Trump é bom para negócios, diz fabricante do caça Gripen – 27/03/2026 – Mundo

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“Claro que é bom para os negócios”, diz, com a relutância que a moderação nórdica lhe impõe, o sueco Micael Johansson. O presidente da Saab, maior grupo de defesa de seu país, definiu assim a volta de Donald Trump ao centro do poder mundial.

Em conversa com a Folha na quarta-feira passada (26), após o lançamento da versão produzida na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto (SP) de seu mais famoso produto, o caça Gripen, que é operado pelo Brasil, Johansson avaliou o impacto da nova realidade geopolítica na indústria de defesa europeia.

“Acho que ele está certo”, diz, sobre o republicano ter enfatizado a necessidade de a Europa se proteger sozinha. “É claro que isso é em combinação com a guerra na Ucrânia e com os EUA priorizando mais o Oriente Médio e o Pacífico. Precisamos investir em mais capacidade”, afirma.

“Por que devemos gastar 70% dos acordos de defesa na Europa com os EUA ou a Coreia do Sul, quando temos indústrias fortes? É um pouco estranho. Nós devemos parar de falar sobre esse setor como algo ruim à sociedade. É claro que seria ótimo que não tivéssemos nenhum conflito, mas você tem de ter dissuasão”, afirma.

Desde que retornou à Casa Branca em 2025, Trump passou a fatura da ajuda a Kiev contra a invasão russa para os aliados europeus na Otan e levou a aliança a elevar sua meta de gasto com defesa para 5% do PIB em dez anos, sendo 3,5% desse total na parte militar e 1,5% na infraestrutura correlata.

Com a guerra contra o Irã, iniciada ao lado de Israel há um mês, a relação azedou ainda mais. Trump passou a chamar os europeus de covardes, ainda que não os tenha consultado sobre o ataque, porque queria que eles ajudassem a desobstruir o estreito de Hormuz.

Ao mesmo tempo, abriu oportunidades inclusive para a Saab, que em 2024 era a 28ª maior empresa de defesa do mundo em receita no ranking do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. Isso pode mudar: de lá para cá, a fabricante viu seu faturamento crescer em quase 120%.

“Há requerimentos do Oriente Médio sobre nossos sensores, para ser capaz de criar uma consciência situacional num ambiente muito contestado com mísseis e drones. A demanda aumentou de repente”, afirmou, sem citar nomes de clientes.

Johansson rejeita a ideia de que esse foco relegou a Ucrânia a segundo plano. “Acho que é mais uma mudança em termos de cobertura de mídia”, afirmou. Os governos europeus, diz, seguem empenhados no apoio a Volodimir Zelenski.

A Saab ganhou destaque no fim do ano passado quando a Suécia assinou com a Ucrânia um acordo para a produção potencial de até 150 caças Gripen para Kiev. Por evidente, esse número é inatingível no curto prazo e com as capacidades industriais do país, para não falar em quem vai pagar a conta.

Mas é uma janela que se abre, e pode até favorecer o Brasil. “Ainda é cedo para dizer”, diz Johansson, “mas aqui [Gavião Peixoto] não é só para atender o contrato brasileiro, é para exportação”.

O primeiro cliente externo além da Força Aérea Brasileira que a unidade paulista deverá atender é a Colômbia, até pela questão geográfica. Bogotá assinou um pedido para 15 caças monopostos Gripen E, como o feito na Embraer, e 2 do tipo F, para dois pilotos.

Mas um eventual contrato grande com a Ucrânia, de longo prazo, pode não só envolver alguma produção local, mas também o fornecimento de sensores e partes do avião. A grande tela única usada pelo Gripen E no Brasil e na Suécia é feita pela gaúcha AEL, por exemplo.

Há a questão da escala. O primeiro Gripen nacional demorou quase três anos para ser feito, uma vez que era o primeiro do tipo e tudo tinha de ser testado. Agora, já há outros três em produção. “Estamos aumentando a capacidade na Suécia”, diz o executivo.

Sediada na cidadezinha de Linköping, a empresa hoje produz cerca de 15 Gripen por ano, um serviço quase de butique comparado com as grandes linhas americanas de F-35.

“Queremos ampliar logo para 20 ou 30, e talvez precisaremos de mais uma fábrica no exterior”, afirma, citando o Canadá como candidato —o país está revendo uma compra do modelo F-35 e pode adquirir o Gripen.

O novo cenário militar também pode impactar a vida do Gripen, que hoje tem 160 aeronaves do modelo C/D, a geração anterior à atual, voando em seis países. A família E/F tem 11 de 36 aviões brasileiros entregues, 3 de 60 encomendas suecas e pedidos da Colômbia (17) e Tailândia (4).

A experiência na Ucrânia e no Oriente Médio tem mostrado que quantidades são tão importantes quanto capacidades, noção abandonada nos anos após o fim da Guerra Fria.

Guerras de atrito demandam volume, e o Gripen é muito mais barato de fazer e operar do que um F-35 ou mesmo um rival como o francês Rafale, da sua mesma geração. A hora-voo do sueco custa cerca de US$ 5.000, ante US$ 35 mil do americano e quase US$ 20 mil do modelo da França.

“Temos uma capacidade de assumir vários perfis de missão muito ágil, que pode ser um complemente para o F-35 ou o Eurofighter Typhoon”, disse. “Os países estão contemplando massa de combate”, afirmou.

Além disso, a Saab está de olho não só no Canadá, mas também em Portugal como mercado mais imediato, e isso é cortesia de outro aspecto da presença de Trump como presidente dos EUA: ambos os países revisaram seus pedidos de compra por desconfiança política do republicano.

O jornalista viajou a convite da Saab.



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