A pergunta veio sem rodeios, no caixa de um café em Joanesburgo: “No Brasil você é preta?”.
O atendente parecia querer entender as categorias raciais brasileiras em comparação com as sul-africanas.
Expliquei que no Brasil sou uma mulher negra por me autodeclarar parda. “Aqui você seria coloured”, ele me disse. “Mas sei que no Brasil dizer que alguém é de cor é ofensivo”. Na África do Sul, “coloured” é uma categoria específica, herdada do sistema de classificação racial imposto durante o apartheid.
De 1948 a 1994, o regime de segregação classificava oficialmente as pessoas em quatro grandes grupos: “white, black, coloured, indians/asian”. Brancos ocupavam o topo da hierarquia política e econômica. Placas indicavam portas, bancos e banheiros separados para brancos e não brancos, em um grande grupo que somava pretos, “coloureds” e indianos/asiáticos.
Pretos, a maioria da população, eram submetidos às formas mais brutais de segregação territorial, educacional e de acesso a direitos.
“Coloured”, nesse contexto, tem alguma semelhança com o nosso “pardo”, mas é uma identidade racial específica, mais presente na região do Cabo, formada por populações com origens africanas, europeias e asiáticas. Ainda hoje, mesmo após o fim do apartheid, essas categorias continuam presentes em estatísticas, políticas públicas e na vida cotidiana. Porque a África do Sul, assim como o Brasil, reconhece que o racismo existe e é preciso nomeá-lo para corrigir desigualdades.
A conversa no café explicita como as formas de classificação por raça e cor variam entre países. É óbvio, mas tanta gente se perde, que vale repetir.
A ciência já provou que raças humanas não existem como categorias biológicas. No entanto, como o racismo existe, hierarquizando pessoas a partir da cor da pele, raça é uma importante categoria social e política.
Nos Estados Unidos, durante muito tempo prevaleceu a chamada “one drop rule”, a ideia de que uma única gota de ancestralidade africana no sangue tornava alguém negro. Era uma lógica baseada na ascendência. E essa divisão rígida sustentou séculos de segregação legal de negros e brancos.
No Brasil, a lógica é e sempre foi diferente. Aqui, a classificação racial é fenotípica, depende da aparência física, cor da pele, traços, cabelo, não da genealogia. Não é raro que irmãos sejam percebidos de maneiras distintas, classificados em categorias raciais diferentes.
O IBGE reconhece cinco possibilidades de autodeclaração de cor ou raça: preta, parda, amarela, indígena e branca. Desde muito antes das estatísticas oficiais, porém, a sociedade brasileira construiu uma vasta gradação de cores para descrever a mestiçagem. Recentemente, encontrei, além de pretos e pardos, a classificação de “simibrancos” em livros de batismo de pessoas escravizadas em Pernambuco durante os séculos 18 e 19.
Durante décadas, essa multiplicidade foi celebrada como prova de uma suposta democracia racial. A ideia de que a mistura teria dissolvido o racismo brasileiro. A realidade social, porém, conta outra história.
Quando observamos indicadores de renda, escolaridade ou acesso ao emprego, pretos e pardos apresentam resultados muito semelhantes entre si e bastante distantes da média das pessoas brancas. As vítimas de violência, seja pelo extermínio policial ou pelo feminicídio, são, em sua maioria, negras. Por isso, o movimento negro e a sociologia brasileira passaram a usar o termo negros para designar conjuntamente pretos e pardos, que vivem condições semelhantes de desigualdade racial.
No Brasil, não sou preta. Sou negra.




