É grande a tentação de falar sobre o total desconcerto de Donald Trump durante esta nova guerra que ele inventou e que todos os dias tem três ou quatro justificações novas e contraditórias. Mas morreu Jürgen Habermas, e mesmo numa época como a nossa, convém ter um certo sentido das proporções: falar da loucura de Trump é chover no molhado. Já Habermas abrangia, como filósofo, uma era inteira —a nossa, que vai do pós-guerra até ao início do século 21.
O arco da vida de Habermas foi muito longo. Saindo de uma família alemã que viveu no nazismo banal, dirigindo depois a escola de Frankfurt, neomarxista, e acabando por ser o mais forte representante neokantiano dos valores de um projeto iluminista europeu, inacabado, imperfeito, mas pelo qual vale a pena lutar —porque as alternativas são o que se vê, mas não só por isso.
É certamente injusto, se Habermas continha multidões, resumi-lo como farei adiante. Mas a verdade é que, para os historiadores, não sendo filósofo de um livro somente, o alemão era filósofo de um livro principalmente: “As Transformações Estruturais da Esfera Pública: inquérito a uma categoria da sociedade burguesa“.
Habermas tinha então 32 anos e o livro foi o resultado das suas provas de habilitação acadêmica que lhe permitiam ter uma carreira autônoma, o que no quadro da Escola de Frankfurt significava autônoma em relação a Theodor Adorno e Max Horkheimer.
Os dois foram os grandes patronos que, a partir da geração anterior, do entre-guerras, se tinham tornado notórios por uma crítica acerba ao iluminismo (diz-se que, quando souberam do debate em Davos entre Martin Heidegger, que veio a entrar no partido nazista, e Ernst Cassirer, que defendia até ao fim a democracia liberal e o contratualismo kantiano, exclamaram sobre este último: “o velho está gagá!”).
Com tais pais acadêmicos, a primeira coisa surpreendente no livro de Habermas é que a sua tese tinha uma tese, e que essa tese era uma construção positiva de um argumento histórico, o de que no século 18 emerge uma “esfera pública” de informação e debate que vai estruturar o desenvolvimento da sociedade “burguesa” (que poderíamos também traduzir por “cívica”; o termo alemão bürgerlich é ambivalente e ambas as noções são aproximadas até serem quase indistinguíveis na época em causa, ao contrário do que acontecerá no século 19).
Quando passei 15 anos da minha vida estudando nove anos de censura no tempo do marquês de Pombal (sim, mais tempo estudando a história do que ela levou acontecendo) encontrei muita utilidade na tese de Habermas, embora ela fosse então muito criticada por historiadores. Eu achei-a confirmada, com um paradoxo: nos nossos países (Portugal e Brasil, então juntos) a esfera pública era configurada pelos próprios censores, que viam nela uma emanação do poder do rei e lhe chamavam de “luz pública”.
E a relevância para hoje? Aí voltarei à loucura de Trump para sugerir a hipótese de que ela não é só individual, mas coletiva, e procede da falta de uma esfera sadia de diálogo público. Falamos hoje muito de saúde mental. A inspiração de Habermas deveria levar-nos a pensar se aquilo que nos falta não é sobretudo saúde moral.




