Ano Cultural Brasil-China: país pode ser interlocutor – 27/03/2026 – Igor Patrick

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O Ministério da Cultura anunciou ontem o início do Ano Cultural Brasil-China 2026, com programação de artes cênicas, música, cinema e intercâmbio ao longo do ano. A iniciativa chega num momento em que a opinião pública brasileira é mais favorável à China do que aos Estados Unidos pela primeira vez em décadas, e essa janela pode ser mais útil do que parece.

A China constrói uma presença cultural fora de suas fronteiras há muitos anos, e o Brasil é o país da América do Sul onde esse esforço mais avançou. Hospedamos 14 Institutos Confúcio, mais do que qualquer outro país sul-americano, e, ao contrário do que aconteceu nos EUA, onde a pressão em Washington levou ao fechamento de vários deles, as universidades brasileiras os receberam sem resistência relevante.

Na internet, os chamados C-Dramas pegam carona no sucesso dos doramas coreanos e também conquistam uma parcela própria de espectadores brasileiros fieis. Vídeos curtos em redes sociais como TikTok e Kwai apresentando a estética urbana “cyberpunk” de cidades chinesas também têm viralizado frequentemente. A China, como apontei neste espaço há uns meses, virou “trend”.

Os efeitos disso já começaram a aparecer nas pesquisas de opinião. Levantamento da Quaest mostrou que 49% dos brasileiros têm visão favorável à China, número que superou pela primeira vez os EUA, em 44%, em 2024 e 2025. Com o fim da exigência de vistos, o interesse em viajar ao país cresceu mais de 200% em buscas na plataforma Booking.

Mas há limitações no alcance destas iniciativas que devem ser notadas por ambos os lados na construção de uma agenda cultural efetiva. Observadores costumam falar de um “problema epistêmico”, em que o intercâmbio tende a ser monólogo, não diálogo. O Brasil recebe bolsas e exibe mostras, enquanto a China raramente pergunta o que o Brasil pensa.

Especialista da Observa China, Paulo Menechelli tem documentado o fenômeno há anos e com precisão que poucos analistas alcançaram. Sua pesquisa mostra que a estratégia está longe de ser propaganda canhestra, mas que frequentemente esbarra na discrepância na forma como os chineses se percebem e como o país é visto pelo mundo latino-americano.

A maioria dos brasileiros ainda vê a China pelo filtro da autocracia e do mercantilismo. Pequim tem dificuldade em mudar isso em parte porque, incerta sobre qual cultura vale exportar, tende a publicizar uma narrativa sem arestas. Um país que não tolera autocrítica dificilmente produz cultura que ressoa de forma genuína, e o público percebe a diferença entre uma obra viva e um produto institucional bem-acabado.

Seria bom para os dois lados que o Ano Cultural que se desenha vá além de turnês muito bonitas de acompanhar, mas vazias de estratégia a longo prazo. É preciso incentivar a troca genuína entre artistas, ampliar as traduções de nossas literaturas, produzir produtos culturais conjuntos, discutir nossas semelhanças e ganhar nas diferenças.

Quero estudantes na China lendo Machado e brasileiro discutindo Lu Xun na sala de aula. Quero adolescentes no Brasil cantando as músicas do WayV com o mesmo fôlego com que cantam as do BTS, enquanto os chineses se deliciam com nossa MPB, bossa, funk e rap. Quero mais José Padilha, Fernando Meirelles, Walter Salles e Kleber Mendonça Filho em salas chinesas e Wong Kar-Wai, Zhang Yimou e Jia Zhangke pelos cinemas do nosso país.

Se o Ano Cultural 2026 se limitar ao roteiro usual de mostras, confirmará a impressão de que cabe ao Brasil um papel de audiência e não de interlocutor. A China também ganha ao ouvir, e reconhecer isso poderia transformar o evento em algo mais do que um calendário com curadoria de Pequim.


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