Matin-Asgari: Irã pode ser fim da ‘doutrina Donroe’ – 15/03/2026 – Mundo

Matin-Asgari: Irã pode ser fim da 'doutrina Donroe' - 15/03/2026


O conflito no Irã pode ser a primeira grande derrota da “Doutrina Donroe” e inibir novas “aventuras imperialistas” do presidente Donald Trump no mundo, na visão do iraniano Afshin Matin-Asgari, professor de História do Oriente Médio na California State University e autor do recém-lançado “Axis of Empire: a History of Iran-US Relations” (Eixo do império: uma história das relações Irã-Estados Unidos).

Para ele, a simples sobrevivência do regime muda a dinâmica geopolítica. “A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região”, diz Asgari, que participou da oposição ao xá Reza Pahlevi e da Revolução Islâmica em 1979, mas tornou-se crítico do regime dos aiatolás.

Donald Trump manifestou a expectativa de que o conflito no Irã tivesse final parecido com a intervenção na Venezuela, onde Delcy Rodriguez, flexível às demandas americanas, tomou o lugar de Nicolás Maduro. Ele também pensou no sírio Ahmed al-Sharaa, que assumiu após a queda de Bashar al-Assad e se aproximou dos EUA. Como o sr. acha que vá evoluir o conflito no Irã?

É muito difícil prever, mas ficou claro que não é como a Venezuela. Não vai ser fácil. Mataram o líder supremo do regime, mas isso não pareceu mudar nada. O lado iraniano estava preparado para continuar mesmo com a liderança dizimada. Eles têm uma estratégia para aumentar o custo da guerra, interromper o fluxo de petróleo, infligir danos aos EUA e seus aliados do golfo Pérsico a ponto de forçar os EUA a ceder e sair. Há uma resistência no Congresso, e a maioria do público americano é contra esta guerra. Isso pode parar Trump. Ele pode estar à procura de uma estratégia de saída, mas não parece ter uma.

Os objetivos de Israel e dos EUA para esta guerra são diferentes. O sr. acredita que, mesmo se Trump declarar missão cumprida, Tel Aviv vá continuar atacando?

Todo mundo sabe que o manual de Israel é bombardear quem quer que seja seu alvo, agora é o Líbano e o Irã, já foi Gaza e a Síria. Eles não se importam com o dano que infligem e não têm que lidar com as consequências caóticas. Mas, se os EUA se retirarem, não está claro quais objetivos Israel pode alcançar. Se Trump for pressionado a parar, não acho provável que Israel continue sozinho. Se fizerem isso, qual é o objetivo? Eles não podem derrubar o regime apenas com bombardeio aéreo. Poderiam apenas enfraquecê-lo.

O sr. aponta que, antes da eclosão da guerra, estava claro que o regime iraniano tinha que mudar, dada a crise político-econômica e os protestos. O que a intervenção dos EUA e de Israel muda nessa equação?

No Irã, tem havido luta e resistência contra a República Islâmica com organizações da sociedade civil, sindicatos, estudantes. As mulheres iranianas conquistaram algumas vitórias, como na prática reverter os códigos de vestimenta obrigatórios. Então, há uma pressão tremenda de baixo por mudança. Mas os problemas no país se acumularam, a economia está à beira do colapso, há escassez de eletricidade e de água. Para além desta guerra, a República Islâmica enfrenta desafios enormes e não pode continuar para sempre sem mudanças, matando pessoas em protestos.

Isso não vai acontecer, porém, enquanto EUA e Israel estão bombardeando as cidades e pessoas. Sob essas condições, se você sair às ruas e protestar, o governo vai atirar em você, vai dizer que você está ajudando o inimigo. Há um potencial realista para mudança pacífica vinda de baixo, mas a guerra tem que parar.

Existe a possibilidade de o nacionalismo ganhar força por causa da guerra e enfraquecer o movimento reformista dentro do Irã?

Sim, é bem possível. Algo assim aconteceu depois da última guerra de junho [os ataques de Israel e EUA contra instalações nucleares no Irã em 2025]. Temporariamente, havia uma sensação de ‘nosso país foi invadido, todos ficamos juntos, saímos disso inteiros’. Algo assim pode acontecer. Mas uma boa porcentagem da população pode ter chegado a um ponto de total impaciência com o regime. O país parece estar muito dividido, o que é perigoso. Poderia funcionar para fortalecer sentimentos nacionalistas. Também poderia preparar o terreno para conflito social e até guerra civil no futuro.

Há grupos de oposição exilados que teriam legitimidade para eventualmente assumir o poder? Até Trump diz que o filho do xá Reza Pahlevi não conta com apoio interno.

Esta ala monarquista está endossando a campanha de bombardeio de seu país. Não acho que isso vá terminar bem para eles. Eu os vejo cada vez mais isolados. No próprio Irã, não há apoio institucional para a monarquia.

O regime tem sido muito eficaz em não permitir que nenhum tipo de oposição organizada se forme. As pessoas são constantemente jogadas na prisão, executadas, eliminadas, suprimidas. Há as chamadas facções reformistas do próprio regime, e elas também foram expurgadas, até as que eram levemente críticas ao regime. Mas há uma convergência significativa de dissidentes e semi-oposicionistas que pediriam algum tipo de transição gradual e abertura do sistema. Nem todo mundo pede a derrubada imediata e violenta do regime. Se eles tiverem alguma presença no processo político, isso pode ser um avanço.

Diante da alta dos preços de combustíveis que pressiona a inflação e pode afetar as eleições de meio de mandato, Trump está sob pressão para declarar missão cumprida. Ele tem maneiras de sair da guerra?

Não importa o que aconteça, Trump vai declarar vitória completa e total, tenha alguma correlação com a verdade ou não. Acho que ele poderia dizer: impusemos uma derrota ao Irã, destruímos as bases de mísseis, eles nunca poderão fabricar uma bomba atômica, vencemos e agora estamos saindo.

É importante destacar que o resultado desta guerra tem um impacto significativo no que os EUA querem fazer globalmente. Eles pensaram que tinham sido muito bem-sucedidos na Venezuela, e Trump colocou outros países na mira. No meio desta guerra, ele estava falando sobre intervenção em Cuba. Se a guerra tivesse sido bem-sucedida, ele poderia nem ter esperado o fim para intervir . Teriam invadido Cuba. Mas agora vai pensar duas vezes. O Irã se tornou um grande teste para a doutrina Donroe, um teste para Donald Trump como o valentão do mundo. Um fracasso no Irã pode inibir outras aventuras imperialistas.

O Irã vai tentar mostrar que ele não foi bem-sucedido?

O Irã conseguiu interromper o fluxo de petróleo, desestabilizar os mercados de energia mundiais, e tudo isso é doloroso para os EUA e o mundo. O objetivo da República Islâmica não é derrotar os EUA ou Israel. Eles nunca poderiam fazer isso. Mas podem aumentar o custo desta guerra, até que o outro lado diga, ok, chega, estamos saindo. Isso seria uma vitória para o lado iraniano e uma derrota para Trump e Israel porque não conseguiram derrubar o regime. E eles se isolaram. O mundo inteiro é contra esta guerra. O Irã se tornou o lugar onde a Doutrina Donroe e a fúria imperialista de Donald Trump foram por água abaixo.

Quais são os custos para a população iraniana?

O povo iraniano está pagando o preço da guerra. Meu irmão mora no Irã e não tive notícias dele até agora. Sei que ele está sendo bombardeado. Mora em uma pequena ilha no golfo Pérsico. A internet foi cortada, ele mora lá com seus 2 filhos. Não tive notícias deles. Eles estão vivos? Não sei. Aqueles de nós que vivemos fora do Irã têm parentes lá. Podemos ver que os EUA atingiram uma escola de meninas e mataram crianças. Israel está atacando o Líbano novamente. Um milhão de pessoas foram deslocadas, centenas foram mortas.

O sr. vê uma mudança no padrão das relações EUA-Irã?

Se os EUA se virem obrigados a sair da guerra, vejo um importante ponto de inflexão não apenas para o Irã, mas para o mundo. A República Islâmica foi capaz de se defender e não ser derrubada pela maior superpotência do mundo, aliada a Israel, a máquina militar mais eficiente da região. Uma República Islâmica sobrevivente poderia reivindicar uma tremenda vitória política. Seria uma grande derrota para os EUA.


Raio-x | Afshin Matin-Asgari, 70

É professor de História do Oriente Médio na California State University. Nascido em Teerã, mudou-se para os EUA após o ensino médio. Matin-Asgari retornou ao Irã em 1978, para participar da revolução que derrubou o xá Reza Pahlevi, mas não apoiou o regime islâmico e voltou para os EUA. Tem doutorado em história do Oriente Médio pela Universidade da Califórnia em Los Angeles e é autor de “Axis of Empire: a history of US-Iran relations”.



Fonte CNN BRASIL

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