Sarah Mullally ocupou nesta quarta-feira (25) o cargo de arcebispa de Canterbury na Igreja Anglicana, assumindo como primeira mulher na história da denominação o posto de líder espiritual de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo, em uma cerimônia que combinou tradição e simbolismo global.
A líder religiosa tomou assento na Cadeira de Santo Agostinho, do século 13, na catedral de Canterbury, diante de 2.000 convidados, incluindo o herdeiro do trono britânico, o príncipe William, e sua esposa Kate, o primeiro-ministro Keir Starmer e outros líderes religiosos.
Em seu primeiro sermão como arcebispa, Mullally —usando uma mitra dourada e conduzida por um coral de mulheres cantando e dançando em parte da cerimônia— orou para que “a paz prevaleça” nas regiões do mundo devastadas pela guerra, do Oriente Médio e Ucrânia ao Sudão e Mianmar.
“Ao iniciar meu ministério hoje como arcebispa de Canterbury, digo novamente a Deus: ‘Eis-me aqui'”, disse ela à congregação.
Mullally, uma ex-enfermeira de 63 anos, reconheceu os sofrimentos causados pelas falhas passadas da Igreja em casos de proteção a vítimas de abuso, uma das quais levou seu antecessor, Justin Welby, a renunciar, enfatizando a necessidade de “permanecer comprometida com a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”.
Antes da cerimônia, o bispo Philip Mounstephen, que a abençoaria durante sua instalação na cadeira diocesana, disse à agência Reuters que a chegada de uma mulher a um “cargo antigo, mais antigo que a Coroa” era uma ocasião histórica. “Isso sinaliza uma enorme mudança que ocorreu na vida da Igreja”, afirmou Mounstephen.
Embora a nomeação de Mullally em outubro tenha atraído fortes críticas de um grupo conservador de congregações anglicanas em países majoritariamente africanos e asiáticos chamado Gafcon, o bloco abandonou neste mês os planos anteriores de nomear uma liderança paralela a Mullally, estabelecendo um novo conselho em seu lugar.
As tensões entre cristãos progressistas e conservadores não são exclusivas do anglicanismo, mas o papel do arcebispo é amplamente simbólico e depende de persuasão, diferentemente do papa, que exerce autoridade clara sobre os católicos em todo o mundo.
Arcebispos recentes têm enfrentado dificuldades para superar divisões sobre questões LGBTQIA+ e liderança feminina entre a igreja da Inglaterra, agora mais progressista, e províncias mais tradicionalistas em outros lugares.
Um bispo da Igreja Anglicana no Quênia, alinhada ao Gafcon, adotou um tom mais conciliador ao chegar a Canterbury.
“Mesmo sustentando que isso [bênçãos a casais do mesmo sexo] não é aceitável, queremos argumentar de dentro para que as pessoas também vejam a razão pela qual chegamos a essa conclusão”, disse o bispo Francis Omondi à Reuters.
A própria Mullally tem enfatizado a unidade na diversidade, declarando à Reuters em outubro passado: “Somos uma família com uma raiz compartilhada, e em qualquer igreja global há grande diversidade”.
No início da cerimônia de quarta-feira, ela bateu na porta oeste da catedral, vestindo uma capa presa por um fecho inspirado no cinto que usava como enfermeira do Serviço Nacional de Saúde. Ela foi então recebida por crianças.
Mullally usou um anel dado a um de seus antecessores, Michael Ramsey, pelo papa Paulo VI em 1966, um símbolo da melhoria das relações entre anglicanos e católicos, séculos depois de o rei Henrique 8º romper com Roma, no século 16.
Orações e leituras em múltiplos idiomas, incluindo urdu, ecoaram pela catedral durante a cerimônia, refletindo o alcance global da Igreja Anglicana.
A quarta-feira marca a Festa da Anunciação —uma celebração do relato bíblico de um anjo dizendo a Maria que ela seria a mãe de Jesus— e este foi o tema principal da cerimônia.
“Quando olho para trás em minha vida, para a Sarah adolescente, que depositou sua fé em Deus e se comprometeu a seguir Jesus, eu jamais poderia ter imaginado o futuro que me aguardava”, disse Mullally.




