A morte de Ali Larijani, presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional e homem mais poderoso do Irã, é um duro golpe para o regime islâmico iraniano, mas é improvável que mude a estratégia de guerra do país persa.
Essa é a visão do iraniano Mohsen Milani, professor de política comparada na Universidade do Sul da Flórida e autor do livro recém-lançado “Iran’s Rise and Rivalry with the US in the Middle East” (ascensão do Irã e rivalidade com os EUA no Oriente Médio, sem publicação no Brasil).
A morte de Ali Larijani pode fortalecer a ala linha-dura do regime no Irã?
Foi um golpe para a República Islâmica, mas é improvável que mude a estratégia de guerra do Irã. Ele era um insider por excelência: membro de uma das famílias políticas mais influentes do Irã, que cultivou laços estreitos com a Guarda Revolucionária enquanto construía uma ampla rede de aliados.
Seus apoiadores o elogiam como um operador astuto e pragmático, conhecido por sua capacidade de manobra, construção de coalizões e adaptabilidade estratégica. Seus críticos, no entanto, o acusam de ter desempenhado um papel central na morte de milhares de manifestantes durante recentes protestos.
Veremos se ele será substituído por uma figura mais moderada ou mais linha-dura no Conselho Supremo, isso nos dará uma indicação inicial da direção que a República Islâmica provavelmente tomará no futuro imediato.
Quais foram as suposições de Donald Trump que o levaram a pensar que esta poderia ser uma guerra breve?
Os EUA fizeram várias suposições imprecisas sobre a República Islâmica. Uma delas era que o sistema dependia de um homem só e que, ao decapitar sua liderança máxima, o governo entraria em colapso rapidamente. Do ponto de vista operacional, a campanha de decapitação foi muito bem-sucedida e eliminou o aiatolá [Ali Khamenei]. No entanto, o governo não entrou em colapso e um novo líder, o filho de Khamenei, rapidamente o substituiu.
Alguns analistas até imaginaram cenários semelhantes ao da Venezuela. Outros sugeriram uma replicação do modelo sírio. Nenhum desses modelos se materializou no Irã, pelo menos até agora.
A República Islâmica é muito mais institucionalizada e resiliente do que muitos supõem. Suas instituições políticas e de segurança foram deliberadamente projetadas após a revolução de 1979 para resistir tanto à oposição doméstica quanto à pressão externa. O sistema provou ser melhor em sobreviver do que em governar.
O Irã agora está confrontando a única superpotência do mundo e o poder militar mais formidável do Oriente Médio. Sob essas circunstâncias, devemos esperar desdobramentos imprevisíveis e não intencionais tanto dentro do Irã quanto em toda a região.
Em seu livro, o senhor discute a relação entre os curdos iranianos e iraquianos e o regime dos aiatolás. O senhor acha que o plano de armar os curdos para atuarem como tropas terrestres dos EUA no Irã se materializará? E como isso seria percebido pelos 90% da população iraniana que não é curda?
Proteger a integridade territorial do Irã é uma das poucas questões que une os iranianos para além das divisões políticas e ideológicas, incluindo muitos opositores da República Islâmica. Se a população em geral passar a acreditar que o apoio dos EUA a grupos curdos poderia levar à separação da região do Curdistão do Irã, isso poderia desencadear uma forte reação nacionalista.
Se o envolvimento curdo for visto como parte de um esforço mais amplo para democratizar o país enquanto preserva a integridade territorial do Irã, pode ganhar maior aceitação. Mas se for visto como um passo em direção à fragmentação, é provável que provoque resistência de grande parte da população não curda.
Existem grupos de oposição exilados que teriam a legitimidade e o poder para chegar ao poder no Irã?
Há um descontentamento considerável com a República Islâmica entre um segmento significativo da população. Esse sentimento é compreensível. Má gestão, corrupção e sanções paralisantes dos EUA prejudicaram de forma severa a economia do Irã e baixaram o padrão de vida de muitos iranianos. Mas reconhecer a frustração generalizada é uma coisa; traduzi-la em ação política coletiva eficaz capaz de mudar o regime é outra bem diferente.
Derrubar um sistema entrincheirado requer muito mais do que raiva pública. Exige organização eficaz, enormes recursos financeiros, uma visão clara e popular para o futuro e uma liderança que a população possa aceitar. No momento, a oposição, tanto dentro quanto fora do Irã, carece desse nível de coesão e unidade, embora isso possa mudar.
Raio-X | Mohsen Milani
Nascido no Irã nos anos 1950, Mohsen Milani deixou o país persa na adolescência e se radicou nos Estados Unidos, onde se tornou cientista político. Fez doutorado na Califórnia e foi contratado como professor da Universidade do Sul da Flórida, onde fundou o Centro de Estudos Diplomáticos e Estratégicos da instituição. É casado e tem três filhas.




