O principal responsável pela segurança do Irã, Ali Larijani, tinha a reputação de ser capaz de fazer a ponte entre os elementos militares linha-dura do país e os grupos políticos mais moderados. Sua morte em um ataque aéreo israelense nesta terça (17) pode abrir caminho para que as Forças Armadas do Irã reforcem seu controle sobre o sistema de governo, afirmam analistas.
Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, era o líder de fato do país depois que ataques aéreos dos EUA e de Israel mataram os altos escalões do regime e das Forças Armadas no início da guerra. Ele era conhecido por ter a confiança do aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo que foi morto no início da guerra contra o Irã.
As responsabilidades de Larijani cresceram constantemente nos últimos meses, incluindo a supervisão da repressão brutal aos manifestantes antigovernamentais em janeiro. Ele também mantinha contato com aliados e vizinhos e preparava o Irã para um confronto militar com os Estados Unidos.
Embora fosse um político conservador veterano, Larijani tinha a reputação de ser relativamente pragmático dentro de um sistema cada vez mais dominado por linha-dura. Internamente, ele havia pressionado por um líder supremo moderado para substituir Khamenei, informou o The New York Times nesta semana. Ele perdeu essa disputa, no entanto, e Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá, foi escolhido para substituir o pai.
Um funcionário de alto escalão iraniano disse em entrevista por telefone que recebeu uma ligação com a notícia de que Larijani havia sido morto. Ele descreveu o clima entre os funcionários como de profundo choque, bem como de ansiedade de que Israel não pararia até que todos os membros da liderança do Irã fossem mortos e a República Islâmica derrubada. Ele falou sob condição de anonimato porque não estava autorizado a se pronunciar publicamente.
Além de Larijani, Israel afirmou ter matado também o general Gholamreza Soleimani, comandante da Basij, a milícia à paisana mobilizada pelo regime para reprimir manifestações.
Um membro da Guarda Revolucionária, que também não estava autorizado a falar publicamente, disse que a morte de Larijani e Soleimani provavelmente apenas fortaleceria os linha-dura do Irã para consolidar o poder e não ceder às exigências do presidente Donald Trump. Ele disse que, embora estivesse com raiva e triste ao ouvir a notícia, isso o deixou mais determinado a lutar.
Referindo-se à morte de Larijani, “isso significa uma militarização ainda maior do sistema”, disse Hamidreza Azizi, especialista em questões de segurança iraniana do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, uma organização de pesquisa. As habilidades de Larijani teriam sido essenciais para criar consenso entre as elites após a guerra, observou Azizi.
“Agora que parece que tudo está nas mãos da elite militar, é muito difícil imaginar como e se eles poderão apresentar algumas ideias, ou se poderão demonstrar flexibilidade suficiente para aceitar as ideias do outro lado a fim de encerrar a guerra“, disse ele. “Esse é o processo de redução da elite —a cada camada que você remove, a próxima camada será mais linha-dura.”
Ali Alfoneh, pesquisador sênior do Instituto dos Estados Árabes do Golfo que escreveu uma análise da carreira de Larijani, disse que o assassinato aceleraria a “radicalização do regime” e levaria a um maior fortalecimento da Guarda Revolucionária do Irã, a força militar ideológica do país.
“Israel está assassinando qualquer pessoa capaz de negociar com os EUA”, disse Alfoneh em uma série de mensagens de texto. “A agenda deles é diferente da de Trump. Só resta a linha dura da Guarda.”
Em uma declaração sobre o assassinato de Larijani, as Forças Armadas israelenses afirmaram que a morte “constitui mais um golpe contra a capacidade do regime iraniano de gerenciar e coordenar atividades hostis contra o Estado de Israel”.
Hatef Salehi, analista político conservador iraniano próximo ao regime, descreveu Larijani como o interlocutor mais importante e capaz entre as lideranças de segurança e políticas do Irã. Seu assassinato “diminuiria as chances de se encontrar uma solução política de baixo custo para encerrar a guerra”, escreveu Salehi nas redes sociais.
A morte de Larijani eleva ainda mais a importância de Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e ex-comandante da Guarda Revolucionária que atua como elo entre Mojtaba Khamenei, a burocracia estatal e a Guarda, disse Saeid Golkar, professor da Universidade do Tennessee em Chattanooga que estuda as forças de segurança do Irã. “Ele vai continuar a guerra”, disse. “Eles acreditam que vão criar outra Guerra do Vietnã para os Estados Unidos.”




