“Não quero ser pacifista. Quero lutar pela paz”. Estas palavras são de Albert Einstein, já premiado com o Nobel de Física, diante da ascensão do nazismo. Foram escritas em 1931 para o artigo “Por um Pacifismo Militante” (no original em alemão, Für einen militanten Pazifismus). Nele, o cientista associa política e ética, incita o não-cumprimento do serviço militar e denuncia a gastança bélica. A certa altura, cita Benjamin Franklin: “Nunca houve boa guerra, nunca houve paz ruim”.
Projetada para os dias atuais, a mensagem de Einstein se perderia no voluntarismo de Donald Trump e Binyamin Netanyahu. Para ambos, qualquer guerra se justifica se atender aos seus objetivos pessoais, em primeiro lugar. Assim subjugam o interesse maior pelo interesse particular.
Só que a guerra contra o Irã expõe uma trinca e um paradoxo em relação ao pensamento destes senhores. Como destaca o analista de dados G. Elliot Morris, 38% dos americanos apoiam Trump na operação para derrubar o regime de Teerã —a mais baixa aceitação de uma ofensiva militar dos EUA no seu momento inicial de todas aquelas avaliadas por esse tipo de pesquisa. Eis a trinca: Trump foi à guerra, mas o país, majoritariamente, não.
Agora, o paradoxo. Como algo tão impopular, precedido do morticínio e da destruição na Faixa de Gaza, do plano de anexar a Groenlândia, de uma operação sui generis na Venezuela e da ameaça de intervir em Cuba, ainda não fez surgir um movimento antiguerra no país, com a força do que se formou pelo fim da guerra no Vietnã?
O pacifismo militante dos anos 1960 colocou na agenda o slogan “Faça Amor, Não Faça a Guerra”, nos embalos da contracultura. Com a memória viva das grandes marchas pelos direitos civis, o movimento conseguiu ir além das visões moralistas e ingênuas. Apostou que a força das massas poderia alterar a ordem das coisas.
A passagem de uma geopolítica bipolar para a multipolar, além do tensionamento ampliado entre as potências, trouxe conflitos mais complexos. É a partir daí que o pesquisador americano Eric Blanc, da Universidade Rutgers, tenta decifrar a apatia atual. Ele se vale de um conjunto de fatores para responder por que a sociedade americana, que viu Trump gastar US$ 1 trilhão (R$ 5,2 trilhões) com guerras em 2025, ainda não parou o país em sinal de protesto.
Entre os fatores está a sensação de impotência dos americanos. Acreditam que manifestar sua desaprovação, no contexto atual, não vai mudar rigorosamente nada. Preferem acreditar que a guerra acabará logo.
Há a falsa percepção de que “guerras de drones” não ceifam tantas vidas —convenhamos, só se forem as americanas. As destruições aéreas estariam gerando menor impacto na população, poupada até o momento das tristes imagens de caixões com despojos retornando ao país.
Outro fator a considerar: a insatisfação geral com tantos conflitos se dilui nas redes sociais, capazes de mobilizar protestos, sim, mas não de organizar movimentos sociais duradouros. Enfim, o que se tem visto hoje é um ativismo antiguerra disperso, de cidadãos falando para a sua bolha.
Vem aí uma nova onda de protestos No Kings nos EUA. Esperam-se multidões nas ruas. Algo potente pode acontecer no Dia do Trabalho, como rechaço às políticas anti-imigração e à truculência do ICE. Há eleições de meio mandato em novembro. Resta saber se a indignação social americana está testando a sua paciência ou a sua musculatura.




