Entrando em sua terceira semana, a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã está demolindo o aparato militar da teocracia, mas a intensidade dos ataques escamoteia o fato de que a retaliação de Teerã obteve alguns sucessos notáveis e obrigou a revisão da doutrina de defesa aérea no Oriente Médio.
Diversos países árabes do golfo Pérsico, agora alvo principal das ações de Teerã que usualmente seriam concentradas contra o Estado judeu, estão olhando para outra nação que teve de aprender a lidar com o desafio dos ataques maciços com drones: a Ucrânia, em guerra com a invasora russa há quatro anos.
Na semana que passou, delegações ucranianas estiveram em capitais da região para conversar com autoridades de defesa. O presidente Volodimir Zelenski quer trocar sua tecnologia de interceptação de drones por mísseis avançados de defesa aérea.
É incerto que consiga isso, mas é provável que venda aos árabes a tecnologia do Sting, um drone rudimentar com o corpo feito por impressoras 3D que, ao custo de US$ 2.500, é usado para defesa de ponto contra os onipresentes drones russos derivados da família iraniana Shahed-136, que custam dez vezes mais.
Hoje, países como os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait, os mais afetados, usam mísseis de US$ 500 mil contra essas ameaças, reservando os caríssimos modelos americanos do sistema Patriot, que podem chegar a US$ 4 milhões, contra os inúmeros mísseis balísticos de curto alcance e baixo custo, em torno de US$ 100 mil, do Irã.
Não é só dinheiro, ainda que as petromonarquias nadem nele. Há a questão da quantidade de interceptadores à disposição e, se não há transparência alguma sobre estoques disponíveis tanto para os EUA quanto para seus aliados sob fogo, abundam relatos sobre temor de escassez.
Os Emirados, por exemplo, afirmam ter derrubado 94% dos 1.514 drones lançados contra o país de 28 de fevereiro até a quinta-feira (12), e um número algo menor entre os 283 mísseis balísticos disparados pelo Irã. Isso dá a noção da necessidade de armas defensivas, e o Sting parece adequado para dar escala à missão.
A revolução dos drones não começou com a criação do Shahed-136, mas tem nele um marco. A família Gerânio russa é baseada no modelo, e nesta guerra os EUA estão usando pela primeira vez em quantidade o Lucas, uma cópia melhorada do robô iraniano —que por sua vez imitava modelos israelenses mais sofisticados e menos eficazes.
A questão dos mísseis balísticos é mais complexa, e está no foco dos bombardeios americanos e israelenses. Tel Aviv afirma que, dos 7.600 ataques ao rival até a sexta (13), 4.700 foram contra a infraestrutura de estocagem, manejo e lançamento dessas armas.
Os modelos de maior alcance já haviam sido afetados na guerra de 12 dias entre o Estado judeu e a teocracia no ano passado, mas o estoque de curto e médio alcance seguiu intacto, segundo analistas.
“Teerã deveria ter cerca de 400 lançadores móveis, e a destruição deles é, de certa forma, mais prejudicial do que a interceptação dos mísseis”, diz Douglas Barrie, especialista em forças aeroespaciais do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
Esses lançadores têm sido caçados pelos agressores, mas permitiram estragos consideráveis não só aos vizinhos árabes, mas às forças americanas que eles abrigam.
O sucesso mais estrondoso, do ponto de vista militar, que o Irã logrou no conflito foi a destruição de um radar de alerta antecipado AN/FPS-132 baseado em Al-Udeid, no Qatar. É um equipamento de US$ 1,1 bilhão que tem papel central para rastrear mísseis balísticos no Oriente Médio.
Na base de Muwaffaq, centro de operações aéreas dos EUA nesta guerra, um radar AN/TPY-2 do sistema antiaéreo de alta altitude THAAD foi severamente danificado, segundo imagens de satélite. Além do prejuízo de US$ 300 milhões, o ataque obrigou os americanos a improvisar defesas na região.
Os mísseis e drones também expuseram fragilidades defensivas em vários pontos com equipamentos menos dispendiosos, mas essenciais. Os dois terminais de comunicação via satélite da Quinta Frota dos EUA no Bahrein foram destruídos por modestos Shahed-136, enquanto antenas de radar foram alvejadas no Kuwait e nos Emirados.
Contra Israel, onde o controle de informações é ainda mais ferrenho, vídeos permitem dizer que houve ataques a bases e centros de radar e comunicação, além do emprego de barragens duplas com o Hezbollah libanês contra cidades —com o uso das criticadas munições cluster, de fragmentação, para ampliar os danos.
A retaliação não demoveu Trump e Binyamin Netanyahu, mas ao lado da disrupção no mercado de petróleo com os ataques a navios no estreito de Hormuz, o Irã busca com ela aumentar o preço político de sustentar a guerra —que custou, só em ações militares, o equivalente a seis meses de orçamento militar brasileiro nos seus seis primeiros dias aos EUA.




