“A América Latina está preparada para abandonar Cuba?”. A pergunta foi título de recente reportagem do jornal The New York Times, assinada por Simon Romero. O correspondente radiografou a região, hoje com uma galeria de governos de direita, mostrando como aliados da ilha mais à esquerda —México e Brasil, em especial— estão de mãos atadas para ajudá-la a sair da asfixia econômica.
É sabido que qualquer auxílio consistente a Cuba provocará a ira de Donald Trump e seu estoque de represálias. Por isso, o que me intrigou no título interrogativo foi justamente a ideia de uma nação deixada à própria sorte.
Voltei mais de 30 anos no tempo. Revi o momento em que viajei pela ilha, visitando programas sociais no chamado Período Especial, crise pela qual atravessou Cuba após a dissolução da União Soviética. Sempre ao meu lado estava Rafael, jornalista cubano do Centro de Imprensa Internacional.
Vimos petroleiros fundeados, esperando pagamento em dinheiro vivo para descarregar ou então zarpar com o óleo. Os apagões eram comuns. A comida, racionada. Equipes de saúde distribuíam vitaminas para combater a neurite óptica por desnutrição. Usinas processavam o bagaço da cana para gerar alguma energia. Plantios foram reprogramados, idem as pastagens. Escolas teriam aulas sob a copa das árvores, se preciso.
Cultuado como revolucionário ou chamado de ditador, Fidel Castro mantinha linha direta com a população. Num longo discurso em alguma parte da ilha, disse que os cubanos não deveriam falar mal dos russos, cuja ajuda evaporou com o “desmilinguir soviético”. Não fosse por eles, frisou, Cuba não teria aviação.
Daí elogiou os Ilyushins, aeronaves dos tempos da Guerra Fria que conectavam a ilha ao mundo. Garantiu: “traquetean pero arrancan”, algo como “trepidam, mas decolam”. Rafael, sua mulher e eu rimos disso, numa visita que lhes fiz antes de retornar ao Brasil.
Voltei certa de que a ilha sairia da crise. O mundo parecia menos complexo, as medidas emergenciais funcionavam e havia ajuda internacional, apesar do bloqueio. Trabalhando numa série de reportagens, ouvi de um veterano jornalista: “Desiste. Cuba não dura três meses”. O obituário da ilha estava pronto nas Redações. Ela sobreviveu.
Hoje, analistas mais tarimbados do que esta colunista colocam suas certezas de molho. Trump fala do regime falido num país com fome, que ele terá a honra de conquistar. Como? Reproduzindo o assalto tecno-militar da Venezuela? Projetando uma Cuba nos moldes de Porto Rico? Oferecendo campos de golfe com vista para o mar?
Fica evidente que o motor da economia cubana tem problemas. A crise energética se agrava. A penúria cresce. E o aparato político está sob pressão. Mas qual é a percepção profunda dos que vivem essa realidade? Desde 2020, 25% dos cubanos deixaram a ilha, algo dramático —entretanto, 75% permaneceram. São pessoas que estudaram e se politizaram.
Esta semana, um repórter da BBC ouviu grávidas em Havana sobre um eventual apagão na hora do parto. Uma delas fez questão de externar a sua contrariedade. Outra reconheceu a gravidade de dar à luz no escuro, mas faria a sua parte “no esforço coletivo de atravessar o momento”. Duas reações tão distintas.
Martinianos, castristas, guevaristas, comunistas, socialistas, capitalistas, ateus, católicos ou filhos de santo, a diversidade resiliente desta gente precisa emergir. Pode ser o motor que falta a Cuba.




