oeste de Teerã. “Nos disseram para continuar trabalhando.”

As forças de segurança mantiveram forte presença nas ruas, com unidades armadas montando postos de controle e inspecionando veículos por toda a cidade.

Junto com apoiadores da república islâmica, eles participaram de manobras noturnas em várias cidades. Em Teerã, grupos de apoiadores do regime têm patrulhado bairros, às vezes acompanhados por veículos militares, gritando palavras de ordem, agitando bandeiras nacionais e usando alto-falantes para transmitir retórica de guerra.

Na praça Tajrish, um importante espaço público no norte de Teerã, um comandante de uma unidade especial da polícia tranquilizou a multidão e pediu que não se preocupassem com rumores de uma invasão terrestre estrangeira.

“Ninguém ousaria sequer pensar que poderia entrar neste país”, disse ele à multidão, com veículos blindados alinhados ao redor da praça. “Estamos todos firmes e fortes. Muitos membros das Basij [paramilitares], forças de inteligência e policiais deixaram suas famílias para estar aqui e garantir que a segurança do país não seja comprometida.”

Os padrões de tráfego sugeriam que alguns moradores de Teerã estavam voltando para casa depois de ficarem fora por uma semana. No sábado, a estrada de Chalus, que liga Teerã às cidades costeiras do Mar Cáspio, foi temporariamente transformada em via de mão única em direção à capital.

Akbar, um vendedor de frutas que vende de sua caminhonete, disse que está constantemente preocupado com sua família em Afsariyeh, um bairro no leste de Teerã que sofreu alguns dos bombardeios mais pesados nos últimos dias.

“Fico pensando em toda a destruição empurrando o país 50 anos para trás”, disse ele. “Quem vai pagar para reconstruir esta terra quando a guerra acabar? Não tenho dúvida de que vão tirar do nosso próprio bolso.”



Fonte CNN BRASIL

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